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Correio Popular

Escrever não é preciso

Publicado em 13 março 2008

Alcir Pécora vê literatura moderna com ceticismo, assim como blogs e eventos literários

João Nunes, Agência Anhanguera

Alcir Pécora está ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde é diretor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), desde 1973. Primeiro, como aluno no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH); depois, ao fazer complemento do estudo em letras. Em 1977, assumiu pela primeira vez o cargo de professor; antes, fez artes plásticas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Nesta entrevista, Pécora fala de sua experiência à frente do instituto e, principalmente, sobre literatura. Ele duvida que a literatura possa ter lugar na vida atual de uma forma que pautemos nossa existência por meio dela em busca de respostas. Aproveita e desanca supostos escritores de internet. "O sujeito pode até produzir boa literatura na internet, mas não será pelo fato de dominar a tecnologia" , afirma. Aproveita também e fala sobre sua outra paixão: o rock. A seguir trechos da entrevista.

Agência Anhangüera de Notícias - Literatura sempre foi sua primeira opção?

Alcir Pécora - Desde que me conheço por gente pensei em estudar literatura. Nunca pensei em fazer outra coisa. Depois do curso de letras, em 1977, fiz pós em teoria literária e, no ano seguinte, passei a dar aulas na Unicamp, época em que Antonio Candido estava formando o IEL. Gostava também muito de retórica e minha formação está toda ligada a textos e autores de referência, como Marx, Freud etc.

Ao assumir, no ano passado, a direção do IEL você teve em mente algum projeto em especial?

Basicamente precisei conseguir dinheiro para o departamento, pois queríamos investir de maneira forte em pesquisa e disputar projetos internamente (na própria Unicamp) e externamente, por meio de entidades como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), entre outras. Mas também precisávamos de dinheiro para equipar tecnicamente o espaço, da rede de fios elétricos a banheiros e setor de informática. E, felizmente, com apoio da Reitoria, conseguimos muitas coisas, levando em conta que qualquer setor ligado à área de humanas passa por situação difícil, não só na universidade pública. É complicado pensar que a maior parte do orçamento seja comprometida com folha de pagamento, o que impede qualquer tipo de investimento em pesquisa. O importante, hoje, é ter capacidade de competir, por exemplo com os setores de exatas, que são altamente competitivos, com projetos de nível internacional.

Por que a área de humanas enfrenta esse tipo de dificuldade?

Por causa do baixo nível de impacto do que ela produz. Para se ter idéia, as exatas têm revistas científicas editadas no Brasil e escritas em inglês. Ou seja, o impacto do que se pesquisa incide internacionalmente. Os projetos de humanas são todos escritos em português. O campo das humanas está em crise de paradigma. O que nos formou, autores que citei acima, como Freud e Marx, não são mais hegemônicos. Há excesso de especificidade, por exemplo, o que é positivo em se tratando das áreas exatas, mas não em humanas. Mas isso ocorre muito. São tratados diluídos de itens que perderam o sentido e não provocam impacto algum. E se não tem impacto, de que valem? Crises são boas, mas é preciso criar algo capaz de interferir e, para isso, é necessário aprofundar a crise. Não sou pessimista, mas tampouco nostálgico. Mas no presente não temos nada pronto.

Você escreveu um artigo recente desancando a literatura que se produz hoje em dia...

A primeira coisa a dizer sobre a literatura é que escrever não é preciso. Um escritor moderno não tem utilidade alguma. E ninguém precisa dos textos do escritor medíocre. Quando o autor senta-se para escrever ele já começa devendo, porque ninguém pediu para ele escrever. E antigamente havia certo pudor do escritor em mostrar seus escritos para alguém. Hoje a gente recebe de tudo como spam. Todo mundo se mostra, mas isso não significa criatividade. E uma das coisas que se valoriza muito atualmente é o marketing, além de se criar geração de tudo, coletânea de tudo.

O que você acha dos blogs?

