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ESPECIAL | Volta às aulas no “novo normal”: tudo o que você precisa saber

Publicado em 02 outubro 2020

Por Fernanda Montano

As escolas estão se preparando para o retorno das aulas presenciais, quando forem liberadas, prevendo desinfecção de mochilas, recreios escalonados e termômetros na entrada. Mas o que mais deve ser levado em conta para que as crianças sejam recebidas com o acolhimento necessário? Veja o que essas instituições vêm planejando e como está funcionando para aquelas que já voltaram

Após praticamente seis meses de quarentena, os pais nunca se sentiram tão em dúvida: se por um lado não veem a hora de os filhos voltarem para a escola, de outro, sentem medo de expor as crianças ao risco da contaminação pelo coronavírus. E realmente não é uma decisão fácil: inúmeros pontos devem ser levados em consideração e, ainda assim, será uma decisão muito pessoal, de cada família.

A primeira questão é, ainda, no âmbito macro, uma posição que deve ser tomada com grande cautela pelos órgãos políticos e instituições de ensino, uma vez que um retorno precoce, realizado sem condições efetivas de segurança, pode ter impactos muito mais prejudiciais aos aspectos físico e psicológico, tanto dos pais, quanto das crianças. “As famílias só poderão de fato sentir confiança nas medidas adotadas pelas escolas quando estas estiverem apoiadas em dados científicos mais amplos, que envolvem todos os demais segmentos da sociedade, sobretudo aqueles vindos dos órgãos de saúde. Assim, à medida que a sociedade identificar o momento mais oportuno e construir essa nova condição, ainda que seguindo alguns protocolos específicos, o sentimento de segurança dos pais tende a aumentar, impulsionando a adesão aos planos de reabertura das escolas”, afirma a psicóloga e psicopedagoga Letícia Cavalieri Beiser de Melo, professora da PUC-PR – Maringá (PR).

Nesse sentido, é importante ficar atento às discussões sobre o tema. No dia 14 de julho, em um debate virtual promovido pela Fapesp e Instituto Butantan, o pesquisador e professor Eduardo Massad, da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirmou que, se as aulas voltassem em setembro, de cerca de 300 mortes registradas atualmente de menores de 5 anos no país, o

total saltaria para 17 mil, o que deixou as famílias ainda mais receosas. Porém, dois dias depois, o secretário de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, disse que a projeção seria de 1.577 mortes, e que houve um erro na divulgação do estudo de Massad. O professor da FGV confirmou que ocorreu um “mal-entendido”, e afirmou que, nos primeiros 15 dias, a projeção é de 1,5 mortes, e que as 17 mil seriam até o fim da pandemia. Além disso, a estimativa se refere a crianças, adolescentes e adultos da comunidade escolar em todo o Brasil. Números significativos, de qualquer maneira.

Por outro lado, um estudo preliminar, realizado pelo Instituto Pasteur, na França, com 1.340 pessoas de seis escolas de ensino básico de Crépy-en-Valois, no norte do país, sugeriu que as crianças transmitiriam pouco a covid-19 para seus colegas e adultos nas escolas. Das 510 crianças, entre 6 e 11 anos, que participaram da análise, o índice de transmisão do novo coronavírus entre os pequenos ficou em 8,8%. No entanto, o próprio autor da pesquisa, Arnaud Fontanet, chefe da Unidade de Epidemiologia das Doenças Emergentes do Instituto Pasteur, afirma que outros estudos são necessários para comprovar essa tese.

Em meio a tantas informações que mudam a todo momento – novos estudos surgem a cada dia, muitas vezes um contradizendo o outro –, fato é que há intenção para a reabertura das escolas para um futuro próximo, e cabe a cada estado e município estabelecer suas datas.

Em São Paulo, epicentro do novo coronavírus no Brasil, o governo anunciou em junho o plano de retomada da educação, com início das aulas previsto para 8 de setembro, em três fases: inicialmente, 35% dos alunos, depois 70%, até chegar à ocupação total das escolas. Depois, a data foi adiada para 7 de outubro. Esse retorno aconteceria com instituições públicas e particulares voltando ao mesmo tempo. A Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar) está de acordo e, quando consultada por esta reportagem, ressaltou apenas dois pontos que, segundo ela, estão em discussão e negociação com o governo do estado de São Paulo: a possibilidade do retorno regional, ou seja, escolas que estiverem nas áreas amarela e verde por um determinado período poderiam voltar, respeitados os protocolos públicos; e a segmentação, pois a Abepar entende que há motivos de sobra para que o retorno gradual se faça a partir das crianças de creches e de escolas de Educação Infantil, estendendo-se gradualmente para os outros ciclos se tudo correr bem.

