Notícia

JC e-mail

Equipe cria antiinflamatório brasileiro

Publicado em 29 setembro 2000

Salvador Nogueira escreve para a "Folha de SP": Pesquisadores brasileiros já estão aprendendo o que é bom para a tosse. Mas só se ela for acompanhada de inflamação. Uma equipe da USP está muito próxima de desenvolver o primeiro antiinflamatório 100% brasileiro. O novo medicamento funciona de maneira semelhante aos equivalentes hoje no mercado, mas com um diferencial: traz menos efeitos colaterais. "A grande vantagem é a boa tolerância gástrica à nossa molécula", afirma Gilberto de Nucci, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP que está desenvolvendo o projeto. As drogas desenvolvidas para essa função normalmente agem inibindo a atividade de duas proteínas, as enzimas COX 1 e COX 2. Quando há uma lesão, o organismo libera uma substância, o ácido araquidônico. A COX 1 age nesse ácido, transformando-o em prostaglandina, substância que aumenta a sensibilidade no local lesado, causando inflamação. Reagindo a esse estado, surge a COX 2. Sua resposta é dada na forma de dores, edemas (acúmulo de líquido na região) e inchaços. Embora as COX pareçam ser, à primeira vista, inimigas declaradas do bem-estar do cidadão, a verdade é que elas também têm funções importantes no organismo, como a manutenção da coagulação sanguínea e da proteção da parede do estômago contra a acidez excessiva. O estudo, que começou há um ano e meio, é financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), responsável por 70% dos custos, e pela empresa farmacêutica Aché. Até agora foram gastos US$ 525 mil; a perspectiva é de que o custo final chegue a US$ 5 milhões. Atualmente, a droga já foi testada em camundongos e em culturas de células humanas em laboratório. Um estudo com cães deverá ser iniciado nos próximos dias. No ano que vem, se tudo correr bem, começam os primeiros testes com seres humanos. A previsão para que o antiinflamatório esteja no mercado é de três anos. Os pesquisadores criaram a droga a partir de uma molécula já conhecida -a parselmida-, que servia como base de um antiinflamatório europeu que era utilizado há cerca de dez anos. "A parselmida foi escolhida porque verificou-se que era possível inserir elementos que queríamos em sua estrutura durante o processo de síntese", diz Nucci. Segundo o pesquisador, os resultados são inéditos. "Até onde eu sei, é a primeira molécula desenvolvida no Brasil passível de ser patenteada como medicamento", afirma. A patente, feita apenas em nome do laboratório Aché, foi depositada em agosto. O Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) cumpre agora o processo de avaliar o mérito do pedido, fase que leva de um a dois anos. O registro não foi feito também em nome da universidade porque não existe uma regulamentação clara de como deveriam ser feitos pedidos de patente em nome da USP. Como o prazo para o requerimento -até um ano após a divulgação da descoberta- estava expirando, a empresa decidiu por pedir a patente sozinha. Isso não quer dizer que a USP não vá ganhar nada. O contrato de exploração da patente deve prever que 5% dos royalties sejam destinados à instituição. Devido aos problemas de regulamentação, o contrato ainda não foi assinado. "É a "burrocracia", com uns três ou quatro erres", diz Nucci. JC E-Mail — N° 1638