Notícia

Desafios da Educação

Escola atrai projetos do Brasil e do exterior à própria feira de ciências

Publicado em 05 novembro 2021

Por Carla Zimermann ! revista Pesquisa FAPESP

Os moradores de Palotina, no interior do Paraná, já enfrentaram vários surtos de dengue. No oeste do estado, quase na fronteira com o Paraguai, as vastas áreas rurais da região e o saneamento básico precário facilitam a proliferação do mosquito transmissor Aedes aegypti.

O Paraná, como um todo, sofre com o problema: entre janeiro e setembro deste ano, foram confirmados mais de 27 mil casos da doença. “Como a dengue é muito comum aqui, comecei a pensar em maneiras de combater o problema de uma forma mais prática”, conta o estudante João Pedro Silvestre Armani, de 18 anos. “Quem participa de projetos de ciência normalmente é incentivado a buscar soluções para questões locais e foi o que eu fiz.”

Armani, aluno do último ano do ensino médio da escola municipal Terra do Saber, de Palotina, desenvolveu um inseticida à base de escamas de tilápia, cascas de uva e de grão de café, que tem efeito sobre a atividade do sistema nervoso central dos mosquitos. “Outra vantagem é que trabalhamos apenas com resíduos de materiais naturais, que não prejudicam o meio ambiente”, observa o estudante.

O projeto começou a ser feito no início de 2020, antes da pandemia. Para conduzir os testes com ovos e larvas do inseto, Armani montou um pequeno laboratório em sua casa sob a supervisão de sua orientadora, a bióloga Carlise Debastiani. “As análises referentes à eficácia do composto e a taxa de mortalidade do mosquito precisavam ser feitas de uma em uma hora”, lembra ela. “João Pedro foi muito dedicado do começo ao fim.”

O projeto foi o vencedor na área de ciências da saúde da categoria Leonardo da Vinci, da 3ª Feira Nacional de Ciência e Tecnologia Dante Alighieri (FeNaDante), realizada em setembro pelo colégio Dante Alighieri, centenária escola particular de São Paulo fundada por imigrantes italianos.

Estudantes apresentam seus trabalhos na 3ª FeNaDante: programa de iniciação científica de escola deu origem deu origem a feira de ciências. Crédito: reprodução/FeNaDante/Revista Pesquisa Fapesp.

Como atiçar a curiosidade

Foram inscritos mais de 300 projetos – desses, 214 foram selecionados, em comparação com 180 da edição anterior da FeNaDante. São Paulo teve mais da metade dos inscritos, mas a feira atraiu projetos de outros 15 estados e do Distrito Federal. Este ano, o evento também se tornou internacional, com a participação de escolas de sete países – Canadá, Cuba, Malásia, México, Paraguai, Peru e Itália – por meio de parcerias firmadas pelo colégio.

Alguns projetos de alunos de fora do Brasil chamaram a atenção da banca avaliadora, formada por pesquisadores como Marcelo Guzzo, do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Cláudia Aparecida Soares Machado, que faz pós-doutorado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Um grupo de estudantes do Centro Educativo Departamental Municipal Dr. Eusebio Ayala, do Paraguai, levou o terceiro lugar na área de ciências da saúde com a criação de uma barra de cereais à base de sementes de uma planta local, a Amaranthus retroflexus, considerada nutritiva devido à alta concentração de proteínas e aminoácidos. “A troca de experiências com alunos de escolas de diferentes países e regiões do Brasil é muito enriquecedora”, diz Sandra Tonidandel, diretora pedagógica de Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio do Dante Alighieri e idealizadora da FeNaDante. “Por isso, pretendemos aumentar cada vez mais a abrangência da feira de ciências.”

Leia mais: Lições da quarentena: o desafio de fazer ciência em casa

Os projetos se distribuem por três grandes categorias. A Leonardo da Vinci inclui trabalhos que já têm resultados parciais e totais a apresentar. A Galileu Galilei reúne projetos com metodologia definida, mas ainda sem resultado. E a Michelângelo contempla propostas de pesquisa que precisam de orientação para serem desenvolvidas.

Em cada uma das categorias, há premiações para oito áreas do conhecimento: ciências biológicas, exatas e da Terra, humanas, da saúde, agrárias, sociais aplicadas, além de engenharias e tecnologia. Os finalistas das categorias Leonardo da Vinci e Galileu Galilei se credenciam para participar de feiras científicas no Brasil e no exterior, como a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), da USP, em São Paulo, a Feria Internacional de Innovación, Ciencia y Tecnología, em Juchitán, México, e Muestra Cientifica Latinoamericana, em Trujillo, no Peru.

Leia mais: O que a ciência e a educação ganharam com a pandemia

Este ano, os trabalhos foram apresentados de forma on-line e ao vivo, em um esquema híbrido, em razão da pandemia, entre os dias 21 e 23 de setembro. Em 2022, a ideia é incentivar as apresentações presenciais, se as condições sanitárias permitirem.

Os participantes foram orientados, por meio de uma página criada no site do colégio, a gravar vídeos curtos e objetivos, em uma linguagem acessível, sobre o projeto apresentado, em uma metodologia semelhante à de feiras de ciências como a Febrace.

