Notícia

O Caminho da Cerâmica

Esmaltes de cinzas com Vanessa Murakawa da Ikioi Lab

Publicado em 22 novembro 2018

Fazer esmaltes é daquelas atividades que todo ceramista sonha em aprender, mas nem todos se aventuram. É difícil, exige técnica e muita atenção aos detalhes. Quando me deparei com os esmaltes do Ikioi Atelier Lab, pelo Instagram, fiquei apaixonada. A variedade de cores, texturas e efeitos me lembraram muito os resultados de queimas de redução. As referências eram visivelmente orientais, bem como o gosto pelo imprevisto, pelo wabisabi. Com viagem marcada para São Paulo, decidi entrar em contato com a Vanessa Murakawa, a mulher por trás de cada um dos lindos esmaltes do Ikioi. Ela, super gentil, aceitou me receber no Ateliê Kéramos, da Sueli Massuda e Mayy Koffler. A conversa foi ótima e acabei passando uma tarde muito agradável.

Vanessa, me conta qual é a sua relação com a cerâmica e como você chegou aos esmaltes?
Eu sou formada em Educação Artística pela UNESP de Bauru. No meu segundo ano de graduação, comecei a ouvir falar sobre iniciação científica, essas coisas. Um dia, eu estava no ateliê de pintura para crianças e vi, em uma revista, um artigo sobre a Hideko Honma, onde ela falava que usava cinzas nos esmaltes. Eu fiquei intrigada… Vi aquele azul vibrante e pensei, “como ela faz isso com cinzas?” Porque, para a gente, cinza é um negócio que não se usa mais, né? Virou cinzas, não tem mais valor. Então fui procurar como isso funcionava. Pesquisei na internet e não encontrei nada que me explicasse. Aí pensei, “é isso o que eu vou fazer! Vou escrever um projeto de pesquisa para a FAPESP e vou pesquisar sobre esses esmaltes.” Deu certo. Escrevi o projeto, ganhamos a bolsa e eu comecei a pesquisar. Vim para São Paulo, conversei com a Hideko, fizemos, juntas, o projeto de iniciação científica. Daí terminei a graduação, tinha gostado muito de tudo isso e resolvi fazer mestrado. Vim morar em São Paulo e comecei os estudos com a Sueli* e iniciei o mestrado na IAC – UNESP. Minha pesquisa foi toda relacionada com esmaltes de cinzas. Então tudo começou com uma curiosidade, mas com o tempo você vai querendo saber como as coisas funcionam, por isso fiz também algumas aulas de torno. Mas o meu negócio são os esmaltes mesmo. Depois passei um tempo fora, morando na Austrália, e lá trabalhei para um ceramista, desenvolvendo esmaltes. Quando voltei para o Brasil, pensei, “por que não? É uma coisa que eu gosto, então eu vou tentar. Vou formular esmaltes e vender.” De início era uma ideia, não sabia se ia dar certo. Lancei na internet e o pessoal começou a ver e a procurar. Deu certo! Esmaltes são mágicos! Formular novos esmaltes para vender é sempre um desafio. Ao mesmo tempo, algumas pessoas dizem que não vendem seus esmaltes, porque é uma coisa que se demora anos para chegar a um resultado, mas eu acho que sou desapegada.

E quando você veio para o ateliê da Sueli, você veio para aprender cerâmica ou para desenvolver esmaltes?
Em vim aprender como formular esmaltes. Em Bauru, a gente não tem muita coisa. Eu não sabia quase nada sobre cerâmica de alta temperatura. Para fazer o mestrado sobre esmaltes de cinzas, eu precisava de uma boa base. Daí eu fiz o curso com ela. É um curso completo, que tem duração de um ano. Grande parte da minha base vem daí.

E dentro de que linha de pesquisa se encaixava o seu mestrado?
No IA existe uma linha de pesquisa em cerâmica (dentro de Processos e Procedimentos Artísticos). A minha orientadora foi a professora Lalada Dalglish, que pesquisa cerâmica e arte popular. Ela não pesquisava esmaltes, mas acho que os esmaltes se encaixavam como “procedimentos”. Sou super grata por ela ter aceito minha pesquisa! Foi bom, porque no final conseguimos fazer uma exposição e falar também sobre os artistas brasileiros que usam cinza, especialmente os de descendência oriental.

E essas cinzas que você usa nos esmaltes são da cana de açúcar, certo?
No mestrado, sim. Por causa da sustentabilidade. O bagaço da cana não tem 100% de aproveitamento, então era interessante trabalhar com ele. Além disso, ele contém muita sílica, o que no esmalte é um fundente. Então era legal, porque ao invés do mineral, a gente podia usar esse resíduo.

