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Especial Saúde: Equipe premiada se alia a empresas e desenvolve terapias que utilizam a luz

Publicado em 25 agosto 2016

No último mês de junho, a equipe coordenada por Vanderlei Salvador Bagnato, professor do IFSC-USP (Instituto de Física da USP de São Carlos), venceu o Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia, organizado pelo governo federal, com um projeto que está usando a terapia fotodinâmica —ou seja, a combinação de uma fonte de luz e substâncias sensíveis à luminosidade— para tratar lesões genitais causadas pelo HPV, vírus cuja ação pode produzir tumores. Curar as lesões, portanto, significa prevenir futuros casos de câncer. O trabalho, que já tem bons resultados preliminares, soma-se a outros êxitos da equipe com a terapia fotodinâmica. Quase mil pacientes com câncer de pele já foram tratados coma mesma abordagem, por exemplo. “A taxa de sucesso está em torno de 95%”, contou Bagnato à Folha. Resultados promissores também vieram do tratamento de infecções de garganta em crianças —uma única sessão de 20 minutos seria suficiente para evitar o uso de antibióticos. Outra variante da estratégia envolve o uso da curcumina (molécula presente no açafrão) para matar as larvas do mosquito Aedes aegypti.

 

A substância é sensível à luz e, quando absorvida por larvas expostas à luminosidade, leva-as à morte, porque o corpo delas é transparente (ou seja, a curcumina não teria efeitos nocivos sobre outros membros da fauna aquática, como peixes). O mecanismo que mata os insetos é basicamente o mesmo que destrói células cancerosas ou bactérias que infectam a garganta. As moléculas fotossensíveis, quando estimuladas pela luz de determinado comprimento de onda (o que varia de acordo com a substância), desencadeiam reações que produzem os chamados radicais livres, cuja presença danifica estruturas essenciais das células, matando tumores (ou micróbios, ou larvas).

 

ELOS COM EMPRESAS

 

A interação intensa com empresas de tecnologia, muitas delas criadas por ex-alunos das universidades da região (que possui ainda outros campi da USP e da Unesp, em cidades como Ribeirão Preto e Araraquara), é um dos diferenciais do grupo coordenado pelo físico. Bagnato calcula que seus trabalhos já levaram ao licenciamento de mais de uma dezena de patentes. “Mas isso vale apenas para as ideias que foram totalmente desenvolvidas por nós antes que houvesse o interesse de uma empresa”, diz Bagnato, que também chefia a Agência USP de Inovação. “Eu sinceramente acho mais interessante quando os projetos são uma parceria entre nós e as empresas desde o começo, porque fica muito mais fácil chegar a um produto viável. Transferir tecnologia não é simples. A empresa tem de estar junto a cada passo, senão a coisa não sai”, completa o pesquisador. De cerca de R$ 10 milhões gastos anualmente para manter os projetos do grupo, cerca de 40% vêm das parcerias com o setor privado. A equipe tem hoje 17 colaborações desse tipo, e o trabalho conjunto já levou tanto à fabricação em escala comercial dos aparelhos (laser) que produzem as frequências luminosas usadas nos tratamentos quanto à das moléculas fotossensíveis, entre outros produtos.

DIABETES

 

Além das abordagens terapêuticas, Bagnato e seus colegas também têm investigado novas ferramentas de diagnóstico. “Estamos fazendo um novo aparelhinho que vai permitir saber se o cara é diabético com um toque na pele, sem precisar tirar sangue”, conta. A ideia é viável porque as pessoas com diabetes possuem alterações no colágeno da pele desencadeadas pela presença aumentada de glicose no sangue, o que, por sua vez, altera a refletividade da pele. Os trabalhos têm apoio da Fapesp, do CNPq, da Finep e do BNDES.