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Especialista diz que desafio é transformar genética em algo útil para tratamentos

Publicado em 26 junho 2010

Poucos anos depois que o Projeto Genoma Humano foi anunciado, nos Estados Unidos, o bioquímico inglês Andrew Simpson estava no Brasil envolvido em estudos no escritório local do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer. Foi ele o responsável pelo Projeto Genoma do Câncer Humano, dirigido pelo laboratório e pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que tinha o objetivo de integrar as descobertas genéticas ao estudo dessa doença, que mata anualmente milhões de pessoas em todo o mundo.

Por aqui, Simpson analisou também em detalhes a Xylella fastidiosa, uma bactéria que é transmitida por um inseto e que bloqueia sistemas que transportam água e sais nas folhas em lavouras de frutos cítricos. Ela provoca a doença "amarelinho", capaz de matar a planta e que resulta em prejuízos aos produtores. Atualmente, o inglês é diretor científico do Instituto Ludwig em Nova York.

Em entrevista por e-mail, Simpson contou ao R7 que, 13 anos após o sequenciamento do genoma humano, em breve, poderemos usar o genoma alterado de um tumor como uma impressão digital genética para detectá-lo.

R7 - Quais são os resultados até agora do Projeto Genoma Humano?

Andrew Simpson - Conhecemos o conjunto completo dos genes humanos e, agora, como eles variam entre os indivíduos. Também avançamos muito para saber como o genoma é alterado em alguns tipos de doenças, principalmente o câncer. Apesar de um grande avanço no conhecimento, houve pouco progresso em termos práticos.

R7 - O que não alcançou os resultados esperados?

Simpson - Ainda não podemos curar doenças a partir do conhecimento do genoma. E a expectativa de que conseguiríamos fazer isso foi exagerada. No entanto, existe um rápido progresso na medicina em termos históricos, e a genômica terá, cada vez mais, um papel maior. Por exemplo, no meu campo de pesquisa do câncer, o conhecimento das mudanças genômicas está levando ao desenvolvimento de novos remédios, direcionados a essas alterações. Só que o desenvolvimento e os testes desses novos medicamentos levam muitos anos e ainda estamos longe disso.

R7 - Quais são os futuros desafios?

Simpson - O outro desafio é transformar todas essas informações em algo útil. Nesse caso, já é possível o diagnóstico baseado na genômica. O grande avanço é que a tecnologia de sequenciamento está se desenvolvendo tão rápido que conseguimos sequenciar todo o genoma de uma pessoa por R$ 18 mil em poucas semanas. Em breve, o genoma completo de todos os tumores em hospitais de ponta será sequenciado e essa informação guiará o tratamento de doenças. Outra aplicação será usar o genoma alterado de um tumor como uma impressão digital genética e usá-lo em uma espécie de perícia para detectar o tumor, graças ao fato de que ele derrama uma grande quantidade de DNA no sangue e em outros fluidos do corpo.

R7 - Em sua avaliação, quais são as perspectivas para o estudo do genoma no Brasil?

Simpson - O Brasil é grande em genômica, e as perspectivas são muito boas. É uma área em que se deve continuar investindo em pesquisa.