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DCI

Esforço e energia inúteis

Publicado em 05 fevereiro 2007

Por Paulo Ludmer

Numa repartição pública, ontem, o elevador demorava quando um jovem, inesperadamente, intolerante deu um soco destruindo o botão, o sagrado contacto entre a máquina e o usuário.
Enquanto nós dois descíamos as escadas para o andar abaixo, no qual poderíamos chamar outra vez o elevador, motivado, encontrei uma forma e lhe disse: "Para fabricar aquele botão, que você esmagou, o Brasil precisou fazer um esforço equivalente a ir para a lua".
A metáfora interessou ao meu interlocutor. Então, prossegui: "A Petrobras fez anos de pesquisa (sísmica) no alto mar; sobre uma lâmina de água de dois km, para escolher um local onde ancorou uma (entre várias) plataforma, do tamanho de uma cidade flutuante. Pois ali furou o solo, criando mais seis km de canos, esmerilhando brocas sobre pedras, nem sempre perpendicularmente, em busca de petróleo e gás natural; até que, com sorte, achasse óleo, uma agulha num mundo de esconde-esconde. Depois disso, canalizou muitos km daquele local até a terra; levou o produto até uma refinaria; daí para uma petroquímica....etc...etc...até a resina chegar à fábrica deste pequeno item do elevador".
Para o Brasil adquirir este conhecimento, nossa engenharia, guardadas as proporções, esforçou-se como se fosse e voltasse à lua, um bocado de vezes.
A singela fábrica deste botão estilhaçado de elevador acumula tecnologias de anos e anos de pesquisa e saber.
Eis que precisamente ontem ouvi a palestra do professor Carlos Vogt, atual presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ex-reitor da Unicamp, proferida para os professores da FAAP, onde milito desde 1976.
O mestre discorreu sobre a Espiral da Cultura Científica, com ensinamentos que suscitam este artigo. Da Bíblia herdamos a árvore da vida e a do conhecimento. Por meio desta segunda árvore, experimentamos (haja maçãs!) a transgressão e noções de limites. O que é conhecimento útil? Existe conhecimento inútil?
Enfrentamos nesse universo três desafios, observa Vogt, "afinal o conhecimento útil quer ser transformado em riqueza".
Os desafios são fáceis de narrar e difíceis de executar: 1) o tecnológico; 2) o ecológico; e, 3) o ético e o social.
Do ângulo tecnológico, vide o sucesso da Petrobras, há que inovar a inovação, permanentemente, como por exemplo buscar petróleo onde hoje é inalcançável.
Pelo ecológico, devemos preservar a vida, a sustentabilidade, o planeta.
E no plano ético e social, depois de agregar valor à riqueza e preservar o planeta, o conhecimento útil é aquele que se faz reconhecer como bom e bem para o outro, para a vida e para a alegria de viver.
Ora, na civilização judaica e cristã, servir o outro é missão harmonizada com a tábua das leis, é a maneira gregária de o animal humano conviver em sociedade, sem a qual desapareceria da forma que o sabemos.
Foi o que pensei, já no térreo do edifício, palco de minha escrita, relacionando a destruição do botão, com a mente atravessando as campanhas do Procel (plano oficial de conservação de energia) e do Conpet (conservação de derivados de petróleo).
Por causa do mestre Vogt, lembrei da Coréia do Sul, que não formaliza, na comunidade internacional, mais artigos do que a Academia brasileira, segundo a pesquisa mundial de 1993 a 2001.
Mas, de acordo com Vogt, a Coréia do Sul agrega valor econômico com seus trabalhos, enquanto que no Brasil é irrisória essa aplicabilidade ("não há engenheiros doutores em nossas empresas, de modo que a introdução de progressos científicos e tecnológicos nem entra na pauta das suas diretorias").
Já na calçada da avenida, perguntei ao atento e raivoso jovem que foi o promotor dessas linhas: "E então?".
Suspense. Feito Dionísio na trincheira de sua potência, herdeiro do deslimite da árvore do conhecimento, ele respondeu: "Ó só, tiozinho, se precisá quebro de novo".