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Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo

Epidemia de coronavírus reforça vulnerabilidade dos idosos na capital paulista, aponta estudo

Publicado em 29 abril 2020

Dos mais de 1,8 milhão de idosos que residem cidade de São Paulo, 290.771 (16%) vivem sozinhos, sendo 22.680 deles com 90 anos ou mais. Também é motivo para análise o número de idosos completamente solitários na capital: mais de 8 mil, por diversas razões, não têm a quem pedir ajuda caso precisem. Eles não contam com uma rede de suporte social ativa e eficiente.

Os dados sobre a vulnerabilidade dos idosos na cidade de São Paulo, reunidos especialmente para a Agência Fapesp, fazem parte do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O levantamento sobre as condições de vida e saúde dos idosos residentes no município de São Paulo acompanha 1.236 participantes, o que forma uma amostra representativa de toda essa população na cidade e permite chegar aos resultados apresentados.

“Estamos preocupados com os idosos que vivem em instituições [os antigos asilos, hoje denominados Instituições de Longa Permanência para Idosos – ILPIs] por sua alta vulnerabilidade e pelo grande risco de ocorrência de um contágio em massa. Porém, no geral, a situação também não é muito boa, principalmente se levarmos em conta o número de idosos que estão sozinhos em casa em plena epidemia e sem ninguém para ajudá-los. Precisamos todos olhar para essa realidade e planejar ações para esse período”, diz à Agência Fapesp Yeda Duarte, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do estudo em parceria com Jair Licio Ferreira Santos.

Índices

A condição de saúde dos idosos também é motivo de preocupação, sobretudo pelo fato de eles apresentarem doenças consideradas de risco para a COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus), acrescenta a pesquisadora. Entre os que moram sozinhos, 63,1% (183.477) têm duas ou mais doenças crônicas simultâneas. Entre as doenças mais comuns, 67.9% (197.434 idosos) são hipertensos, 25,4% (73.856) têm diabetes, 22.9% (66.587) apresentam alguma doença cardíaca e 9.3% (27.042) têm doença pulmonar crônica.

Além do alto índice de doenças crônicas, há outros fatores que preocupam os especialistas: 12,9% (37.510) dos idosos são frágeis e 52.2% (151.782) são pré-frágeis – têm pouca resistência ou energia, perdem peso involuntariamente e declaram sentir fraqueza, entre outros fatores de risco.

De acordo com dados do SABE, a maioria (75.1%) desses idosos que vivem sozinhos na capital paulista estão em processo de fragilização, o que os torna ainda mais vulneráveis nesse momento. Yeda Duarte ressalta que idosos com síndrome da fragilidade devem ser priorizados pela atenção primária, por serem mais suscetíveis a quedas, hospitalizações, incapacidades e óbito precoce.

Para a pesquisadora, a gravidade da epidemia do novo coronavírus põe em evidência a realidade da falta de assistência ao idoso e a necessidade de políticas públicas de apoio a essa população. “A epidemia é muito grave, mas talvez ela possa trazer uma transformação necessária para a sociedade, dando visibilidade a essas pessoas que nunca receberam a atenção necessária. É preciso mostrar que esses idosos existem. Essas pessoas continuam sozinhas em casa e precisam ainda mais de atenção agora, tanto da sociedade quanto do poder público”, diz.

Apoio

Yeda Duarte ressalta a necessidade de medidas de apoio, visto que, embora não devam sair de casa em virtude da epidemia, muitos deles não têm celular ou não sabem utilizá-lo para providenciar, por exemplo, comida e itens de primeira necessidade.

“Na população idosa que reside sozinha, mais de 80 mil (28,1%) não têm celular ou habilidade para manusear o aparelho, por exemplo. Isso os obriga a sair à rua e descumprir a quarentena, não por teimosia, mas por necessidade. Esses idosos sempre existiram, porém as políticas públicas não deram conta de olhar para eles. Neste momento, a própria pandemia os coloca em evidência”, diz.

