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Enzimas energéticas

Publicado em 19 julho 2007

Por Murilo Alves Pereira, de Piracicaba (SP), Agência FAPESP

Projeto Bioetanol, que reúne 150 pesquisadores brasileiros e estrangeiros, pretende desenvolver produção de etanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar por meio do processo de hidrólise enzimática

Um projeto financiado pelo governo federal pretende desenvolver e aperfeiçoar a produção de etanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar por meio do processo de hidrólise enzimática. O Projeto Bioetanol reúne cerca de 150 pesquisadores de 14 universidades brasileiras, além de outros centros de pesquisa nacionais e estrangeiros.

O projeto tem apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Segundo a coordenadora científica do projeto, Elba Bon, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já existe um pedido de planta piloto feito pelo MCT para calcular os custos da produção de etanol por esse processo.

Elba falou sobre o projeto nesta quarta-feira (18/7), no 5º Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia da Agroindústria Sucroalcooleira (Simtec), em Piracicaba, interior de SP.

Segundo a pesquisadora da UFRJ, o conhecimento sobre a hidrólise enzimática está bastante avançado no Brasil, tanto pelos resultados de pesquisas como por particularidades do país. Sabe-se, por exemplo, que um pré-tratamento do bagaço otimiza a hidrólise. "Esse pré-tratamento é feito há tempos na produção de ração animal", disse. Os fabricantes de ração animal utilizam o processo de explosão a vapor, em que o bagaço é aquecido a altas temperatura e pressão e explode.

Também são conhecidos os microrganismos responsáveis pela produção de enzimas usadas na hidrólise do bagaço da cana. De acordo com Elba, um dos principais pontos para reduzir os custos de produção do etanol seria fabricar enzimas na própria empresa. O custo da enzima importada é de US$ 7 por litro, ou US$ 2 por litro de etanol produzido, um valor inviável comercialmente. "Nós colocamos o limite de custo de US$ 0,17 por litro de enzimas, ou de US$ 0,05 por litro de etanol produzido", disse.

Outra possibilidade seria unir a produção de etanol do bagaço de cana com o obtido pela fermentação alcoólica convencional, produzindo etanol de melhor qualidade. Segundo a pesquisadora, toda a cadeia do processo convencional existe há anos no Brasil.


Baixo impacto ambiental

A ação enzimática de microrganismos é conhecida desde quando uniformes e barracas de soldados norte-americanos começaram a derreter, em plena Guerra da Coréia. Os soldados estavam em uma área úmida e cheia de árvores, que permitiu a ação dos microrganismos no tecido das roupas e das barracas.

Segundo Jaime Fingerut, pesquisador do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), o uso de enzimas na conversão de biomassa em açúcar é muito recente e tem grande potencial de desenvolvimento. Ele apresentou na Simtec algumas das principais pesquisas sobre o assunto, comparando a hidrólise enzimática com a ácida.

"A hidrólise ácida tem elevados custos para resolver problemas de corrosão e aumentar a resistência dos materiais", disse.

A hidrólise enzimática, segundo ele, também não tem todas as características ideais, o que ressaltaria a necessidade de mais pesquisas na área. "O processo precisa ter baixo custo, baixo impacto ambiental, flexibilidade do uso de matérias-primas e baixo gasto de energia", disse à "Agência Fapesp".

Fingerut comentou estudos como o do Natick, centro de pesquisas das forças armadas dos Estados Unidos que desenvolveu variações mutantes do fungo Trichoderma reesei, o mesmo que atacou os soldados do país na Coréia. Os pesquisadores do centro conseguiram ampliar em cem vezes a capacidade do fungo em converter celulose.

No mês passado, estudo feito por Jack Seddler, da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, indicou ser possível reduzir em duas vezes a quantidade de proteínas requeridas para converter a celulose. "A otimização ocorre por causa da mistura da celulose comercial com outras enzimas", explicou Fingerut.

O pesquisador do CTC destacou ainda a descoberta de enzimas cada vez mais eficazes e o papel da química quântica que, segundo ele, podem mudar o conceito existente sobre a ação das enzimas. "As possibilidades são enormes e, se há um país que deve comandar esse processo, esse país é o Brasil", disse.

(Agência Fapesp, 19/7)