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Escorpiões causam microinfartos

Publicado em 27 janeiro 2008

Por Agência FAPESP

Agência Fapesp

Um levantamento epidemiológico realizado no Centro de Controle de Intoxicação (CCI), vinculado ao Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destacou a alta incidência de acidentes graves causados por escorpião envolvendo crianças. Dos 29 casos graves atendidos no HC entre janeiro de 1994 a dezembro de 2005, 28 eram de pacientes com menos de 14 anos.

Foram analisados 922 casos presenciais de acidentes com escorpiões ocorridos em Campinas e região, incluindo cidades como Sumaré, Indaiatuba, Nova Odessa, Americana e Piracicaba. O trabalho utilizou como fonte de informações a revisão do banco de dados de atendimentos do CCI e os prontuários dos pacientes internados no HC.

A gravidade dos casos foi classificada de acordo com critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde, indo de leve quando o paciente apresenta sintomas como dor local, taquicardia e agitação, até grave, caracterizado por vômitos freqüentes, hipertonia muscular e edema pulmonar agudo, passando por casos moderados e assintomáticos.

Dos 922 indivíduos atendidos, 2,9% não apresentaram sintomas, 3,1% dos casos foram considerados graves, 11% moderados e 83% leves. "Muito dificilmente as picadas de escorpião em adultos geram casos graves. Talvez isso ocorra por eles terem superfície corporal maior que a das crianças, que são mais sensíveis ao veneno", disse Fábio Bucaretchi, coordenador do CCI e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. "Sabemos que, nos casos mais graves de envenenamento, as crianças picadas sofrem uma forma diferente de agressão ao miocárdio, chamada de miocardiopatia escorpiônica, que é caracterizada por vários microinfartos. Alguns trabalhos científicos evidenciam ainda que, de acordo com a idade, a resposta do miocárdio pode ser diferente a determinados agravos como a picada de escorpião. Essa é uma hipótese que deve ser perseguida e comprovada", indicou.

Segundo Bucaretchi, quando são picados e logo começam a sentir os primeiros sintomas, muitos pacientes adultos não vão até o Hospital de Clínicas da Unicamp: são atendidos por meio de telefone pelos serviços de saúde, tomam uma medicação específica e apresentam grande melhora, conseguindo permanecer no nível de gravidade considerado "leve". "Por outro lado, as crianças normalmente recebem uma quantidade maior de veneno. Sua pele é mais vascularizada, o que permite uma inoculação em maior concentração na circulação sangüínea. O fato de existir diferentes respostas à toxina dependendo da idade do paciente também é uma questão que precisa ser mais bem estudada em modelos experimentais", explicou.

80% das vítimas fatais são crianças

De acordo com o trabalho feito no CCI, escorpiões foram trazidos para a identificação por 393 pacientes. Desse número 67,7% haviam sido picados por exemplares da espécie Tityus bahiensis e 32,3% por Tityus serrulatus. "Mas, em 2007, o número de animais trazidos para nossa análise passou a ser equivalente entre as duas espécies. Hoje, a maioria dos casos notificados atualmente em todo o País, principalmente em Minas Gerais, São Paulo e Bahia, já está relacionada ao Tityus serrulatus, o escorpião-amarelo, que se adapta muito bem ao ambiente urbano e tem reprodução assexuada", explicou.

O trabalho, apresentado em novembro no 15.' Congresso Brasileiro de Toxicologia, em Búzios, destacou ainda que a maioria dos acidentes ocorreu entre indivíduos do sexo masculino (62,7%) e na faixa etária entre 20 e 49 anos (48,3%). As picadas foram mais freqüentes nas mãos (39,8%) e nos pés (23,3%).

No fim do ano passado, o relatório do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ressaltou que os escorpiões são responsáveis por 35% dos casos de envenenamento por animais peçonhentos no Brasil.

O estudo usou os dados mais recentes sobre intoxicações em humanos, referentes a 2005. Foram registrados naquele ano 84.456 casos de intoxicação em seres humanos no país, sendo que os animais peçonhentos respondem por 23.647 (28%). Desse total, 8.208 (35%) envolveram escorpiões. "Aproximadamente 38 mil novos casos de picada por escorpião são notificados por ano pelo Ministério da Saúde. Mas existe muita subnotificação nesses dados à medida que muitas picadas não são registradas. Hoje, a mortalidade por acidentes com picadas de escorpiões no Brasil gira em torno de 30 a 55 casos anuais, sendo 80% em crianças com menos de 14 anos", disse Bucaretchi.