Dessa forma, é importante que vizinhos, por exemplo, se disponham a ajudar. “Esses movimentos de solidariedade que cresceram na cidade por causa da COVID-19 precisam aumentar ainda mais. Ao saber que existem pessoas idosas residindo sozinhas no prédio ou na vizinhança próxima, seria importante se colocar à disposição para ajudá-las ou ser um contato delas com o mundo exterior”, afirma.

Entre os 1,8 milhão de idosos da cidade de São Paulo, além dos 16% que residem sozinhos, há ainda 48% residindo em casas na companhia de outros idosos – cônjuges ou outros parentes. “Esse grupo merece igualmente atenção. Nas últimas décadas, a imagem que a sociedade tem do idoso mudou muito. Eles são vistos, muitas vezes, como pessoas saudáveis que curtem a vida. Embora alguns estejam nessas condições, não são todos, nem a maioria. É preciso que a sociedade olhe para todos”, avalia.

Um dado positivo apontado pelo estudo está no fato de que 84% dos idosos terem sido vacinados contra gripe na capital paulista. Porém, apenas 39% foram imunizados contra a pneumonia. “Isso mostra que a diretriz deveria ser vacinar todos os idosos contra a pneumonia e não apenas os considerados vulneráveis como tem ocorrido até agora”, acrescenta.

Planejamento

Outro ponto importante levantado pela pesquisadora é a necessidade de maior planejamento para auxiliar a população idosa mais vulnerável durante a pandemia. “Não existe esse planejamento. Geralmente, o idoso vulnerável vai se virando, fazendo o que dá. Porém, na situação atual, não há como isso ser feito na prática. Tal fato pode passar a ideia equivocada de que os idosos, agora, são um problema e eles não são”, pontua.

Segundo dados do Estudo SABE, a maioria dos idosos mora com os filhos. Entre os que não moram sozinhos, apenas 9,6% não residem com filhos. Do total de idosos, 12% moram com crianças menores de 11 anos e 10,3% moram com adolescentes (12 a 18 anos).

“Os dados mostram que é preciso pensar também nas medidas de isolamento social levando em consideração a realidade desse grupo de risco para a doença. Não adianta liberar o jovem para trabalhar e a criança para a escola sem considerar que eles podem, ao serem infectados pelo coronavírus e muitas vezes não apresentarem sintomas da COVID-19, infectar outras pessoas, incluindo os idosos dentro de casa”, salienta.

Ainda de acordo com os dados do Estudo SABE, cerca de um quarto dos idosos em São Paulo apresenta dificuldades para exercer atividades básicas da vida diária, como, por exemplo, banhar-se, vestir-se, alimentar-se sozinhos e, portanto, necessitam de um cuidador presencial. “Isso nos leva a pensar em uma necessidade de maior planejamento antes de medidas mais duras, como o lockdown, por exemplo”, diz.

Genes

O levantamento multicêntrico teve início em 2000, quando, por iniciativa da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), foram pesquisadas pessoas de 60 anos ou mais de sete centros urbanos da América Latina e do Caribe, entre elas São Paulo. Com apoio da Fapesp, o estudo foi reeditado em São Paulo em 2006 e 2010 e em 2015 teve sua quarta edição.

De acordo com Yeda Duarte, uma nova edição está programada para acontecer em 2020. Por causa da epidemia do novo coronavírus, no entanto, os pesquisadores vão iniciar, neste momento, um monitoramento telefônico para identificar como os idosos estão encarando a quarentena e suas principais necessidade e vulnerabilidades.

Os participantes que eventualmente contraírem a COVID-19 serão também monitorados por integrantes do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da Universidade de São Paulo (USP) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela Fapesp e coordenado pela professora do Instituto de Biociências da USP Mayana Zatz.

“Vamos observar qual será o desfecho caso alguém seja infectado pelo novo coronavírus. Os idosos que conseguem lidar bem com a doença certamente têm em seu genoma genes protetores e é isso que pretendemos investigar”, conta Mayana Zatz à Agência Fapesp.

A equipe do CEPID já completou, há alguns anos, o sequenciamento dos genomas dos participantes do Estudo SABE. O trabalho foi feito no âmbito do Projeto 80+, que estuda o DNA de idosos saudáveis com mais de 80 anos para identificar características genéticas e ambientais que os fazem viver mais e melhor.