Notícia

Anuário Brasileiro do Plástico

Entrevista

Publicado em 01 maio 2011

Plástico Moderno - As empresas brasileiras não são conhecidas por investir quantias significativas em pesquisa e desenvolvimento. Isso também ocorre na indústria do plástico?

Paulo Dacolina - Uma parcela de empresas médias e grandes participa de projetos de pesquisa e desenvolvimento. Muitos transformadores têm equipamentos modernos, de última geração, o que já é um passo muito grande. As empresas micro, pequenas e de médio porte, que representam a grande maioria da indústria do plástico nacional, no entanto, não investem. Esse é um de nossos grandes desafios, convencer empresas do setor da importância de investir em tecnologia, divulgar que existem facilidades para fazer isso. Ainda não achamos um caminho eficiente para convencer os empresários.

PM - Que tipos de facilidades vocês oferecem?

Dacolina - Desde 2006, o INP promove parcerias com entidades, institutos de pesquisas, universidades. Os acordos permitem às empresas usar a estrutura de nossos parceiros para projetos de desenvolvimento de tecnologia, muitas vezes com empréstimos a fundo perdido. Quem investe em tecnologia se torna mais forte, se diferencia da concorrência. A procura por esses serviços, no entanto, é pequena. Detectamos mensalmente entre 150 e 200 visitas mensais em busca de informações sobre serviços tecnológicos em nosso site. Essas visitas nem sempre se transformam em ações concretas.

PM - Quando falamos em grandes empresas investidoras em tecnologia estamos falando apenas das fabricantes de matérias-primas ?

Dacolina- Sem dúvida, as fabricantes de matérias-primas são empresas de grande porte, responsáveis pelos maiores investimentos. Elas buscam de forma incessante conseguir fórmulas mais sofisticadas, plásticos capazes de obter peças com bom desempenho mecânico e menor peso. Tudo em nome da redução de custos. Também investem em soluções voltadas para a proteção do meio ambiente. Temos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento de plásticos "verdes" ou biodegradáveis. A nanotecnologia é uma ciência promissora e existem pesquisas a respeito. São estudos importantes realizados no Brasil. Mas é preciso dizer que médios e grandes transformadores também investem em soluções técnicas de ponta.

PM - Os transformadores investem em que tipos de projetos?

Dacolina - Eles investem em várias frentes. Alguns transformadores brasileiros, inclusive, estão conseguindo grande sucesso no exterior por conta da tecnologia. Um exemplo é o setor de utilidades domésticas, um sucesso no mercado internacional pela excelência do design desenvolvido por aqui. Outros segmentos são os de embalagens flexíveis. Muitas empresas vendem para outros países tampas para frascos. Também temos fabricantes de peças técnicas com qualidade compatível com as dos melhores transformadores do mundo. Hoje a economia está globalizada, os fornecedores de peças precisam estar em dia com as técnicas mais modernas. O setor de autopeças, por exemplo, produz componentes de automóveis usados pelas montadoras em outros países, os modelos de veículos são universais.

PM - Como andam as exportações de manufatura-, dos plásticos?

Dacolina - Os produtores brasileiros estão avançando nos últimos anos, mas ainda temos um déficit comercial grande. Em 2009, exportamos 280 mil toneladas de produtos manufaturados e importamos 469 mil. O déficit no ano passado foi de US$ 1 bilhão. Em 2010, de janeiro a setembro, exportamos 233 mil toneladas e importamos 445 mil, com déficit de USS 920 milhões.

PM - Por que esse déficit não diminui? Os produtores brasileiros não conseguem ser competitivos no mercado internacional?

Dacolina - E difícil conquistar os mercados externos. Os exportadores não sofrem apenas para atender aos requisitos tecnológicos exigidos pelos outros mercados. Temos problemas com o custo Brasil, que engloba juros altos, falta de infraestrutura de transporte e outros problemas. Nos últimos tempos temos enfrentado a desvalorização do dólar, problema que encarece os produtos fabricados por aqui.

PM - OINP tem um programa de incentivo à exportação. Fale um pouco sobre o projeto.

