Notícia

Jornal do Brasil

Escola do Desperdício

Publicado em 10 julho 1996

Em país carente de recursos para necessidades elementares tem efeito de ofensa a revelação de que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) perde 45% da verba para bolsas de mestrado e doutorado porque os alunos nada produzem de aproveitável. Embora a quantia empregada pelo CNPq seja relativamente pequena (RS 12 milhões por mês), deveria ter a consciência pesada o aluno que, com ajuda mensal de R$ 724 mensais, após dois anos de mestrado não apresenta tese. O dinheiro investido nesse aluno representa duas vezes e meia a renda per capita do brasileiro. A revelação do CNPq — vinculado ao Ministério da Ciência e da Tecnologia — complementa a avaliação do Ministério da Educação sobre os cursos de mestrado e doutorado das universidades públicas e privadas do país. E reforça a necessidade de ser aprofundado pelo MEC o levantamento do ensino universitário brasileiro. O mau uso, o desperdício e as fraudes com verbas públicas destinadas à educação e à saúde, as duas áreas mais favorecidas com recursos orçamentários, reforçam a necessidade de reforma do Estado brasileiro. Se educação e saúde necessitam de recursos públicos para o amplo atendimento às demandas da sociedade, então é preciso antes reformar de alto a baixo o sistema de administração pública das duas áreas. O fechamento dos ralos por onde desaparece boa parte dos recursos para a educação e a saúde talvez seja a mais urgente das reformas do Estado brasileiro. De nada adianta criar novos impostos ou destinar mais verbas a áreas onde vazamentos, corrupção e ineficiência na aplicação dos recursos orçamentários são uma constante. A causa do desperdício das verbas nas universidades está no excesso de autonomia. A sociedade deveria se interessar mais pelo destino dos seus impostos. É inaceitável estudantes passarem dois anos de ócio remunerado pesquisando o nada. E inadmissível que os conselhos universitários e os coordenadores de mestrado e doutorado compactuem com tal desrespeito ao contribuinte, numa eterna ação entre amigos. A autonomia não se justifica em sinecuras autônomas, onde se discute o sexo dos anjos. Os investimentos em educação e pesquisa são os mais caros e seletivos em qualquer sociedade. Não podem, portanto, ser usados sem retorno ou vinculação com o uso prático. As universidades brasileiras deviam se mirar na Unicamp, que tem ótimo entrosamento entre teses e soluções para o mercado e a sociedade.