Diálogo difícil entre academia e setor privado, falta de profissionais treinados para lidar com a transferência do conhecimento criado nas universidades, salários pouco atrativos no setor acadêmico, ausência de um sistema para medir o retorno das tecnologias licenciadas. O retrato é do Brasil? Não! Essa foi a descrição apresentada por David Secher, consultor, da Universidade de Cambridge, da Inglaterra, ao tratar da interação entre os setores acadêmico e empresarial dos países do Reino Unido, a quem assistiu à sua palestra no workshop internacional "Physics and Chemistry of Climate Change and Entrepreneurship", organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em parceria com os britânicos Institute of Physics (IOP) e Royal Society of Chemistry (RSC), realizado nos dias 26 e 27 de fevereiro, em São Paulo.
Secher é presidente da Unico, associação que reúne cem universidades britânicas e tem como objetivo facilitar e estimular a transferência do conhecimento produzido no setor acadêmico. Biomédico de formação, Secher também já atuou no setor privado e tem experiência no que chama de "construir pontes de ligação", ou seja, aproximar a academia das empresas. Para ele, a disseminação da prática da inovação aberta - na qual as empresas realizam suas atividades de P&D em parceria com universidades e institutos de pesquisa -, requer muito maior interação entre as partes. De acordo com o consultor, é aí que surge a necessidade de profissionais como ele, que possam promover o melhor entendimento possível entre os parceiros. Para ele, os profissionais dedicados à transferência de tecnologia são "intermediários".
Em sua palestra, Secher lembrou que, nos EUA, a aproximação entre academia e setor privado foi regulada já em 1980, com o Bayh-Dole Act. No Reino Unido, a opção foi criar um fundo governamental, o Higher Education Innovation Fund, o que aconteceu apenas em 2000. Secher contou que o fundo tem 60 milhões de libras (US$ 85,8 milhões) anuais para aplicação em transferência de tecnologia das universidades para o setor privado. No Brasil, o marco da constituição de um sistema de transferência foi a Lei de Inovação federal (10.973), de 2 de dezembro de 2004, que obriga as universidades públicas a criar um órgão que faça a gestão da política de propriedade intelectual e de transferência de tecnologia.
No Reino Unido, contou Secher, essa transferência se dá, principalmente, pelo apoio ao empreendedorismo, ou seja, à criação de empresas a partir das pesquisas acadêmicas, chamadas de spinoffs ou spinouts. "Em dez anos, o Reino Unido se nivelou e até superou os Estados Unidos em algumas áreas", afirmou ele, ao falar da criação dessas empresas. Segundo o consultor, o Reino Unido investe cerca de US$ 20 milhões para criar uma spinout, enquanto o valor investido nos EUA para isso é, em media, de US$ 90 milhões.
Os desafios do Reino Unido
Secher enumerou os desafios que a política de transferência de tecnologia enfrenta no Reino Unido. O primeiro deles é a falta de pessoas capacitadas para ser os intermediários entre a universidade e a empresa. "Precisamos de pessoas com experiência nos dois ambientes, que tenham doutorado e entendam o método e o processo de pesquisa da universidade e também o lado comercial", define.
Outro ponto ainda não resolvido pelos britânicos - e também um problema para o sistema de inovação no Brasil - é a indefinição de uma metodologia para medir o impacto e retorno da transferência de tecnologia. Assim como no Brasil, no Reino Unido os recursos diretamente gerados pelo licenciamento eram considerados indicador. Reconheceu-se, depois, que a receita de royalties não é o indicador ideal. O melhor é avaliar o impacto econômico provocado pela criação de uma empresa. Definir os critérios para esse impacto é o complicador. No Brasil, têm sido considerados o número de empregos gerados e o volume de impostos pagos pela empresa. "Precisamos medir os impactos econômicos e sociais", disse ele.
As universidades, por sua vez, precisam definir claramente qual a sua estratégia e, dentro dela, o papel da transferência de tecnologia. Secher explicou ainda que atrair profissionais para trabalhar na gestão da relação da universidade com a empresa é difícil por causa dos salários, mais baixos do que os de mercado. Os escritórios de transferência de tecnologia e gestão da propriedade intelectual são pequenos nas universidades britânicas. "Para construir laços entre a academia e a indústria, é preciso ser persistente, paciente, trabalhar com objetivos e orçamentos realistas", aconselhou o consultor. Ele acrescentou que a universidade precisa saber quais são seus pontos fortes.
Outro desafio que persiste no Reino Unido, quase dez anos depois da criação do fundo para transferência de tecnologia, é a mudança de cultura. Há pesquisadores para os quais as empresas estão tentando explorar e enganar as universidades. No setor privado, por sua vez, é comum a ideia de que os cientistas não entregarão o que previram em suas pesquisas. A mesma dificuldade é observada no Brasil. No País, a Lei de Inovação obriga as universidades públicas federais a criar órgãos que elaborem e façam a gestão da política de propriedade intelectual e de transferência de tecnologia. As universidades estaduais paulistas seguiram essa determinação, criando as chamadas agências de inovação. Contudo, muitas delas trabalham com profissionais que são bolsistas das agências de fomento à pesquisa. Se isso reduz o gasto da universidade com a agência de inovação, cria o problema da rotatividade: quando a pessoa começa a dominar as questões do trabalho, a bolsa termina e ela é substituída. (J.S.)