Notícia

Galileu

Eppur si muove: Muito além de Kyoto

Publicado em 01 junho 2002

Por MAURÍCIO TUFFANI
O estrago a ser causado pela intransigência do presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, em aderir às medidas do protocolo de Kyoto pode ser muito maior do que se espera. Às vésperas da Rio+10, a ser realizada em agosto e setembro em Johannesburgo, na África do Sul, a posição do governo americano, contrária à redução de gases agravadores do efeito estufa, pode ocultar não só erros de outros países no plano ambiental, como também resultados positivos alcançados em regiões distantes dos grandes centros formadores de opinião. Em Johannesburgo, representantes de diversos países deverão discutir tarefas estabelecidas há dez anos aqui no Brasil, na Rio-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Outros temas precisam ser debatidos, como a conservação da biodiversidade, o combate à desigualdade social, à desertificação e a implantação de políticas do chamado desenvolvimento sustentável - baseadas no tripé ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável -, conforme prega o Programa das Nações Unidas do Meio Ambiente. No Brasil, desmatamentos, desperdício de água, falta de saneamento básico e outros pontos negativos não podem deixar de ser considerados. Também não podem ser postos de lado avanços importantes, dos quais um dos mais significativos é a experiência de programas de governo baseados no desenvolvimento sustentável. Essas experiências, iniciadas em 1994 no Acre e no Amapá, estimularam em larga escala a transformação de coletores, pescadores e artesãos em microempresários cooperados em projetos ambientais, com aumento de renda familiar, melhoria da qualidade de vida e crescimento de indicadores sociais e ambientais. Mas geraram uma feroz oposição das elites locais. No Amapá, desencadeou-se uma intensa crise política que até hoje a sociedade brasileira não entendeu e pensa ter surgido do combate ao narcotráfico. Na verdade, os sucessivos processos de impeachment contra o então governador João Capiberibe, anulados pelo Supremo Tribunal Federal, foram a resposta de deputados estaduais e outros ex-detentores do poder no Estado - alguns indiciados por narcotráfico - ao direcionamento de recursos para a formação de empresários entre a população de baixa renda, com ênfase em atividades ambientais. Essas experiências colocam uma nova questão para cientistas ambientais e para as Nações Unidas: como sustentar politicamente um programa de governo baseado no desenvolvimento sustentável? Tomara que o assunto não se perca na Rio+10. AQUECIMENTO GLOBAL DE FOCO OUTROS PROBLEMAS AMBIENTAIS Vários temas da Rio-92 correm risco de serem menosprezados no encontro de johannesburgo, em agosto DESMATAMENTOS Na América Latina e no Sudeste Asiático a devastação de florestas segue intensamente DESPERDÍCIO Consumo de energia nos países ricos permanece em nível muito acima dos padrões sustentáveis EPIDEMIAS Aids atinge na África 26 milhões de pessoas; crescem a malária e a febre amarela no mundo GUERRAS No Afeganistão e em outros países, conflitos devastam hábitats e afastam jovens da educação CORAIS Cerca de 60% dos recifes em todos oceanos estão ameaçados por poluentes DOIS JOSÉS, BRILHANTES E INCANSÁVEIS Na semana de fechamento desta edição, tivemos a notícia da morte dos brilhantes e incansáveis José Reis - a um mês de completar 95 anos, dos quais 55 dedicados à divulgação científica - e de José Lutzemberger, aos 75 anos. Nascido em 1907 no Rio, Reis começou a escrever na Folha da Manhã, após uma produtiva carreira de pesquisador, com um raro talento administrativo. Atuou ativamente na fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e também da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), cujos padrões de eficiência e probidade mantiveram por 40 anos sua imagem de agência-modelo de fomento à ciência. Quase sempre que fazíamos uma pesquisa antes de uma reportagem, nós, jornalistas de ciência e de outras áreas, dávamos de cara com seus artigos. Lutz, nascido em 1926 em Porto Alegre, foi agrônomo e um dos mais importantes ativistas ambientais do país. Em 1971, fundou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), onde combateu ativamente o uso de agrotóxicos. Em 1988, recebeu o prêmio da Right Livelihood Foundation, da Suécia, considerado o Nobel alternativo. Em 1990, convidado pelo presidente Fernando Collor, assumiu a Secretaria Nacional do Meio Ambiente. Deixou o cargo em 1992, após atritos com o Exército e governadores da Amazônia - em torno de políticas para a região - e com a burocracia federal. Reis e Lutz cumpriram seus ciclos brilhantemente. Mas sentiremos falta de sua presença enriquecedora.