Até o fechamento desta edição, nove estados mais o Distrito Federal já tinham planos de retorno às aulas presenciais nas redes públicas estaduais em agosto ou setembro: Acre, Rondônia, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Tocantins, Santa Catarina e Paraná, além de São Paulo. No entanto, todos devem aguardar autorizações dos órgãos de saúde e também farão retorno gradual, seguindo os protocolos exigidos.

DÚVIDA CRUEL

Sabemos da realidade do nosso país e, por isso, muitos pais não se sentem seguros com a decisão de retornar às aulas em outubro, como deve acontecer na maior parte das cidades brasileiras. O que se vê com frequência nas discussões de grupos de pais no WhatsApp ou nas redes sociais são famílias decididas a não mandar mais os filhos para a escola este ano ou até mesmo enquanto não houver vacina. A analista de vendas Hanã Carreiro, 32 anos, já resolveu que a filha Izabelly, 8, não voltará para as aulas presenciais em 2020. “Não tenho segurança nenhuma em mandá-la para a escola. Aqui em Vitória (ES), os casos não param de surgir. As crianças não têm maturidade para administrar higienização da forma necessária e manter a máscara no rosto”, diz. Segundo ela, muitas outras mães da turma da filha são da mesma opinião.

Ainda há muitas famílias que não conseguiram bater o martelo – e isso, inclusive, virou motivo de discussão em casa. É o caso da servidora pública Fabiane Zagatto, 39 anos, mãe de Henrique, 6 anos, Amanda, 4, e Gustavo, 1. “Meu marido acha que eles devem voltar e eu, não. Fico muito na dúvida, já até dividi essa angústia com a coordenação escolar. Porque mesmo a escola tendo todo o cuidado do mundo, há vários pais que mandam as crianças com algum sintoma, mas dão remédio antes para mascará-lo. Embora confiemos na escola, não sei se confio no bom senso de todos os pais”, desabafa.

A grande maioria das escolas já prevê o modelo híbrido, com aulas presenciais e online, e também a possibilidade de permanecer somente no virtual, caso a família opte por não retornar. Como isso será feito, vai variar de instituição para instituição. E muitas estão realizando pesquisas com os pais para ter um levantamento prévio de quantos estudantes pretendem permanecer em casa. Na rede pública, isso vai depender de cada estado ou município, mas há possibilidade de que o aluno leve falta, mas possa compensá-la realizando trabalhos extras.

Assim como existem os reticentes quanto ao retorno escolar presencial, há os que mal esperam por isso. Acontece com quem está em home office, com os filhos em casa, que precisam voltar a trabalhar e não têm com quem deixar as crianças – tudo isso gera situações de muito estresse devido ao confinamento. Seja qual for o motivo, há pais que estarão ansiosos na porta da escola assim que ela abrir, sem nem pensar duas vezes. “Preocupada eu fico, mas não tenho medo, sabe? Acho medo uma palavra meio forte. O que mais pesa para mim é a saúde mental deles. Ficar preso assim dentro de casa, definitivamente, não é bom. Não adianta querer blindar a saúde física em detrimento da saúde mental”, diz a gerente de compliance Mariana Cury, 39 anos, mãe de Théo, 6 anos, e Leo, 1.

Com tantas emoções e dúvidas por parte de mães e pais, como, afinal, as escolas estão lidando com tudo? A maioria já vem fazendo há pelo menos dois meses sondagens com as famílias para tentar prever a taxa de retorno no momento oportuno. “As professoras sempre ligam para saber como estamos e falam das medidas que estão pensando em adotar. A escola também tem mandado pesquisas para que a gente diga o que considera importante neste momento”, conta a analista comercial Denise Russo, 33 anos. Mesmo assim, ela ainda está na dúvida se mandará a filha Cora, 3, quando voltarem as aulas presenciais. “Estou bem dividida. Acho que no mundo ideal estaríamos todos isolados e com condições de fazer isso, mas claramente vivemos longe do ideal”, diz.