Blog é uma conversa entre os próprios blogueiros, os amigos. É um espaço para todo mundo falar, mas ninguém lê. Se juntar tudo, não dá um livro relevante. Assim como são desinteressantes esses eventos literários como a Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), em que, mais importante que a literatura, é comentar que um escritor tal tomou caipirinha com fulano de tal, e coisas desse tipo. São eventos que criam celebridades fajutas.

Quem, no Brasil, merece respeito como escritor?

Vou citar duas pessoas que sempre exerceram a escrita como algo que pautou a vida deles, pois se dedicaram integralmente ao ato de escrever: a Hilda Hilst e o Roberto Piva (Pécora organizou a reedição dos 21 livros de Hilda, e os três de Piva, pela editora Globo; o terceiro de Piva ainda não foi publicado). Nem gosto sempre dos dois, mas ambos estão unidos pela determinação de fazer literatura. Eles fazem uma literatura exigente, quase devocional. Também poderia citar o Eustáquio Gomes, que faz algo completamente fora da moda, não tem senso de marketing, tem uma literatura de viés provinciana, mas é coesa, tem estilo e se empenha, mas quem fala dele? O jogo do marketing não significa nada para a literatura. Moda passa como cometa e não tem importância alguma e só incentiva o aspecto da celebridade, mas não tem compromisso radical com nada.

O que precisaria mudar em relação a isso?

Simplesmente não deve haver qualquer preocupação em produzir escritores, mas, sim, formar pessoas e isso tem a ver com investimento sério em educação pública. Antes de falar em formar escritores é preciso cuidar da educação.

Mas os Estados Unidos incentivam a criação de escritores...

Sim, lá eles têm produção literária mainstream, mas também há muitos independentes; aqui é tudo independente. Quem consegue divulgar um pouco do que faz são aqueles que estão ligados a editoras que têm acesso aos grandes jornais.

O que você acha da literatura feita pela internet?

Os que defendem a ciberliteratura dizem que os modelos usados são eruditos, mas com outra linguagem. Ocorre que isso não necessariamente desemboca em literatura. Estão hipervulgarizando os velhos modelos; não que devam ser contra o modelo tecnológico, mas ele não gera nada em si mesmo. O sujeito pode até produzir boa literatura na internet, mas não será pelo fato de dominar a tecnologia. O que em geral tem acontecido é uma banalização da escrita. Não tenho nada contra a internet, pelo contrário, mas a grande literatura não é decorrência da evolução tecnológica. Até porque nem sei se podemos falar de uma grande literatura contemporânea, não é natural que haja grandes escritores, pode ser que a literatura não tenha mais lugar na vida atual de uma forma que pautemos nossa vida nela em busca de respostas.

Você acredita que tudo foi dito ou realizado?

Não podemos determinar o fim da história. As coisas acontecem de acordo com as circunstâncias da própria história. Mas existe uma hiperbanalização da escrita, uma inflação, mas ela vale cada vez menos. Vamos pensar no critério geracional. A palavra geração supõe-se ruptura em relação à tradição. A chamada Geração 90 foi puro marketing apresentado como novidade, a começar pela apresentação arcaica, quadrada, do currículo do escritor, ou seja, se pretendeu ser o mais eterno possível. E as informações do tal currículo seguiam os mesmos padrões acadêmicos, ou seja, não havia ruptura alguma. Pareceu mais um grupo de escritores da Vila Madalena (bairro paulistano), tudo coisa de ocasião, que não leva a nada.

Você acha que manifestações desse tipo só são possíveis por causa da mídia?

Acho meio rançoso essa história de demonizar a mídia. Tenho o maior respeito pelo jornal, grande parte da minha formação veio dele, pois seus articulistas eram gente de peso da cultura nacional, como Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, entre muitos outros. Não é a mídia em si, mas lamento que a resenha, que sempre foi importante, tenha, hoje, cada vez menos espaço. Sempre escrevi para jornais e tive, digamos, essa militância pública. Como citei Carpeaux, as resenhas dele tinham 12 mil toques, hoje não podem passar de 4 mil. Hoje há excesso de preocupação com o local, o provinciano; há jornais que valorizam a participam de leigos fazendo fotos e criando textos, que é uma forma de competir com a internet. Mas entendo que o papel do jornal, hoje, é fazer análises.