A cinza também entra para dar cor ao esmalte?
Não. Ela entra na composição do esmalte. O esmalte é composto por vários minerais, como feldspatos, sílicas (o quartzo) e outros, que vão ajudá-lo a fundir e virar vidro no final. Para dar cor, a gente usa os óxidos (ferro, cobre, titânio, etc). A cinza não entra especificamente para dar cor, mas pode ser que determinada cinza tenha um pouquinho de ferro, por exemplo, e isso auxilie na cor também.

E você desenvolve suas próprias cinzas?
Sim. Eu fiz uma parceria com uma pessoa que tem uma fazenda com vários tipos de árvores e vegetais. Lá ela faz essa queima e me entrega as cinzas prontas. Às vezes eu misturo cinzas diferentes, mas na maior parte das vezes uso eucalipto, que se consegue com mais facilidade. É preciso uma quantidade boa de cinzas, para o esmalte render. Se quero misturar cinzas e minerais, então não preciso de grandes quantidades. Fica mais fácil.

As cinzas sempre vão substituir a sílica?
Elas vão substituir fundentes. O bagaço da cana de açúcar tem muita sílica, mas outras cinzas não. Cada uma possui componentes diferentes, então posso usar uma pitada de cada, em diferentes proporções.

Como você sabe qual é a composição química das cinzas?
Tem livros que te dizem o que você pode encontrar em cada cinza. Com a cinza da cana de açúcar, eu fiz um teste em laboratório para saber que tipo de minerais ela continha.

Todos os esmaltes da Ikioi têm base de cinzas?
Não, porque é bem difícil conseguir cinza em quantidade. Então não posso trabalhar com um material que não vai estar sempre disponível. Como eu estou colocando os esmaltes a venda, também não posso ter cores que variem, de um lote para o outro.

É mais difícil ter controle sobre a cor nos esmaltes com base de cinzas?
Sim, é mais difícil. A não ser que eu tenha sempre as mesmas condições de solo e as mesmas cinzas. Eu tenho lotes de esmaltes de cinza e eu tenho clientes que querem esmaltes de cinzas, então é para eles que eu ofereço. “Eu tenho esse tanto, quem quer?” Mas o esmalte é mágico por isso, né? A cor muda com a argila, a temperatura, a densidade. E às vezes é difícil trabalhar com quem não conhece muito bem. Você diz, “essa é a referência de cor, mas pode ser que mude!” E quando se consegue um efeito novo, isso é muito legal!

Quando você decide desenvolver um novo esmalte, você primeiro faz pequenos testes, em pouca quantidade?
Sim, mas com o tempo a gente vai pegando a “manha” de como fazer. Você sabe que se colocar mais tanto desse material ou mais tanto daquele, você pode chegar numa base mais matte ou um pouco mais brilhante, e os erros vão diminuindo. Mas, quando eu comecei, eu fazia muitos testes! Fazia testes de cem gramas até acertar o resultado. Sempre tem teste, né? Às vezes, vários. O vermelho, para mim, era um desafio, mas as pessoas gostam e eu resolvi tentar. Agora estou em busca de um laranja, quem sabe de um amarelo… Com a demanda a gente tem que produzir e nem sempre sobra tempo para testar novas cores. Mas sou suspeita para fazer dos meus esmaltes, porque todos os que estão no catálogo são aquele que eu vi e falei, “ah, que lindo!”

E como é a demanda? É intensa? Você faz estoque?
Não chego a fazer muito estoque, mas deixo alguns quilos separados para emergências. Faço a quantidade que me encomendam e envio logo. A demanda tem sido boa. Vendo bastante para São Paulo, mas tem saído para outros estados também.

E em questão de matéria prima?
A matéria prima é toda aqui de São Paulo. Às vezes falta um ou outro material e eu preciso procurar outro fornecedor, mas isso é difícil de acontecer.

E você já desenvolveu alguma cor especial em conjunto com um ceramista?
Não. Geralmente os ceramistas me pedem o catálogo e escolhem dali. Mais para frente, nós vamos desenvolver um projeto em que vamos trabalhar com ateliês específicos, desenvolvendo cores específicas, que são esmaltes exclusivos. Às vezes alguém vem querendo uma cor e eu digo que não tenho. Se a pessoa não tem tempo para esperar, porque a formulação é demorada, então digo que não posso ajudar no momento.

E o preço dos esmaltes?
Variam de R$80 a R$100 o quilo. Depende da composição de cada um, mas estão nessa faixa. Quando a quantidade é maior, facilitamos o preço. Os esmaltes de cinza têm outros valores.

* A Sueli oferece, anualmente, um curso completo de vidrados cerâmicos. Para saber mais informações, entrar em contato com (11) 5549 9655 – Ateliê Kéramos.