EXPERIÊNCIA DE QUEM JÁ VOLTOU

Sim, até a conclusão desta edição algumas escolas já haviam retomado as atividades, ainda que com capacidade reduzida, em estados como Amazonas, Rio de Janeiro e Mato Grosso. É o caso das unidades Maple Bear, de Sinop e Sorriso (MT). Ambas trabalham com educação infantil e, mesmo com as aulas presenciais, foi mantida a modalidade de ensino à distância para as famílias que optaram pela continuidade do isolamento social. “Tivemos mais de 50% de alunos que retornaram. As salas são grandes, o que permite manter o distanciamento entre as crianças, além de termos sempre duas professoras e mais uma auxiliar por turma. As crianças voltaram muito felizes e as brincadeiras mudaram – são feitas com kits individuais, por exemplo –, mas continuam existindo”, conta Cintia Sant’Anna, diretora acadêmica da Maple Bear.

As escolas vêm seguindo todos os protocolos recomenda- dos, como escalonamento de horário de entrada e saída para evitar aglomeração, aferição da temperatura de alunos e fun- cionários na entrada, desinfecção das solas dos sapatos e das mochilas, treinamento de toda a equipe para garantir a lim- peza constante de ambientes e materiais, retirada de brinque- dos que não possam ser higienizados, como pelúcias, uso de garrafas individuais em vez do bebedouro e adoção de mate- riais individuais. “Algumas coisas só conseguimos ver na prá- tica, e vamos ajustando. Por exemplo, trocamos as máscaras dos professores pelos face shields [espécie de viseira de acrílico transparente que cobre o rosto todo], pois as crianças pequenas não conseguiam entender o que eles falavam sem poder olhar para o movimento labial”, relata a diretora.

A juíza Emanuele Navarro, 44 anos, mãe de Theodora, 5, e Bento, 3, alunos da Maple Bear, conta que teve receio, mas a volta foi tranquila, porque a escola apresentou um plano de retomada bem completo. “Achamos que eles iriam dar trabalho para usar máscara, lavar as mãos constantemente, mas é questão de hábito. Eles estão felizes com o retorno e já incorporaram o álcool em gel em suas vidas”, diz.

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AMBIENTE SEGURO

Tantas variáveis e pontos de atenção podem deixar os pais perdidos em meio ao volume de informação. Quais são, afinal, as medidas de higiene e segurança que você deve observar na escola do seu filho? Os departamentos científicos de Imunizações e de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria elaboraram um documento com orientações para a volta às aulas e sugerem, entre outras, medidas como deixar as janelas abertas, manter os ambientes arejados e estimular atividades ao ar livre.

A boa notícia é que as escolas tiveram tempo para se preparar. Insituições de todo o Brasil vêm se organizando para o retorno há meses, tanto no que diz respeito ao protocolo de segurança e higiene quanto à questão pedagógica. No caso das públicas, elas seguem as diretrizes governamentais em relação a esses dois pilares. O governo estadual de São Paulo, por exemplo, fará distribuição de máscaras e vem treinando o corpo docente para a aplicação das medidas de segurança.

Na rede privada, o Colégio Visconde de Porto Seguro, de São Paulo (SP), desenvolveu um amplo programa de biossegurança com o Hospital Israelita Albert Einstein (SP), além de avaliações pedagógicas dos alunos e a constituição de um diagnóstico emocional que será feito em consonância com o acolhimento de todas as crianças. “A primeira expectativa é voltarmos a ver nossos alunos e professores (esperamos que todos estejam saudáveis) e, mesmo que o abraço não seja possível, começaremos uma nova reaproximação. Esperamos diagnosticar todos os alunos, do ponto de vista de aprendizado e do emocional. Cuidado e aprendizado serão os principais focos”, afirma Silmara Casadei, diretora-geral pedagógica do Porto Seguro.

Na Sphere International School, também em São Paulo (SP), na primeira fase (35% da capacidade), os ciclos da Educ ção Infantil e Fundamental Anos Iniciais serão separados em dois grupos: o primeiro estará presente fisicamente na escola às segundas e terças-feiras, e o segundo comparecerá às quintas e sextas-feiras. A higienização e a sanitização serão realizadas durante o decorrer dos dias e ao término de cada período, e a escola ficará fechada às quartas-feiras para que seja possível fazer uma limpeza e higienização mais profundas. Para o Fundamental Anos Finais, as aulas continuarão à distância, no primeiro momento. “Nos dias em que os grupos não tiverem aulas presenciais, eles acompanharão as aulas de forma online com o mesmo conteúdo que os alunos que estiverem na escola, por meio de lives e atividades com os professores online. Quando o cenário mudar para 70% de ocupação na escola, de acordo com o governo, incluiremos o Fundamental Anos Finais”, esclarece Ana Seixas, diretora da rede Sphere International School.

