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Carbono Brasil

Espaço ocupado na mídia por céticos climáticos gera debate

Publicado em 21 agosto 2012

Por Fabiano Ávila

A desconfiança dos brasileiros com relação ao aquecimento global está aparentemente maior do que nunca, com especialistas contrários ao fenômeno assumindo status de verdadeiras celebridades nacionais. Pesquisadores climáticos, contudo, divergem sobre qual deve ser a resposta da comunidade científica e alguns defendem que o ideal é ignorar os céticos.

Uma dessas novas personalidades entre os céticos é o professor Ricardo Augusto Felício, do Departamento de Geografia da USP, que ganhou notoriedade ao aparecer no programa de Jô Soares afirmando que atribuir problemas climáticos à presença do dióxido de carbono (CO2) na atmosfera seria ridículo. O vídeo do programa no Youtube já ultrapassou mais de 700 mil visualizações.

Outro nome forte entre os céticos brasileiros é o do professor Luiz Carlos Baldicero Molion, da Universidade Federal de Alagoas. Há anos Molion contesta estudos sobre as mudanças climáticas, sendo que recentemente foi entrevistado pela Folha de São Paulo e também foi a fonte mais citada na série "Aquecimento global, uma dúvida conveniente" do Jornal da Band.

"A comunidade científica é um meio democrático. Mas quem escolhe o espaço para essa ou aquela fonte é a imprensa, que muitas vezes opta por ser sensacionalista", destacou Reynaldo Luiz Victoria, da Coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, durante o evento Gestão dos Riscos dos Extremos Climáticos e Desastres na América Central e na América do Sul.

O crescimento do espaço dos céticos não parece preocupar os cientistas ligados ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). José Marengo, pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do INPE, por exemplo, não enxerga os céticos como ameaça e prefere ignorá-los.

"Não temos porque retrucar, seria apagar fogo com gasolina. Não precisamos dar mais dez minutos de fama para essas pessoas. Se a imprensa quisesse, poderia nos procurar para confirmar as informações que conseguiram. Mas isso nunca acontece", declarou Marengo.

Para o ambientalista Fábio Feldman, essa postura de não enfretamento é ruim para o desenvolvimento de políticas públicas para as mudanças climáticas.

"Toda a vez que uma dessas pessoas aparece na mídia, mais cidadãos deixam de participar de movimentos que pressionam o governo para agir. A desinformação deixa as pessoas confusas", explica.

Sobre o professor Ricardo Augusto Felício, Feldman destaca que a USP deveria ter vindo a público. "Ao não se manifestar, o Departamento de Geografia está praticamente assumindo como corretas as informações de Felício. O que, até onde eu sei, não é verdade."

Vicente Barros, do Centro de Investigação do Mar e da Atmosfera da Universidade de Buenos Aires, destaca que existem fundamentos sólidos nas ciências climáticas.

"O IPCC analisa dezenas de milhares de estudos científicos para formular seus relatórios. É um trabalho sério, que apesar de já ter apresentado erros no passado, jamais poderia ser considerado uma "fraude". Quem insiste nesse tipo de conspiração é desinformado ou mal intencionado", declara.

Para Barros, o número de céticos vem caindo no mundo. "Cada nova pesquisa diminui as margens para dúvidas. Um dos últimos estandartes do ceticismo, a Universidade de Berkeley, acaba de mudar sua postura. Apesar dos cidadãos de alguns países serem mais resistentes que outros à ideia das mudanças climáticas, todos os Estados-membros das Nações Unidas estão ao lado do IPCC."

Ana Deysi Lopez, do Ministério de Meio Ambiente de El Salvador, resumiu como seu país deixou de ter céticos. "A realidade nos golpeou. As perdas, econômicas e de vidas, causadas por fenômenos climáticos extremos aumentaram muito nos últimos anos. Diante dos números, não há mais dúvidas de que o governo precisa agir."