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Revista Valor Especial

Esforço para não ficar fora do mapa

Publicado em 01 novembro 2019

Por Ediane Tiago

A corrida tecnológica ganha novos contornos com o desenvolvimento de comunidades – ou ecossistemas – que reúnem os elementos necessários para o germinar das startups. Em todo o mundo pipocam inciativas para atrair empreendedores, promover parcerias com grandes empresas, sorver conhecimento da academia e captar investimentos para a inovação. De acordo com o último estudo publicado pelo projeto Startup Genome, 46 polos no globo superaram a barreira dos US$ 4 bilhões no valor gerado em seus ecossistemas – entre eles o de São Paulo, com US$ 5,1 bilhões apurados. O relatório cruza informações de 150 hubs e de 1 milhão de empresas, de 2016 ao primeiro semestre de 2018.

O Vale do Silício, na Califórnia (EUA), continua isolado no ranking de maiores ecossistemas de inovação, com geração de valor estimada em mais de US$ 300 bilhões – seguido por Nova York, Londres, Pequim, Boston, Tel Aviv, Los Angeles e Xangai.

A economia das startups movimentou US$ 2,8 trilhões entre 2016 e 2018 – valor 20,6% superior ao período anterior. A pujança explica a corrida por novos hubs. O desafio está em desenvolvê-los, criando dinamismo econômico e atraindo participantes e investidores. “Não é possível copiar o Vale do Silício. Ecossistemas dependem do ambiente de negócios e das ações locais de estímulo”, explica Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Mas é inteligente, segundo Pacheco, observar a interação entre os diferentes agentes e os motivos pelos quais cooperam. “É preciso habilidade para unir instituições e pessoas com interesses distintos.” A lista de “atores” inclui mercado financeiro, universidades, empresas, startups, governos, instituições de fomento, advogados, serviços especializados e infraestrutura técnico-científica. Outra questão, comenta Jefferson de Oliveira, diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), é que não há controle sobre o ambiente. “As conexões acontecem de forma natural.”

Para Oliveira, São Paulo tem potencial para desenvolver um ecossistema de peso. “A cidade é uma força da natureza para o empreendedorismo inovador. Por aqui nasceram sete das oito unicórnios brasileiras [startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão].” Ele admite, no entanto, que faltam coordenação e articulação. “Os negócios se realizam pela enorme vontade das pessoas”, comenta.

Pacheco e Oliveira estão envolvidos no projeto de instalação do Centro Internacional de Tecnologia e Inovação (Citi) em São Paulo, confirmado no início de novembro pelo governador João Dória. Inspirada no Vale do Silício, a iniciativa prevê o desenvolvimento de um polo com foco em soluções digitais. Entre as instituições parceiras estão o IPT, a Universidade de São Paulo (USP), o Ministério da Economia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Fapesp, a Finep, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), a Deloitte, o Instituto Butantã e o Centro de Estudos Avançados do Recife (Cesar). “Precisamos unir poder público, empresas e universidades. Tecnologia não possui ideologia”, afirma Patrícia Ellen, secretária de desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo.

De acordo com a secretária, as dependências do IPT – preparada para receber empresas e instituições parceiras – completam a primeira etapa do Citi, que começa a operar no ano que vem. O hub envolve ainda a adesão do parque tecnológico do Jaguaré e a desativação dos imóveis que abrigam o Centro de Detenção Provisória (CDP) e a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). As medidas vão liberar 650 mil metros quadrados na zona oeste paulistana. “Ficará tudo perto. Os fundos de capital de risco localizados na Faria Lima, a universidade, as empresas e as startups”, reforça Oliveira.

Mourat Sonmez, diretor do centro da quarta revolução industrial do WEF, diz que o desenvolvimento do polo paulista vai beneficiar o Brasil. “É um projeto para colocar o país na rota da indústria 4.0. A entidade terá escritório no prédio do IPT e pretende aglutinar parceiros para promover um salto tecnológico nas empresas brasileiras. “Muitos negócios terão de pular etapas, ir direto para a indústria 4.0 ou estão condenados”, diz. A iniciativa inclui a capacitação de empresas de pequeno e médio portes, o que deve contribuir para ampliar a competitividade das cadeias produtivas.

