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Especial Nanotecnologia [5] | Nanoalimentos em um supermercado perto de você

Publicado em 08 maio 2019

Por Thaís Augusto | Canal Tech

A ciência que manipula os átomos e moléculas também manipula a comida que chega ao seu prato – mesmo que você não saiba. A começar pelo fertilizante usado em plantações agrícolas, passando pelas embalagens inteligentes e finalmente aos nanoalimentos propriamente ditos. No futuro, a nanotecnologia pode permitir até a criação de amendoins que não provocam reações alérgicas.

Por enquanto, a ciência está um pouco longe desta aplicação, mas isso não impede que a indústria alimentícia invista na nanotecnologia: além de aumentar a absorção de vitaminas e minerais, ela consegue reduzir odores desagradáveis, alterar a aparência de alimentos e até melhorar a textura de laticínios.

No Brasil, a Funcional Mikron é uma das empresas que usam técnicas de nanoencapsulação e nanonização para criar ingredientes e vendê-los para as indústrias alimentícia e farmacêutica. “Fomos respondendo as demandas do mercado. Algumas empresas tinham problema com a estabilidade das matérias-primas, com o gosto, cheiro e textura do alimento. Em outros casos, o produto simplesmente não desempenhava à contento: ou porque o produto não dissolvia ou reagia precocemente na formulação”, explicou o head de projetos da Mikron, Eduardo Carità.

Um dos ingredientes vendidos pela Mikron é a cafeína de liberação controlada, criada a partir de um processo de microencapsulação. “A partícula de cafeína é nano, mas é revestida por quatro camadas. Assim, o produto acaba assumindo a dimensão micrométrica porque aumenta de tamanho”, disse Carità. “Como qualquer ativador de metabolismo celular, a nossa cafeína acelera o metabolismo: a pessoa gasta mais energia e consegue até gerenciar melhor o controle de peso”.

O produto ainda potencializa outras propriedades da cafeína como a estimulação do sistema nervoso. Como sua liberação no organismo é lenta, seus efeitos são prolongados. O ingrediente pode ser aplicado em bebidas e mesmo alimentos para esportistas.

A Mikron também trabalha com o Ômega 3 em pó. “O Ômega é uma questão mais complexa. Ele é muito bom para a saúde cardíaca, mental e até para o sistema imunológico, mas cheguei a jogar a toalha porque não conseguia controlar o gosto do óleo de peixe. Ninguém quer tomar um shake de chocolate com sabor de sardinha”, contou Carità. “Ele também estraga muito facilmente. Mas há três anos, a Fapesp entrou com uma verba e desenvolvemos o projeto Bio Ômega: conseguimos criar um produto sem gosto nem cheiro e extremamente estável e manipulável. Podemos aplicá-lo em shakes, vitaminas em pó, bombons e até barrinhas de proteína”.

Mensalmente, a Mikron fabrica 80 toneladas de produtos com nanopartículas. Mais de 60 toneladas são destinadas para o exterior. De acordo com Carità, existe uma grande demanda para países como Argentina e Espanha. “A Mikron consegue interferir na cadeia de alimentos em diversas oportunidades. Produzimos produtos para empresas de suplementos alimentares, farmácias de manipulação, fábricas de chocolate, shake, misturas instantâneas: todas as que estão preocupadas em inovar na área”.

Ele conta que os governos do México e Bolívia usam os produtos da Mikron em seus programas de fortificação e suplementação alimentar. “Na Bolívia, temos um cliente que é um dos três fornecedores do governo. Em 2015, eles ganharam um prêmio da Organização Mundial da Saúde por conseguirem reduzir a desnutrição no país de mais de 60% para patamares menores de 20% em 10 anos”.

Outra brasileira que trabalha com a nanotecnologia em alimentos é a Akmos. Neste caso, a empresa fabrica e manipula os próprios produtos – os ativos são desenvolvidos por parceiras, como a Universidade de Goiás.

Um dos principais produtos da empresa é o FZA Energy Drink, com nanocápsulas de vitamina C, cafeína e complexo B. “Os consumidores acham estranho no começo [um produto com aplicação de nanotecnologia], mas quando ficam sabendo dos benefícios reagem com entusiasmo e repassam a informação para outras pessoas”, contou o vice-presidente de expansão da Akmos, William Miranda.