De onde vem seu interesse pela obra de Padre Vieira?

Morei, entre 2004 e 2005, em Roma, onde fui trabalhar no Arquivo Romano da Companhia de Jesus, a fim de pesquisar sobre Vieira - aliás, o resultado desse estudo será apresentado num dos congressos sobre Vieira, neste ano que se completam quatro séculos de seu nascimento. Pesquisei um material novo que era a correspondência interna dos jesuítas, as cartas escritas entre eles. Havia a carta ao público e as cartas privadas. E nessas cartas há uma espécie de glossário dos sermões de Vieira. Esse trabalho, O Glossário de Vieira, será publicado pela editora Hedra (Pécora tem outros livros sobre Antonio Vieira). O que mais me impressiona na obra dele é o domínio do idioma; ele é um gênio de perfeição lingüística, faz o que quer com a língua. São frases extraordinárias que me chamaram a atenção especialmente por causa da estrutura. Ler Vieira cresceu muito em mim a consciência da escrita.

Ao mesmo tempo em que aprecia a erudição de Vieira, você tem forte ligação com o rock, música popular. De onde vem isso?

São duas fontes que não conversam entre si. Desde garoto ouvi e coleciono discos de rock. Tenho um pouco esse lance do colecionador, meio enciclopédico, de conhecer tudo, mapear. Mas não faço qualquer conexão entre Vieira e o rock. Nem quando me perguntam sobre a "poesia" do rock, eu digo, não é poesia coisa alguma, é letra de rock, só isso. Mesmo os melhores letristas não passam de letristas. O que tenho a dizer sobre esses meus dois lados é que as pessoas são complexas, têm interesses diversos, mas não vejo contradição nisso, não é esquizofrenia.

Mas você costuma ir a concertos de rock?

Não, mas por falta de tempo. Eu trabalho muito ouvindo música. Tive quatro filhos e sempre trabalhei com eles escutando música bem alta. Mas tenho acompanhado a evolução do rock desde sempre, mas não leio revistas especializadas. A internet me ajuda a me atualizar, descubro nos sites, pesquiso, vou atrás, mas sempre entre os independentes ou, então, os mais midiáticos que, posteriormente viram clássicos.

De quais bandas atuais você mais gosta?

Aprecio a Acid Mother's Temple, banda psicodélica japonesa. Também gosto do Man of Porn, do Isis, etc. Gosto de todo tipo de rock, e prefiro os músicos em vez de vocalistas, que são muito banais.

E de literatura? O que lê e gosta?

Leio literatura do século 17. É a isso que me dedico metade das minhas leituras. Li muitos clássicos, mas, hoje, quase tudo o que leio é de forma profissional, para poder escrever. É trabalho. A poesia está em crise, então eu prefiro também ler os clássicos: Drummond, João Cabral. Até os concretos, como os irmãos Campos, que eu não gostava, hoje parecem gigantes diante do que apareceu depois. E, claro, Hilda Hilst e Roberto Piva.

O que você pensa de Campinas?

Campinas não é o Interior, da pracinha com coreto, moda de viola etc, mas tampouco é a periferia de uma grande cidade como São Paulo - por exemplo, Santo André -, onde há pulsação, uma agitação com vida própria. Na verdade ela tem os dois e, justamente por isso, não tem consistência própria, é provinciana. Só há um caminho para Campinas: assumir que é uma grande cidade, investir na cultura internacional e buscar ser cosmopolita.

ESCREVER

"Escrever não é preciso. Um escritor moderno não tem utilidade alguma. E ninguém precisa dos textos do escritor medíocre."

CRISE

"Pode ser que a literatura não tenha mais lugar na vida atual de uma forma que pautemos nossa vida nela em busca de respostas."