Dacolina - O programa Export Plastic é uma iniciativa pioneira em nível mundial. Reunimos representantes de todos os elos da cadeia petroquímica nacional e contamos com o apoio da Apex-Brasil [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos], órgão do governo brasileiro voltado para o apoio às exportações. O projeto incentiva as exportações oferecendo aos transformadores uma série de ações de promoção comercial, inteligência comercial, capacitação e suporte operacional. Apoiamos desde uma empresa interessada em começar a participar do mercado internacional até tradicionais exportadores. O programa tem 70 associados. Eles estão conseguindo excelentes resultados, suas vendas externas vêm crescendo em um ritmo maior do que os das exportações nacionais como um todo.

PM - A importação de manufaturados atrapalha muito a indústria de transformação nacional?

Dacolina - No momento atual, de economia aquecida, nem tanto. As vendas estão positivas e compensa o aumento da concorrência que acontece por fatores como o problema cambial. Se a economia esfriar, no entanto, ela vai incomodar os produtores brasileiros.

PM - Quais as diretrizes principais do trabalho do INP em termos de avanço tecnológico?

Dacolina - Trabalhamos em três vertentes principais, inovação, extensão tecnológica e oferta de laboratórios.

PM - Qual a importância da inovação dentro do atuai cenário industrial? Que tipo de ações vocês promovem para ajudar as empresas nesse sentido?

Dacolina - A inovação hoje em dia é essencial para uma empresa chegar ao sucesso. Nós procuramos ajudar as empresas que nos procuram com uma ideia, tentamos tornar os bons projetos em realidade. Temos parceria com a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], órgão estatal de financiamento. A Finep oferece empréstimos muitas vezes subvencionados. Também trabalhamos em conjunto com o Sibratec [Sistema Brasileiro de Tecnologia], entidade voltada para o desenvolvimento de tecnologia ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Montamos redes com a participação de institutos de pesquisa e universidades para prestar apoio ao desenvolvimento do projeto. As vezes, os empresários não têm tempo para ir atrás da burocracia necessária para a realização de um projeto de inovação. Nós também atuamos nesse sentido, temos os contatos, os ajudamos a enfrentar os trâmites necessários.

PM - Quais os projetos de extensão tecnológica?

Dacolina - Por meio de parcerias com universidades, centros de pesquisas e entidades setoriais, nós possibilitamos às empresas o acesso às mais modernas tecnologias. Vou falar de dois projetos. O Projeto de Unidades Móveis - Prumo, feito em parceria com o IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas], Sebrae-SP [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo] e da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], é voltado para o desenvolvimento técnico das pequenas e médias empresas. Também oferecemos o Projeto de Exportação - Projex, voltado para auxiliar empresas interessadas em colocar um produto no mercado externo. Com o Projex, informamos, por exemplo, quais as barreiras comerciais e exigências técnicas adotadas pelos outros países nos diferentes segmentos de mercado.

PM - O que vocês estão fazendo em relação à oferta de laboratórios?

Dacolina - Estamos terminando de montar uma rede de laboratórios de entidades acadêmicas que estará disponível para os interessados em realizar vários tipos de ensaios. Essa rede.contará com representantes em diferentes estados, de forma que facilite a pesquisa dos interessados localizados nas diversas regiões do país.

PM - Vocês fazem algum trabalho voltado para o treinamento de mão de obra? A demanda por profissionais qualificados supera a oferta?

Dacolina - Não atuamos muito nessa área. No Brasil, temos bons exemplos de escolas, como o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], o Instituto Federal de Educação Tecnológica, no Rio de Janeiro, as Fatecs [Faculdade de Tecnologia de São Paulo], entre outras. Essas escolas são suficientes para atender o mercado? Acho que não. Faltam bons profissionais, a educação precisa se expandir.

PM - O INP tem um trabalho para normatizar peças plásticas. Como vocês atuam nessa área?

Dacolina - Trabalhamos muito na área de normatização. Somos credenciados pela ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas] e atuamos em diversas áreas. Já produzimos normas técnicas para embalagens e acondicionamentos plásticos, copos, cadeiras de plásticos e para estruturas de estufas, dos filmes de sombreamento usados na agricultura. Vamos expandir o trabalho para outros segmentos do mercado. Um deles é o de assentos para estádios abertos, escolhido pelo fato de a próxima Copa do Mundo vir a ser disputada no Brasil. Já terminamos as normas para assentos de ginásios esportivos e para outros eventos fechados.

PM - As normas desenvolvidas pelo INP são baseadas em associações normativas internacionais?

Dacolina - Sempre que possível, é interessante seguir as recomendações das normas ISO, bastante aceitas pela

PM - Vocês contam com parceiros para desenvolver essas normas?

