Notícia

Portal Vermelho

Escola Nacional discute a ciência na pós-modernidade

Publicado em 20 janeiro 2009

Refletir a ciência na contemporaneidade foi o foco da apresentação, na tarde desta segunda-feira (19), do professor do Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia, Olival Freire Jr. no VI Encontro de Professores da Escola Nacional do PCdoB, que começou hoje e se estende até a próxima sexta-feira (23).

Partindo de uma reflexão de Eric Hobsbawm – “nenhum período da história foi mais penetrado pelas ciências naturais, nem mais dependente delas, do que o século 20. Contudo, nenhum período, desde a retratação de Galileu, se sentiu menos à vontade com elas” – Freire Jr. tratou do hiato que ainda separa a população da ciência e de seu aprofundamento.

O conhecimento científico, ressaltou, está cada vez mais hermético, o que faz com que o público de usuários fique a cada dia mais desinformado a respeito dos produtos da ciência. Ele criticou a maneira ainda inapta com que os governos lidam com o desenvolvimento científico. Em sua avaliação, “a autonomia da ciência decorre não do fato de que os governos compreendam a ciência, mas porque intuem que dela precisam”.

Freire Jr. colocou em debate com os professores da Escola Nacional questões como a natureza da ciência, que hoje está estreitamente ligada ao conceito de desenvolvimento tecnológico. “Isso pode ter criado um novo fenômeno social: a tecnociência”, explicou. Sob este prisma, a representação e análise do mundo através da ciência teriam ficado em segundo plano, submetidos à tecnologia, traço singular da pós-modernidade que inverteu a lógica moderna, quando a tecnologia se submetia à ciência. Pensadores como Marx, Bukharin e Lenin afirmaram o primado da ciência, enquanto Heidegger foi precursor da pós-modernidade afirmando o primado da técnica.

Ciência no Brasil

Após fazer um panorama da ciência na pós-modernidade, Freire Jr. discorreu sobre a aplicação da ciência no Brasil. Entusiasta da política do governo Lula para a área, o professor também reconhece que ainda há um longo caminho a ser percorrido para colocar a ciência nacional em um patamar mais avançado de desenvolvimento. Ele demonstrou que em 2007 o Brasil atingiu a 15ª posição internacional no ranking da produção publicada em artigos indexados na ISI. Foram 16.872 artigos, o equivalente a 1,92% da produção global, um crescimento de 33% em relação a 2004, o que deixou o país à frente da Suíça e da Suécia.

Além disso, destacou, “o INPI brasileiro está entre os 20 escritórios do mundo que mais concedem patentes, porém o número de patentes a não-residentes é maior que número concedido a residentes”. Em 2007, o Brasil atingiu a 24ª posição no ranking de registros de patentes: 384 registros. Os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar, com 52.280 e a China em sétimo, com 5.456. Mas, o professor fez uma ressalva: a empresa norte-americana Whirpool no Brasil foi responsável, sozinha, por 17 do total, o que demonstra que ainda falta espaço para o patenteamento nacional.

Os resultados positivos já alcançados Olival Freire Jr. atribui às políticas estatais continuadas de apoio à ciência e tecnologia, bem como à criação de instituições como USP, CNPq, Capes, Fapesp, Finep, Unicamp e Embrapa, entre outros, além do maior investimento na área a partir do governo Lula. Pelos pontos fracos, o professor responsabiliza especialmente o modelo econômico deformado e o modelo social excludente. Para mudar tal cenário, Freire Jr. defendeu que a “ênfase nas políticas públicas brasileiras deve estar na indução de áreas consideradas prioritárias e no incentivo à inovação”. Outra questão apontada por ele é que “a relação entre produção científica e mundo empresarial, no Brasil, continua precária”.