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IstoÉ Dinheiro

Entrevista: José Fernandes Perez

Publicado em 29 novembro 2000

Por FABIANE STEFANO

Para o diretor científico da Fapesp, participação do capital de risco no financiamento de pesquisas tecnológicas é fundamental para o País enfrentar a abertura da economia Cientistas e executivos, no Brasil, não costumam freqüentar as mesmas rodas. Os primeiros são identificados com jalecos brancos, salas de aula e laboratórios. Os segundos, com ternos bem cortados, escritórios luxuosos e altas cifras. Nas poucas vezes em que os dois se encontraram, no entanto, ficou provado que a parceria pode ser mais do que produtiva. Que o diga o professor José Fernando Perez, 56 anos, engenheiro formado pela Universidade de São Paulo e com doutorado na Suíça. Há sete anos à frente da Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ele está vinculado a algumas das mais importantes conquistas nacionais em inovação tecnológica brasileira e, ao mesmo tempo, é um árduo defensor da participação da iniciativa privada no desenvolvimento científico do País. Para ele, cabe às empresas a tarefa de criar ciência de primeira linha. "Só assim é possível desenvolver o País", afirma, mostrando na prática os resultados de sua teoria.

Graças ao modelo empresarial de gestão e a parcerias com companhias de vários setores, a Fapesp é hoje internacionalmente reconhecida pelos resultados que obteve no Projeto Genoma com o seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa, a bactéria que causa a praga do amarelinho nos laranjais. Transformou-se, também, em um paradigma de eficiência na administração de recursos públicos. Perez comanda um orçamento anual de R$ 520 milhões. Metade dos recursos da instituição vem da dotação de 1% da arrecadação do Estado de São Paulo, dinheiro do ICMS, IPVA e outros impostos estaduais. Os restantes R$ 260 milhões são provenientes de rendimentos do patrimônio da fundação, adquiridos ao longo de 38 anos de existência da Fapesp. Atualmente, boa parte do patrimônio está no mercado financeiro, em investimentos conservadores. Esse dinheiro tem um destino. "Aqui tudo é aplicado em pesquisa", diz Perez. Leia abaixo a entrevista de Perez concedida à DINHEIRO.

DINHEIRO — É difícil fazer Ciência no Brasil?

JOSÉ FERNANDO PEREZ — Acho que estamos no meio de um processo. O Brasil sempre teve cientistas isolados, verdadeiros heróis. Há cerca de 35 anos começou a implantação do sistema de pós-graduação no País. Houve um investimento pesado em infra-estrutura de laboratórios e formação profissional. Então, deixamos de ter apenas cientistas para ter um sistema de Ciência. É o que estamos demonstrando com o Projeto Genoma. Essa iniciativa bem-sucedida só foi possível por causa de uma competência instalada, criada ao longo desses 35 anos. E já temos indicadores disso. Nos últimos 15 anos, o Brasil passou de 0,4% da produção científica mundial para 1,2%. Cresceu três vezes mais do que a média internacional.

DINHEIRO — Comparando a pesquisa brasileira com a de outros países, como está o desenvolvimento científico no País? Estamos muito atrasados?

PEREZ — Estamos com um crescimento vigoroso. Acho que somos menos atrasados do que a percepção geral. Quando as pessoas se surpreendem com os resultados do Projeto Genoma, principalmente com a repercussão internacional, é porque elas não perceberam o crescimento que nós tivemos nos últimos anos. Hoje, o Brasil é reconhecido como uma liderança internacional na área de genética. Tanto é verdade que o departamento americano de agricultora encomendou um estudo genético na outra cepa da Xylella, aquela que ataca as videiras da Califórnia e está causando um prejuízo enorme lá. Agora, estamos trabalhando nos próximos passos do Projeto Genoma Humano do Câncer, que vai consumir US$ 10 milhões da Fapesp. O Brasil é o segundo maior gerador de informações sobre tumores. E o nosso trabalho já identificou 240 novos genes do cromossomo 22.

DINHEIRO — Como esse conhecimento vai ser revertido em desenvolvimento do País?

PEREZ — A tecnologia moderna requer domínio absoluto dessas técnicas de genética molecular. O Brasil cresceu três vezes mais que a média internacional em publicações científicas. A única área que crescemos abaixo disso foi em genética molecular. Os países desenvolvidos estão investindo pesadamente nisso. Se olharmos a febre da nova economia, há dois ingredientes: Internet e biotecnologia. Em Internet já eram feitas algumas coisas. Na área de biotecnologia, o Brasil não fazia nada. Por isso, a primeira ação do Genoma foi criar competência em escala. Qualificamos 300 pesquisadores em dois anos. Começa a ser percebido no Brasil que há espaço para o capital de risco investir nessa área, porque temos competência comprovada. Estamos prevendo que dentro de seis meses, duas ou três empresas da área genômica serão criadas no Brasil. Serão empresas formadas com o capital de risco e que depois irão fazer um IPO (initial public offering — oferta pública de ações).

