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GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Equilíbrio indesejável

Publicado em 25 novembro 2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP

Modelo do Inpe indica que com 50% da área original desmatada Amazônia sofreria mudanças irreversíveis.  Novo equilíbrio aceleraria desertificação no Nordeste

Agência FAPESP - Cerca de 20% da cobertura original da Amazônia já foi destruída.  O desmatamento de mais 30% causará mudanças irreversíveis no bioma, extinguindo a parte oriental da floresta, de acordo com um novo modelo desenvolvido no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O modelo, resultado da tese de doutorado defendida por Gilvan Sampaio, em março, no Inpe, foi apresentado pelo pesquisador, na semana passada, na Conferência Internacional Amazônia em Perspectiva, em Manaus.  O estudo foi orientado por Carlos Afonso Nobre e Prakki Satyamurty, ambos pesquisadores do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) - Nobre também é coordenador executivo do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais.

De acordo com Sampaio, o estudo analisou a situação do bioma em um intervalo de 24 anos e mostrou que, se o desmatamento chegar a 50% da área original da Amazônia, a região leste da floresta se transformará em savana.  O Nordeste do país também sofrerá impactos importantes, com avanço acelerado da desertificação.

"Descobrimos que um desmatamento acima de 50% estabeleceria um novo estado de equilíbrio na Amazônia, dando ao bioma uma configuração irreversível.  Essa cifra representa a transição para um ponto sem-retorno", disse Sampaio à Agência FAPESP.

A principal novidade do novo modelo, segundo ele, é articular cenários de clima e vegetação, ao contrário dos modelos convencionais, nos quais a vegetação não passa de um dado estático.

"É comum que se pense que a floresta, depois de cortada, vá se regenerar.  Mas o clima depende da vegetação tanto como ela depende do clima.  Quando a vegetação é eliminada, a partir de um certo ponto, o clima também muda.  Com isso, a situação anterior não volta mais", explicou.

Outro engano comum, segundo Sampaio, é pensar que a savanização consistiria em transformar a floresta em cerrado.  "O cerrado é um bioma muito rico em comparação com a savana.  O resultado seria uma savana muito mais empobrecida.  Com o desaparecimento da floresta no oriente da Amazônia, o processo de desertificação do Nordeste seria bastante acelerado", disse.

No estudo, Sampaio utilizou cenários de mudanças climáticas e de mudanças no uso do solo considerando áreas de desflorestamento equivalentes a 20%, 40%, 50%, 60%, 80% e 100% da cobertura original da Amazônia.  A simulação de desmatamento foi projetada para o futuro considerando que se mantenham as atuais tendências.

"Rodamos o modelo climático inserindo perturbações causadas pela mudança na vegetação.  Para isso, utilizamos os cenários partindo de condições extremas.  Se partirmos de 100% de cobertura, quando passamos de 40% já chegamos a outro estado de equilíbrio, com savanização do leste.  Se partirmos do deserto total e adicionarmos florestas, o sistema chega a um estado de equilíbrio quando atingimos 50% de florestas.  Ou seja, esse número está consolidado como o ponto de não-retorno", afirmou.

Os resultados para a Amazônia oriental, onde se espera o maior nível de mudanças na cobertura do solo durante este século, mostram um aumento na temperatura próxima à superfície da floresta e queda nos índices de precipitação e evapotranspiração.

Sampaio afirma que uma das principais conclusões do estudo é que, para atingir o novo equilíbrio - com alterações irreversíveis - não importa a geografia do desmatamento.  O que importa é a quantidade da área desmatada.

"Fizemos simulações randômicas e notamos que não há muita diferença em tirar do leste ou do oeste.  O que faz diferença é a quantidade.  Desmatando em qualquer lugar, o ponto de não-retorno era atingido quando chegávamos a cerca de 50%.  Por outro lado, o leste, mais ameaçado, sofreria a maior parte das conseqüências.  A floresta permaneceriam no oeste mesmo no novo equilíbrio climático", destacou.