A bebida da Akmos promete “aumentar a performance e a concentração em qualquer tipo de atividade”. Isso inclui a prática de esportes ou mesmo estudos. Na internet, o FZA Energy Drink pode ser encontrado por cerca de R$ 11.

“No setor de alimentação, poucas empresas exploram a nanotecnologia, por se tratar de uma tecnologia cara”, explicou Miranda. “Por conta disso a Akmos, em parceria com a Universidade de Góias, tem desenvolvido novas formas de aplicação de nanotecnologia para encontrar uma maneira de equalizar essa conta, deixando a nanotecnologia mais acessível”.

Em breve, num mercado perto de você

Para Carità, as pessoas estão “com certeza” ingerindo nanoalimentos. “A nanotecnologia em alimentos e nanoalimentos vem desde a agricultura. Ela está presente em fertilizantes e fixadores de água no solo que são absorvidos pela planta, fruto ou caule. Isso acaba virando matéria-prima. Quase ninguém percebe, mas começa aí”.

As empresas também estão começando a substituir os conservantes pela nanotecnologia para aumentar a durabilidade de produtos. Com a nanoprata e a nanoargila, é possível criar embalagens com maior resistência microbiológica. “Existem relatos de produtos com plástico de nanoprata que duram até seis vezes mais”, explica Carità.

A indústria também investe em nano-etiquetas. “É um método de fabricação para fazer com que a embalagem mude de cor quando ocorre qualquer deterioração no alimento, permitindo retirar o produto da cadeia de distribuição antes de chegar às prateleiras e ao consumidor final”, contou Miranda. Ele ainda diz que, nesta área, os avanços são significativos.

Atualmente, a Mikron está conduzindo um projeto com o Senai para a criação de snacks com nanotecnologia. “Todo mundo quer assistir a TV comendo snacks, mas de forma geral eles não são saudáveis: tem sal demais, amido demais, gordura demais, e nos doces ainda têm os conservantes artificiais”, explica Carità. “Pensando nisso, decidimos transformá-los em algo gostoso e saudável”.

Os produtos serão lançados em 2020. Com o Senai, foram desenvolvidos sachês de suplemento alimentar em pó para que pessoas possam adicionar água ao produto, criando uma bebida embarcada com nanocálcio, nanoferro e outras propriedades como a cafeína e o Ômega 3. Serão sucos, chás e shakes.

“Pegamos as sete principais lacunas nutricionais. Se o cara tem depressão, ele tem um produto que mexe com o sistema nervoso. Se a mulher está anêmica ou com um quadro de tensão e irritabilidade, ela coloca água no sachê e consegue um chá refrescente que repõe o ferro, aumenta a emoglobina, diminui a irritação e inflamação”, explicou Carità.

Ele diz que os produtos chegarão ao supermercado e farmácias por um preço acessível.

Nanotecnologia e a saúde

Carità conta que faz parte do comitê mundial que busca regulamentar os processos e métodos de análise da nanotecnologia. Para ele, a ingestão de nanoalimentos não apresenta riscos para a saúde humana.

“Como a nanotecnologia é recente, começamos a ‘fuçar’ e descobrimos propriedades chamadas de quânticas na escala nanométrica. Estas propriedades não obedecem à gravidade, o que desperta uma precaução, mas depois de mais de 12 anos trabalhando com produtos nanoencapsulados, aplicando ensaios em animais e humanos, eu diria que se fosse perigoso os mamíferos não tomariam leite, que são nanoestruturados. Quero dizer: se apresentasse algum risco para a saúde, você não encontraria essa solução na natureza”, comentou Carità. “Mas sem dúvida, se você pegar o óxido de titânio e uma série de outros metais e colocar na escala nanométrica para colocar na boca ou na pele, você começará a ter problemas com a acumulação de metais”.

Ele defende a aplicação de tecnologia em alimentos. “Em 2030, serão 10 bilhões de pessoas no planeta. A grande resposta para a nutrição da humanidade está na tecnologia do alimento: produzir cada vez mais com menos recursos”.

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