“Para nós é uma grande experiência”, diz Hiago de Oliveira Lacerda, de 17 anos, aluno do último ano da escola estadual Newton de Oliveira Paiva, de Santo Antônio do Amparo, em Minas Gerais. Ao lado de sua irmã gêmea, Letícia, e da colega Luana Peixoto Borges, Lacerda desenvolveu um projeto de conscientização sobre uso de agrotóxicos que levou o primeiro lugar em ciências humanas da categoria Leonardo da Vinci. A dupla criou um biofertilizante feito com cascas de ovo, ricas em proteína, pó de café e um pesticida natural feito de folhas de mamona. Os projetos começaram a ser desenvolvidos antes da pandemia, com bons resultados.

Os alunos se inscreveram em uma feira de iniciação científica promovida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ganharam uma bolsa de seis meses, de R$ 100, que usufruíram entre janeiro e junho deste ano. O recurso foi utilizado para a gravação de um podcast sobre agrotóxicos, em que foram discutidos temas como a origem e os diferentes produtos utilizados para combater pragas na lavoura, dicas de como reduzir o consumo do material e os bastidores dos projetos da dupla de estudantes.

“Sempre gostei de ciência, mas essa pesquisa que desenvolvemos e as oportunidades que surgiram mudaram a minha visão de mundo”, diz Letícia. Assim como Armani, os irmãos criaram um laboratório dentro de casa – com garrafas PET – para levar adiante o experimento quando a escola precisou fechar as portas devido à Covid-19. “São experiências como essa que mostram o quanto é importante oferecer oportunidades para os jovens exercitarem o espírito científico”, diz Tonidandel.

Leia mais: Iniciativas que procuram aproximar meninas da ciência se readaptam na pandemia

Desde 2006 o Dante Alighieri vem investindo na iniciação científica de alunos dos ensinos fundamental e médio, por meio do programa Cientista Aprendiz. “A ideia nasceu do interesse dos próprios alunos”, afirma Tonidandel. “A produção tem sido excepcional, com reconhecimento nacional e internacional em olimpíadas estudantis.”

Idealizadora do programa, a diretora pedagógica recebeu uma menção honrosa da mostra Genius Olympiad, dos Estados Unidos, pelo conjunto de sua contribuição. O Cientista Aprendiz, que atualmente conta com mais de 200 estudantes, vem dando frutos. Em 2010, foram 30 projetos desenvolvidos; sete anos depois, em 2017, já eram 78 e, em 2020, foi batido o recorde de 171 projetos. O número de participantes também tem crescido, passando de 40 em 2010 para 252 em 2020 e 312 neste ano. A criação da feira de ciências, há três anos, foi um desdobramento natural do programa.

O primeiro lugar na área de tecnologia da informação na FeNaDante deste ano coube a um aluno do próprio colégio, Henrique Rodrigues Hissa Amorim, que desenvolveu um ambiente de realidade virtual para o ensino de astrobiologia. O estudante criou diferentes espaços físicos, com planetas, por meio de um algoritmo de computação gráfica, o Marching Cubes, e outras ferramentas. Amorim também elaborou modelos de moléculas e inventou personagens humanos e alienígenas.

Bem longe de São Paulo e das salas de aula do Dante, Ana Beatriz de Castro e Silva, de 17 anos, de Imperatriz, no Maranhão, utilizou cristais das fibras de buriti, planta comum na região, para a fabricação de materiais sustentáveis com resistência similar à fibra de vidro. A estudante aponta várias vantagens do buriti. “É leve, muito resistente e flexível, podendo ser utilizado desde a produção de sacolas até acrílico biodegradável e revestimento de parede”, diz. O projeto levou o prêmio principal de ciências biológicas.

Ana, que cursa o segundo ano do ensino médio do Centro Educacional Art Ceb, já está desenvolvendo outros projetos à base de buriti. Um deles é a criação de uma película para ajudar na cura de queimados. “A planta tem propriedades cicatrizantes pela alta concentração de betacaroteno, entre outros elementos, e potencial para substituir a pele de tilápia utilizada para auxiliar no tratamento de pessoas que sofreram queimaduras”, conta.

Por meio de uma parceria de sua escola com a Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão, ela conduziu os testes relativos ao seu projeto nos laboratórios do campus em Imperatriz. “A capacidade de estabelecer relações com universidades e se inserir no meio científico é um dos objetivos da premiação”, diz Pércia Barbosa, uma das organizadoras da FeNaDante. A estudante pretende fazer carreira em ciências. Depois que sua avó morreu de câncer, há alguns anos, ela começou a se interessar pela área de pesquisa oncológica e engenharia de materiais. “Estou em dúvida sobre o que vou cursar na faculdade, mas certamente terá desdobramentos relacionados à pesquisa científica”, diz.

Houve espaço também para a área de ciências sociais aplicadas, em que a premiação máxima foi para Aine Carolina Lima, aluna do Colégio Etapa, de São Paulo. Lima fez uma parceria com a fintech Avante, especializada em microcrédito, para analisar o impacto desse tipo de financiamento para mulheres microempresárias no Nordeste, em comparação a homens na mesma condição. Primeiro, foi realizada uma análise estatística descritiva, a fim de interpretar os dados coletados. Em um segundo momento, a aluna empregou técnicas de estatística para avaliar o impacto do acesso ao microcrédito no universo analisado.

Um dos resultados mostrou que as mulheres costumam tirar mais proveito do que os homens da oportunidade de obter esse tipo de financiamento. O aumento do faturamento das microempreendedoras foi de quase 20% no período analisado, diante de 14,6% dos homens. “As ciências humanas e sociais aplicadas têm apresentado projetos sofisticados. Precisamos da contribuição de todas as áreas do conhecimento”, diz Tonidandel.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP. Leia o original aqui.