Em Minas Gerais, o grupo Colégio Santo Agostinho, com quatro unidades no estado, preferiu contratar uma consultoria responsável pelo gerenciamento de programas de planos de retorno para pós-pandemia de cerca de 500 campi de instituições de ensino nos Estados Unidos, e por projetos em desenvolvimento na China e no Reino Unido. “Temos ciência da responsabilidade da escola em cuidar de cada criança, jovem e colaborador que adentra nossas dependências e, por esse motivo, selecionamos uma consultoria que possibilita o aprendizado com o que já deu certo em outros lugares do mundo”, diz Fernanda Fernandes, gestora de relações humanas da mantenedo- ra do Colégio Santo Agostinho e integrante do grupo de trabalho dos planos de retorno.

Já em termos pedagógicos, segundo o educador Marcelo Cunha Bueno, da escola Estilo de Aprender, de São Paulo (SP), e colunista da CRESCER, as escolas deveriam ter objetivos a curto, médio e longo prazos. O primeiro seria melhorar as aulas online; o médio, planejar o modelo híbrido, que ocorrerá justamente nessa volta às aulas (e sabe-se lá quando!), em um cenário com alunos no presencial e também no digital; e o último seria como incorporar o online como estratégia na escola, assumindo sem preconceito que ele vai ficar. “Na Estilo, estamos criando um registro dos conteúdos em rede, onde as crianças podem acessar e navegar por eles usando diversas ferramentas, como vídeos, fotografias, áudios, textos, sempre com um complemento de atividade. Dessa forma, não pressupõe uma aula virtual ao vivo com o professor, que já estará fazendo isso no presencial. Para o longo prazo, não vamos adotar o online como uma linha pedagógica, mas como um modelo de comunicação. Vamos incorporar a tecnologia como linguagem da escola e não apenas digitalizar materiais ou criar estratégias de vídeo”, diz.

Os professores, que têm papel tão importante na rotina das crianças (quem aí também passou a valorizá-los muito mais depois dessa quarentena?), serão peças-chave nesse retorno, seja presencial, seja híbrido. Para a diretora da escola de educação infantil Ciranda do Recreio Rosane d’Avila, no Rio de Janeiro (RJ), somente os tão famosos protocolos não darão conta das novas relações a serem estabelecidas. “Os educadores, mais uma vez, terão papel fundamental nesse momento. Dia após dia, mediarão essas relações, como faziam antes da pandemia, nas populares e diárias rodas de conversa. Esse será o palco das discussões sobre a nova forma de se relacionar, no papel de ouvinte e de espectador, ao observar o brincar das crianças”, diz.

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Distanciamento social e máscara na Educação Infantil?

Se você tem filho pequeno, com certeza já se perguntou como fazer isso. As escolas não têm uma resposta pronta sobre como convencer as crianças naquele ambiente. Muitas tentam trazer o lúdico para essas regras, seja com músicas, adesivos divertidos no chão para demarcar a distância, seja com máscaras personalizadas. “Vamos pedir para que os responsáveis enviem máscaras brancas para fazermos um trabalho de personalização do acessório, com o intuito de criar um sentimento de pertencimento na criança. Atividades também estão previstas, como um teatro que ressalte a importância do uso”, relata Luiz Magalhães, diretor acadêmico da Escola Luminova (SP).

Algumas instituições já lidam com essas recomendações, partindo da hipótese de que o contato com a criança vai existir, sim. “Temos de pensar os protocolos de segurança a partir do abraço e não a partir do termômetro. Nos abraçaremos, isso é fato. Como vou olhar para uma criança de 3 anos chorando porque está sentindo falta dos pais depois de seis meses em casa, e não vou pegá-la no colo? A volta pressupõe algum contato, é ingênuo pensar que não, por isso a ideia de separar em grupos menores. Mas, se cada um fizer sua parte, o todo está garantido. É casa, escola, escola, casa. Não tem festa de criança, ir a família toda ao supermercado. Por isso acreditamos tanto na ideia de que fazendo sua parte você cuida do todo e é isso que estamos orientando às famílias”, defende o educador Marcelo Cunha Bueno.

Saúde emocional em jogo

É justamente pela necessidade dessas relações ou novas maneiras de conviver que é tão importante cuidar e preparar a saúde emocional das crianças. Os pequenos são, normalmente, mais adaptáveis e lidam bem com mudanças, porém, algo da magnitude dessa pandemia nenhum de nós tinha vivido. E há que se levar em conta também que cada família tem um contexto, ou seja, existem crianças que passaram por esse período de isolamento em um lar amoroso e outras que viveram momentos muito estressantes. Sem falar na possibilidade de terem perdido pessoas queridas para a covid-19.

