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Gazeta de Ribeirão online

Erros de grafia como reflexos do que se fala

Publicado em 09 maio 2010

Por Rosemary Conceição dos Santos

De acordo com a matéria, identificar se uma palavra se escreve junto ou separado, dilema para muitos estudantes de língua portuguesa, pode, supostamente, ocorrer devido ao fato de a criança basear sua escrita na maneira como organiza sua fala. De acordo com uma pesquisa realizada no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas Ibilce, câmpus de São José do Rio Preto, se há uma pausa na pronúncia, o aluno interpreta que um vocábulo tem duas partes. Quando há aglutinação, ele escreve tudo junto.

Nos resultados da pesquisa, afirma-se que esse tipo de erro ortográfico traz a evidência de que no português do Brasil a unidade prosódica, aquela que define os acentos da fala, é formada por palavras que têm acento, isto é, uma forte entonação, e outras que não têm. Tal fato, levando lingüistas a entenderem que, para tais estudantes, os erros de grafia de crianças e adolescentes não são evidências de distúrbios de aprendizagem, mas, sim, que os mesmos aconteceriam por fazer parte do processo de descoberta de como funciona a ortografia.

Neste contexto, construções do tipo concerteza, apartir, da quele e derrepente, por exemplo, demonstram como essa variação pode confundir o aluno durante a aquisição da escrita. Os limites da palavra, que é o termo linguístico para os espaços em branco na escrita, são assimilados aos poucos pelos alunos, que passam a dissociar as pausas da fala das separações gráficas. O estudo, apontando, também, a influência do conhecimento ortográfico já adquirido nos erros de grafia, afirma que o estudante tomaria como modelo a separação ou junção de um termo, a partir do qual intuiria a redação de outra palavra.

Tal pesquisa, apoiada pela Fapesp Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, originou-se de um projeto de extensão que desde 2008, promove uma oficina mensal de leitura e escrita, e minicursos, sobre dificuldades de português entre alunos de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental, em uma escola estadual do referido município. Nestes encontros, segundo seus organizadores, os jovens produzem redações, analisadas pela professora e equipe. Alunos de graduação e de pós-graduação em Letras atuam nas oficinas, que já reuniram mais de 3 mil manuscritos. Com a prática regular de produção de texto, a equipe de pesquisadores, envolvida neste trabalho, constatou que as crianças passaram a escrever com muito mais facilidade e entusiasmo.

Envolvendo ainda três pesquisas de mestrado e uma de iniciação científica, o projeto é um exemplo do que muitos administradores, públicos e privados, poderiam trazer de melhoramento da habilidade verbal-linguística na grade curricular de seus respectivos municípios e instituições. Rosemary Conceição dos Santos é pós-doutora em Cognição, Leitura e Literatura pela USP-RP