A transformação digital aumenta a pressão por inovação – sobretudo em matérias que envolvem inteligência artificial, internet das coisas, uso de dados, cibersegurança e blockchain. Igor Calvet, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), confirma a demanda por maior produtividade. “Se quisermos ser inovadores, temos de aparelhar as empresas com o básico. Elas precisam adotar técnicas e metodologias para serem mais eficientes”, diz. O direcionamento para soluções ligadas à indústria 4.0 está no cerne dos programas do governo federal, que pretende estimular a digitalização da economia.

Para Calvet, o desempenho do Brasil no índice global de inovação (IGI) não condiz com o tamanho da economia, a nona mundial. O ranking, publicado anualmente pela Universidade Cornell, pelo Instituto Europeu de Administração de Empresas (Insead) e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Omip), lista o Brasil como o 66º mais inovador, em uma lista de 129 nações.

Avançar, no entanto, não será fácil. Pacheco, da Fapesp, avalia que a crise econômica, que se arrasta pelos últimos anos, tem drenado recursos da área de ciência, tecnologia e inovação. “As iniciativas ficam apagadas pelo desempenho econômico. Quem vai investir neste contexto?”, diz. Desidratado, o sistema nacional de inovação tem dificuldades para ficar em pé.

Entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) ressaltam que os cortes sofridos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Comunicações e Inovações (MCTIC) são drásticos e podem inviabilizar a pesquisa no país. Em 2020, estão previstos R$ 3,5 bilhões para investimentos no orçamento do MCTIC, montante 32% menor do que em 2019.

Manter a estrutura de pesquisa é fator estratégico para o futuro. De acordo com o relatório do projeto Startup Genome, os principais centros de tecnologia estão migrando investimentos das plataformas e aplicativos digitais – focados em modelos de negócios – para soluções com base científica. Os investidores buscam alto índice de conhecimento aplicado, proteção industrial e dificuldade para reprodução das tecnologias.

Eles também acreditam que a chamada “deep tech” responderá aos problemas relacionados às mudanças climáticas e demográficas, escassez de recursos e cuidados com a saúde. No Brasil, que tem potencial em áreas como mercado financeiro, logística, agronegócio, sustentabilidade e saúde, será preciso combinar a estratégia digital com o avanço da ciência.

Para João Sanches, diretor de relações governamentais da Novartis, articular o ecossistema também significa capacitar a base científica e as empresas sobre o marco legal, a possibilidade de parcerias e o alcance da infraestrutura. “Com a nova regulamentação, temos a possibilidade de ampliar os convênios entre universidades e empresas, unindo esforços”, diz.

O problema, continua o executivo, é que as regras são desconhecidas pelos agentes do ecossistema. A falta de comunicação e coordenação prejudica, inclusive, a análise dos investimentos públicos. “O quanto é preciso investir e em quê?”, questiona. O cenário global, aponta o executivo, prevê parcerias para alavancar o investimento privado nos projetos e também o compartilhamento da infraestrutura de centros de pesquisa e universidades. “Mas no Brasil não sabemos o que temos disponível para utilização”, comenta.

O enfraquecimento das universidades e dos centros de pesquisa é prejudicial para o ecossistema, confirma o professor Newton Frateschi, diretor-executivo da Inova – agência de inovação da Unicamp. Ele explica que a academia é um elo fundamental do processo de inovação. São as universidades que formam os talentos. Delas saem os empreendedores que vão criar empregos e gerar riqueza. “É assim que se devolve à sociedade os investimentos feitos em ciência, tecnologia e inovação”, diz. Segundo ele, no Brasil ainda prevalece o empreendedorismo de sobrevivência. “O conhecimento é o elemento para avançar na economia, estimulando o surgimento de negócios com maior valor agregado”, comenta.