Para Roberto Santoro, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria, as crianças são sensíveis às alterações de rotina. “Por isso, é preciso ter muita sensibilidade para entender que, na volta às aulas, elas estarão sob pressão, mais ansiosas e irritadas. As mudanças têm de ser introduzidas de maneira suave e acolhedora. Não adianta transmitir o protocolo de segurança da escola como uma série de regras em que ela é passiva; o legal é mostrar a criança como um herói da própria vida, que vai fazer um esforço para vencer essa doença”, orienta.

Crianças se cumprimentando (Foto: Getty Images)

Pais e educadores devem estar cientes de que a sanidade mental dos pequenos precisa ser olhada com atenção, tanto durante as aulas online como no retorno à escola. A pediatra Juliana Loyola Presa é professora na Universidade Federal do Paraná e nas Faculdades Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR), e vem desenvolvendo, junto a duas acadêmicas de Medicina, uma pesquisa nacional sobre o estado emocional dos pequenos durante a pandemia. O estudo busca identificar mudanças de comportamento que possam alertar para um comprometimento da saúde mental de crianças entre 2 e 12 anos.

A partir dos relatos dos familiares, já foi possível observar que elas estão sofrendo alterações no sono, na alimentação e sentem-se mais irritadas. O número de horas que passam em frente às telas aumentou consideravelmente na maioria dos lares, e a falta dos amigos é sentida pelas crianças de todas as faixas etárias. Além disso, muitas demonstram estar preocupadas em ficar doentes ou que alguém da família adoeça. “Como poderemos traçar um plano de ação no cuidado da saúde emocional das crianças se não soubermos qual o cenário atual? O que esperamos é que nossos resultados possam ajudar nesse olhar. Não há dúvidas de que repercussões físicas e emocionais irão ocorrer em meio a um isolamento social jamais vivido pelas gerações atuais. No entanto, se não houver um olhar cuidadoso, nossas crianças irão pagar um preço alto em um futuro próximo”, alerta a pediatra Juliana Presa.

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Perdas e ganhos

As crianças deixaram a escola de um jeito em março, e vão encontrar outra totalmente diferente na volta – cheia de novas regras e sem aquele calor natural das rodas de conversa antes de a aula começar, das brincadeiras no recreio ou do abraço no professor na hora de ir embora. Uma boa maneira de prepará-las para esse retorno, para que não seja um choque que as deixe mais frustradas do que felizes, é ressignificar esse olhar para as mudanças causadas pela pandemia. E isso serve inclusive para nós, adultos.

Valorizar os ganhos dessa volta e não apenas as perdas: desenvolvimento de outras habilidades, novos tipos de brincadeiras, percepção de coisas que a gente não via antes. Para Graziela Miê Lopes, diretora da Lumiar Pinheiros, em São Paulo (SP), os educadores podem, mesmo antes do retorno, ajudar os estudantes a repensarem o recreio, como eles podem brincar a uma distância segura, sem deixar de ser divertido. “Devemos construir essa nova maneira de se relacionar na escola junto com eles, para acharmos soluções sem ter de necessariamente usar quadrados desenhados no chão e cada criança no seu espaço. Não dá para só olhar aquilo que não é possível fazer e não ver as possibilidades que se abrem. Encarar como uma oportunidade ajuda as crianças a perceberem que a vida é assim, temos desafios e precisamos passar por eles com resiliência, tranquilidade e positividade”, diz.

E a saúde emocional daqueles que permanecerão em casa, participando de aulas online? Para a psicóloga Joana London, gerente pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida - LIV, do Rio de Janeiro (RJ), é importante ser franco. “Explicar para ela o porquê de a família ter escolhido deixá-la em casa, com um discurso que seja adequado para a idade. Se é porque os pais ainda estão inseguros quanto à pandemia, o que é legítimo, isso deve ser explicado a ela, dizendo que logo mais poderá retornar”, afirma. Como o vínculo com a escola é muito importante, é fundamental mantê-lo por meio das atividades, da rotina e do contato com os colegas da turma. E, sim, os pais precisam acolher os sentimentos do filho, do choro, da tristeza a uma crise de birra, deixando claro que estamos todos – adultos e crianças, do mundo todo! – vivenciando as mesmas sensações e angústias, e que na vida tudo passa, ainda que, às vezes, leve um tempo.