Dacolina - Para trabalhar com equilíbrio, temos contado com a parceria das três partes interessadas: consumidores, academia e transformadores. Tentamos sempre chegar próximo de um consenso.

PM - Como garantir que as normas criadas sejam cumpridas pelos transformadores?

Dacolina - O cumprimento tem caráter voluntário. Entidades como INP e ABNT são privadas, não têm o poder de garantir práticas compulsórias. Por isso, na prática, nem todas as empresas respeitam as normas. Mas há um aspecto que precisa ser comentado. O artigo 39, inciso VIII, do Código Brasileiro do Consumidor, exige que os produtos comercializados estejam dentro das normas relativas à sua categoria. Conforme o caso, algumas categorias são enquadradas.

PM - Existem categorias de transformados plásticos que exigem a emissão de selos de certificação?

Dacolina - Temos dois conjuntos de normas, para cadeiras plásticas e copos descartáveis, para os quais o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) passou a oferecer um selo de qualidade.

PM - Os fabricantes brasileiros de cadeiras plásticas são todos certificados?

Dacolina - Sim. Existem entre 20 e 25 empresas, fabricantes de 180 modelos de cadeiras monobloco, com ou sem braço. Quem não tem certificado não pode participar do mercado. Desde que isso foi definido, os participantes do setor concorrem de uma forma mais leal. Há alguns anos, havia uma disparidade de preços, umas cadeiras custavam R$ 15 outras R$ 30. O consumidor não sabia o que estava comprando. Hoje, elas precisam ter qualidade mínima para serem comercializadas.

PM - O mesmo ocorre com os copos descartáveis?

Dacolina -consulta nacional quanto ao assunto. Se ela for aprovada, todas as empresas fabricantes deverão ser certificadas pelos organismos de certificação de produtos credenciados do Inmetro. Para isso, elas devem contar com sistema de gestão da qualidade e laboratório de análise da própria produção, aferido pelo Inmetro. Conquistada a certificação, o produtor está habilitado a comprar o selo de qualidade do Inmetro, e só a partir deste momento estará apto à fabricação. Aqueles que desrespeitarem a norma estarão sujeitos à apreensão dos lotes em desconformidade e, no caso mais drástico, ao fechamento da fábrica.

PM - Quais são os quesitos para se avaliar a qualidade dos copos descartáveis?

Dacolina - A norma desenvolvida por nós é pioneira em todo o mundo. Desenvolvemos depois de constatar que a qualidade dos copos brasileiros ficava muito aquém das de outros países. A norma prevê o uso de uma quantidade mínima de material para a fabricação. Um copo de 300 ml, por exemplo, deve ter massa mínima de 3,3 gramas e o de duzentas, 2,2 gramas.

PM - As empresas certificadas são fiscalizadas?

Dacolina - Sem dúvida, elas sofrem inspeções periódicas.

PM - Hoje há uma campanha dos ecologistas contra o uso de sacolas plásticas. Há um trabalho do INP para melhorar a qualidade dos "saquinhos". Fale sobre essa iniciativa.

Dacolina - Acho que esse é o nosso trabalho mais importante. Desenvolvemos uma sacola capaz de carregar 6 kg, três garrafas de refrigerante PET de dois litros. Ela permite que os consumidores levem mais compras para casa.em um mesmo "saquinho". O trabalho foi muito bem-aceito pelo mercado. Desde 2007, quando o saco reforçado foi lançado, já certificamos, de maneira voluntária, 16 associados. Essas empresas são responsáveis por 85% da produção nacional de saquinhos.

PM - O que esse trabalho representa em lermos de economia de sacolas plásticas?

Dacolina - A meta é reduzir em torno de 30% o volume de sacolas usadas no Brasil. O consumo em 2007 era de 18 milhões de unidades. Esse ano, estimamos chegar em 14 milhões, redução de 21,8%. Queremos chegar aos 12 milhões nos próximos anos.

PM - Esse trabalho è suficiente para convencer o mercado sobre o esforço da indústria para reduzir a fabricação de sacolas?

Dacolina - Temos atuado em outras frentes. Criamos um programa de qualidade e consumo responsável que prevê a distribuição de cartilhas em escolas para ensinar as crianças a usar as sacolas de forma adequada. Falamos para os alunos sobre a importância de se preservar a natureza, os orientamos a reduzir o uso, reusar e reciclar as embalagens. Também promovemos treinamentos para funcionários de supermercados.