Campinas abriga um ecossistema importante. Em torno da Unicamp estão empresas, centros de pesquisa, laboratórios, incubadoras, aceleradoras de empresas e um parque tecnológico. De acordo com Frateschi, o faturamento anual das empresas-filhas da Unicamp – formadas por ex-alunos da instituição – aumentou de R$ 4,8 bilhões para R$ 7,9 bilhões no último ano. Foram mapeadas 717 empresas-filhas ativas – 86% delas no Estado de São Paulo. Atualmente, elas geram 31,3 mil postos de trabalho.

O impacto econômico é resultado de três décadas de esforço para articular o ecossistema, atrair investimentos e formar mão de obra preparada para as demandas do mercado. A base da inovação, afirma Frateschi, é a pesquisa na Unicamp, que tem crescido desde os anos 60 e alimenta os convênios com empresas. Ao todo, R$ 130 milhões estão sendo aplicados pelo setor privado em projetos na universidade. “As empresas pagam bolsas e equipamentos. A Unicamp pesquisa e elabora o modelo de negócio”, diz.

Outra saída está no desenvolvimento de hubs especializados. No Rio de Janeiro, a Petrobras está empenhada na articulação de um ecossistema de inovação em energia e sustentabilidade. A iniciativa surgiu dentro dos laboratórios da Coppe – Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – e tem o objetivo de transformar pesquisas acadêmicas em novos negócios, capacitar empreendedores e atrair investimentos. “Estamos fechando parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, para aplicar a metodologia deles na formação do ecossistema”, afirma Nicolás Simone, diretor de transformação digital e inovação da Petrobras.

O Centro de Pesquisa da Petrobras, o Cenpes, contribuirá com sua estrutura e capital humano. São 1,2 mil pesquisadores e 200 laboratórios. “Pelo empreendedorismo, queremos dar visibilidade internacional às tecnologias desenvolvidas no Rio de Janeiro”, diz Simone. Além da infraestrutura, as startups terão acesso a programas de inovação aberta e de conexão com empresas do setor para testarem e desenvolverem tecnologias. “Será um ambiente de colaboração irrestrita”, afirma Simone.

Em Florianópolis, o ecossistema de inovação floresceu há 35 anos, quando a Fundação Certi, ligada à Universidade Federal de Santa Catarina, começou a disseminar o empreendedorismo entre os alunos da faculdade de engenharia para deter a fuga de talentos. “As pessoas se formavam aqui, mas não havia emprego”, comenta Daniel Leipnitz, presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate). Hoje, 4 mil empresas fazem parte do hub. Juntas faturam R$ 7 bilhões. O surgimento das startups mudou a matriz econômica da cidade. A participação dos negócios digitais cresce a cada ano. O trabalhador ligado ao polo ganha o dobro daqueles que atuam em outros setores. O esforço agora é o de dar visibilidade nacional e internacional às empresas catarinenses. “Nosso mercado é pequeno, temos de olhar para fora”, afirma Leipnitz.

Já em Londrina (PR), a estratégia é explorar o agronegócio. O empresário e produtor rural George Hiraiwa articula o ecossistema local. Organiza eventos, maratonas de programação e busca interação com outros polos, como Piracicaba (SP) e Cuiabá (MT). Engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), ele acredita que, para crescer, a agricultura digital terá de integrar diferentes ecossistemas no Brasil. “Não é algo que se faz do escritório, a startup tem de estar no campo”, diz.

Seus esforços renderam a atração, para a cidade, do primeiro polo tecnológico de inovação agropecuária do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que pretende espalhar 12 unidades pelo país, em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e MCTIC. “O setor privado tem de se organizar e aproveitar a infraestrutura da Embrapa e das universidades para atrair investimento e transformar o Brasil em uma potência da agricultura digital”, conclui Hiraiwa.