O aprendizado que fica

Muitos pais estão preocupados em perder o ano ou recuperar o conteúdo. É fato que as crianças não aprenderam nesses meses de aulas online da mesma maneira que aprenderiam na escola. Mas a forma como isso será revisto não deve ser algo que faça você perder o sono. Seu filho vai recuperar o aprendizado desse conteúdo mais “formal”, não se preocupe.

Além do mais, o desenvolvimento dele nesse período é tão ou até mais importante do que as lições na escola. A criança pode ter tido um ano com menos conteúdo pedagógico, mas, ao mesmo tempo, aprendeu habilidades que serão importantes para profissões do futuro – para aquelas que nem existem ainda – e o que nos diferenciará dos robôs: empatia, solidariedade, responsabilidade, trabalho em grupo, resiliência, cuidar do outro. “São importantes competências de vida que têm um grande valor não só na infância, mas para a vida adulta do ser humano. Saber lidar com as emoções, seguir regras, se colocar no lugar do outro e ter responsabilidade são habilidades valiosas para o sucesso em qualquer área”, diz a educadora parental Telma Abrahão, especialista em Inteligência Emocional e membro certificada da Associação de Disciplina Positiva Americana.

Como você viu até aqui, decidir sobre os filhos voltarem ou não para a escola este ano não será fácil, e vai depender muito de cada mãe e pai. A quarentena vem nos mostrando o quanto é importante a família estar unida, e é assim que devemos tomar mais essa decisão. Só dessa forma sairemos dessa situação mais fortes: com amor, paciência e empatia. Porque tudo vai passar, e precisamos nos manter juntos e confiantes em dias melhores. Sempre!

OUTRAS FONTES CONSULTADAS: ALINE CASTRO, GERENTE DA ASSESSORIA PEDAGÓGICA DO SISTEMA DE ENSINO PH; ANDREA RAMAL, EDUCADORA, ESCRITORA, CONSULTORA EM EDUCAÇÃO E DOUTORA EM EDUCAÇÃO PELA PUC-RIO; CAÊ LAVOR, GERENTE DE AVALIAÇÕES E CONTEÚDO DIGITAL NO SAS PLATAFORMA DE EDUCAÇÃO; CLÉA MARA MATTOS PRADO, DIRETORA DO COLÉGIO ARNALDO ANCHIETA, DE BELO HORIZONTE (MG); CRISTINA GODOI, MANTENEDORA EDUCACIONAL DOS COLÉGIOS AB SABIN, ALBERT SABIN E VITAL BRAZIL, TODAS EM SÃO PAULO (SP); CRISTINA NOGUEIRA BARELLI, COORDENADORA DO CURSO DE PEDAGOGIA DO INSTITUTO SINGULARIDADES, EM SÃO PAULO (SP); DAYSE CAMPOS, DIRETORA DA INTERPARES EDUCAÇÃO INFANTIL, EM CURITIBA (PR); FERNANDA FLORES, DIRETORA-GERAL DA ESCOLA DA VILA, EM SÃO PAULO (SP); FERNANDA ROCHE, PSICÓLOGA CLÍNICA, MESTRE EM DESENVOLVIMENTO E SAÚDE MENTAL INFANTIL PELO TAVISTOCK CENTRE, DE LONDRES E DIRETORA DO ESPAÇO DE DESENVOLVIMENTO E EDUCAÇÃO INFANTIL CRIANÇA EM FOCO, EM CURITIBA (PR); KRISTINE KROSS MAITA, DIRETORA-GERAL PEDAGÓGICA DO COLÉGIO SANTO AMÉRICO, EM SÃO PAULO (SP); JANICE GUIZELINI, DIRETORA GERAL DO COLÉGIO EDUARDO GOMES, DE SÃO CAETANO DO SUL (SP); JOEL BRESSA DA CUNHA, PRESIDENTE DO DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DE SAÚDE ESCOLAR, DA SBP; LUCIANA FEVORINI, DIRETORA ESCOLAR DO COLÉGIO EQUIPE, DE SÃO PAULO (SP); MÔNICA ROMEIRO, PUBLICITÁRIA E CRIADORA DO CANAL ALMANAQUE DE PAIS; RENATO KFOURI, DIRETOR DO CENTRO DE IMUNIZAÇÃO DA PRO MATRE PAULISTA, EM SÃO PAULO (SP); ROSANA MARIN, COORDENADORA DE EDUCAÇÃO INFANTIL DO COLÉGIO MARISTA ARQUIDIOCESANO, EM SÃO PAULO (SP).