Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Escritor santista faz pesquisa em Portugal

Publicado em 12 março 2000

Por Da Reportagem
Depois de um ano em Portugal, onde levantou dados da vida e obra do poeta Bocage e publicou o romance Barcelona Brasileira, que retrata a história de Santos no começo do século, o jornalista e escritor santista Adelto Gonçalves está de volta à Cidade. Pesquisador de renome, ele está lançando Gonzaga, Um Poeta do Iluminismo, que constituiu sua tese de doutorado em 97. Fruto de ampla pesquisa em terras lusitanas e nas cidades de Ouro Preto, Mariana, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, Gonzaga, Um Poeta do Iluminismo, publicado pela Editora Nova Fronteira, revela dados inéditos da história do inconfidente e autor de Marília de Dirceu, principalmente sobre os anos em que viveu em Moçambique. "Muita gente pensa que os restos mortais de Gonzaga estão no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Lá estão os de seu neto, Tomás Antonio Gonzaga de Magalhães", revela o escritor. Ele explica que a pedido de Getúlio Vargas os ossos do poeta, que se encontravam em Moçambique, seriam trazidos para o País. Mas a Sé Velha de Moçambique, onde estava enterrado, ruiu. Assim acabaram vindo os ossos de seu neto, como se fossem os de Gonzaga. Vasculhando em mais de 50 mil documentos, o escritor mostra um Gonzaga benevolente com devedores influentes e rigoroso com outros de pouca expressão social. Retifica a última biografia de Gonzaga, escrita há 57 anos pelo português Rodrigues Lapa, revelando que o poeta não se casou com a filha de um dos maiores comerciantes de negros da época e nem se tornou traficante de escravos. O sogro não traficava negros e morreu no mesmo ano do casamento do inconfidente. Juntando fios da história, o escritor descobriu o fim de Eleutério José Delfim, este sim um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique. Encarregado pela maçonaria do Rio de levar credenciais que permitiram a Joaquim Maia e Barbalho aproximar-se de Thomas Jefferson, embaixador da América Setentrional na França, para discutir planos dos inconfidentes, Delfim foi parar em Goa como soldado voluntário, meses depois de Gonzaga. Lá assumiu o cargo de sargento-mor das forças auxiliares, exercido anteriormente pelo sogro do poeta. À moda antiga - "A maior dificuldade é reunir todo o material, juntar os fios, ligar os nomes que se viu em outros documentos", revela Gonçalves. A moda antiga, como diz, anota as coisas mais importantes em cadernos. Da tese de doutorado, conta, cortou pouca coisa, apenas a bibliografia de livros impressos. A idéia de escrever sobre Gonzaga surgiu após a leitura de matéria sobre o neto - que morreu novo e foi o primeiro jornalista de Moçambique - publicada em jornal de Lisboa, do qual é assinante. "Quis saber que fim teria levado Gonzaga na África". Nessa tarefa, acabou pesquisando toda sua vida, reescrevendo também a história da Inconfidência. A experiência em Gonzaga, Um Poeta do Iluminismo tornou mais fácil a pesquisa sobre Bocage, contemporâneo do inconfidente. "Conhecia o século 18 português e concentrei-me na vida de Bocage, reunindo bastante documentação que vai mudar a história de Bocage". Para reunir dados em Portugal, para onde viajou acompanhado da esposa, Marilise Lopes Gonçalves, ganhou uma bolsa com duração de um ano da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Desde março do ano passado percorreu arquivos e bibliotecas de Coimbra, Évora, Porto, Setúbal e Lisboa. Atento e persistente, levantou farto material e documentação não só sobre Bocage, mas também de seus familiares, como seu pai e avô. O resultado está em seis cadernos de anotações e xerox. Falta ainda pesquisar no Rio de Janeiro. "A tarefa mais difícil agora é escrever", confessa. Em Portugal, Gonçalves lançou em dezembro Barcelona Brasileira, pela Nova Arrancada, de Lisboa, ainda não publicado no País. A obra vem despertando interesse de outros editores internacionais e deve ser publicada também na Espanha pela Seix Barral, de Barcelona. Começo - Sua estréia na literatura foi em 1977 com o livro de contos Mariela Morta. Em 1980, ganhou o Prêmio Nacional de Romance José Lins do Rego da livraria José Olympio Editora, com Os Vira-Latas da Madrugada, publicado em 1981. A partir daí conquistou muitos outros prêmios. Em 97 lançou o livro de ensaios Fernando Pessoa, A Voz de Deus. Para Gonçalves, a História do Brasil e Portugal precisa ser reescrita. "Muitos documentos foram mal lidos, vistos com olhos do século passado. Cada época tem uma visão". A melhor forma de não reproduzir erros é buscar as fontes manuscritas, primárias. "Os livros de História baseiam-se muito em fontes impressas, cheias de invencionices e mentiras, que acabam se perpetuando como verdades". Por isso, destaca, o leitor deve estar atento à bibliografia para não ser enganado. "O importante é ter os registros das fontes primárias, isso é que dá credibilidade".