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Jornal Pequeno online

Envelhecimento pode não estar associado à perda de neurônios

Publicado em 03 agosto 2010

Agência USP

São Paulo - Uma série de pesquisas realizadas na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP sugere que o processo de envelhecimento não está, obrigatoriamente, associado a uma diminuição no número de neurônios. Isso porque o número de células nervosas pode se manter estável ou até mesmo aumentar nas pessoas idosas.

Os estudos estão sendo feitos no Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química do Departamento de Cirurgia da FMVZ, sob a coordenação do estereologista Antonio Augusto Coppi.

Segundo o professor, de 1954 até 1984, o uso de métodos de análise inadequados em diversas pesquisas nacionais e internacionais conduziu os cientistas a acreditarem que, ao envelhecermos, nosso cérebro perdia células nervosas. "Porém, a partir de 1984, com a publicação do método estereológico, os pesquisadores menos resistentes contestaram os resultados anteriores, iniciando o emprego da quantificação de neurônios por estereologia 3D", conta.

A estereologia é uma ciência que permite a análise não apenas em duas dimensões (comprimento e largura), mas também levando em conta a profundidade (3D) e até mesmo o fator tempo (4D). Com isso, é possível estimar o número total de objetos - e não apenas o número de perfis deles -, o verdadeiro tamanho (volume) e outros parâmetros, com bastante precisão. O LSSCA é uma referência mundial na área e representante da América do Sul na Sociedade Internacional de Estereologia.

Nos últimos nove anos, foram realizados no laboratório diversos estudos nas modalidades de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado abrangendo o sistema nervoso periférico de roedores (como ratos, preás, cutias, pacas e capivaras), cães e cavalos.

Dentro de cada uma dessas espécies, os animais foram divididos em quatro grupos etários: neonatos (3 dias), jovens (1 mês), adultos (12 meses) e senis (2 a 10 anos, dependendo da espécie estudada). Esses animais eram saudáveis e não apresentavam sinais clínicos de doenças no sistema nervoso, o que poderia interferir nos resultados.

As análises foram feitas com neurônios do gânglio cervical superior e do gânglio mesentérico inferior. Esses gânglios pertencem ao sistema nervoso simpático, sendo que o primeiro inerva os vasos cerebrais e o coração, entre outros órgãos, e o último inerva os intestinos delgado e grosso. "É importante notar que células nervosas são encontradas não só no cérebro, mas também fora dele, em gânglios do sistema nervoso periférico", explica Coppi.

Resultados

Entre as conclusões inéditas, está o fato de que, na maioria das espécies, o envelhecimento ocasionou um aumento no volume dos neurônios, ou seja, uma hipertrofia. Em cães, os pesquisadores encontraram crescimento de até 100% no tamanho das células. "Não se sabe ao certo porque isso ocorre. Estudos recentes têm sugerido que a hipertrofia seria um mecanismo para manter a quantidade de substâncias produzidas pelos neurônios, como neurotransmissores, em caso de alguma doença ou perda de células", afirma o pesquisador.

O comportamento do número de neurônios durante o envelhecimento foi extremamente variável nos animais estudados: nos cães, a quantidade aumentou 1.700%, ao passo que roedores selvagens idosos apresentaram o mesmo número de neurônios dos neonatos e jovens, ou seja, não houve diminuição dessas células nervosas durante o envelhecimento. Já em cobaias, o número de neurônios baixou 21%.

"Os resultados sugerem que não existe um padrão específico em relação ao número total de neurônios durante o envelhecimento, pois nossos achados mostram três situações claras: diminuição, aumento e estabilidade no número de células nervosas", diz Coppi.

Um dado que gerou surpresa nos pesquisadores foi a presença de células nervosas se dividindo em roedores selvagens idosos (preás e cutias). "Esta constatação coloca em dúvida um dogma na neurociência de que os neurônios no sistema nervoso autônomo se dividem até o primeiro ou segundo mês de vida, e partir daí a divisão celular é interrompida", destaca.

Binuclearidade

Coppi cita ainda outra descoberta importante: a existência de neurônios binucleados em cobaias e outros roedores selvagens (preás, pacas, cutias e capivaras), tanto em animais neonatos quanto nos idosos. No entanto, esses neurônios não foram vistos em ratos ou camundongos.

Segundo o estereologista, uma das hipóteses para a existência de neurônios binucleados é que eles seriam uma reserva para o gânglio cervical superior, podendo se dividir (inclusive no animal idoso) e gerar novas células, na tentativa de compensar uma possível perda.

Os resultados dessas pesquisas foram publicados em revistas médicas internacionais, gerando seis artigos científicos completos. Adicionalmente, foram produzidas duas dissertações de mestrado, defendidas recentemente. Os estudos foram financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).