DINHEIRO — O que precisa ser feito no País para se dar um salto no incremento científico?

PEREZ — O Brasil precisa criar ambiente de pesquisa dentro das empresas. No Brasil, 70% dos pesquisadores estão nas universidades e apenas 30%, nas empresas. Nosso modelo de desenvolvimento econômico conspira contra o sistema de inovação. Um indicador é a falta de patentes. O Brasil tem 1,2% da produção científica mundial. A Coréia também, mas ela tem 1% das patentes depositadas nos EUA, cerca de duas mil por ano. O Brasil tem 30 vezes menos que isso. O motivo é que a Coréia tem um sistema de inovação que sai das empresas. A patente é um indicador de pesquisa feitas nas companhias. Nos EUA, apenas 3% das patentes têm origem nas universidades. O resto vem das empresas.

DINHEIRO — E qual seria o papel das universidades, se a inovação tecnológica ficar a cargo das empresas?

PEREZ — A missão da universidade não é fazer desenvolvimento tecnológico. Isso não acontece em nenhum lugar do mundo. A universidade tem de formar gente que vai fazer esse avanço. Um exemplo que eu acho importante é o da Embraer. Não foi o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) que fez a Embraer. A empresa é um subproduto do ITA, criado no década de 50. Essa instituição formou gente que sabe construir aeronaves. Mas não foi o ITA que se meteu a construir avião. É diferente.

DINHEIRO — Os empresários estão dispostos a participar dessa proposta? O sr. percebe que está havendo mudanças no meio empresarial?

PEREZ — Acho que está havendo uma mudança de atitude. A resposta que estamos tendo com o nosso programa de inovação tecnológica em pequenas empresas demonstra que há uma competência crescente, que precisa ser estimulada. Quando lançamos o programa aqui na Fapesp, houve muito ceticismo. A verdade é que as pessoas subestimam as iniciativas ousadas. Já estamos financiando 128 pequenas empresas. Cada uma delas pode receber até R$ 375 mil. A proposta tem de ter uma inovação tecnológica, pesquisa, uma equipe competente e o produto tem de ter valor comercial. Queremos criar a cultura de que a pequena empresa também é um ambiente de pesquisa. E a resposta está sendo extraordinária. Agora, vamos mostrar a elas como buscar o capital de risco. No momento, essa é a melhor solução que se tem para crescer com as altas taxas de juros brasileiras.

DINHEIRO — Esses programas já estão dando resultados práticos?

PEREZ — Os primeiros projetos já foram concluídos. Um deles é a criação de uma manta óptica para recém-nascidos. Entre 5% a 10% das crianças nascem com icterícia, o que dá um aspecto amarelado ao bebê, e precisam ficar em incubadoras. Nessa manta, passa uma fibra óptica que irradia uma freqüência que inibe a substância que causa o problema. O projeto já foi concluído, nele foram investidos R$ 320 mil e, agora, a empresa precisa aumentar escala. Outro projeto é de um equipamento de análises laboratoriais chamado cromatógrafo, que não existia no Brasil e precisava ser importado. O projeto também já está pronto, mas para que essa indústria possa entrar no mercado ela vai precisar de um investimento alto. É por isso que insisto que as empresas precisam do capital de risco.

DINHEIRO — A Fapesp sempre atuou junto às universidade. Agora quer trabalhar com os empresários. Há uma mudança de foco na atuação da instituição?

PEREZ — O ponto forte da Fapesp é a flexibilidade, a capacidade de reconhecer desafios e oportunidades. Isso aconteceu com o projeto Genoma, que em seis meses já estava na rua. Nenhuma agência de fomento do mundo conseguiria desenvolver um projeto tão ambicioso em tão curto espaço de tempo. Isso é um mérito da instituição. A agência criou uma série de programas novos, que não mudaram seu perfil, mas ela percebeu que há outras necessidades e oportunidades. Por isso, temos estimulado as parcerias de empresas com universidades. Patrocinamos um projeto entre a Serrana, fabricante de tintas, o Instituto de Química da Unicamp. Juntos, eles desenvolveram um novo pigmento não-tóxico para fazer tinta branca. Agora, a empresa está planejando uma nova planta industrial para produzi-lo e já está pagando royalties para a universidade.

DINHEIRO — A Fapesp sabe qual é o retorno financeiro dos projetos nos quais investe?

PEREZ — São números que não temos nem como aferir. Mas segundo as próprias empresas o retorno é bastante alto. A Petrobras, com a instalação de um sistema de controle feito em parceria com a Escola Politécnica da USP, teve um ganho adicional de US$ 0,25 por barril de petróleo processado nas refinarias. Já a praga do amarelinho causa um prejuízo anual de R$ 180 milhões para os produtores de laranja. Espera-se que, com o seqüenciamento da bactéria, sejam criadas soluções que acabem com essa perda.

DINHEIRO — O sr. diz que a inovação deve vir das empresas. Qual seria a participação do governo nesse processo?

PEREZ — A solução não é estritamente governamental, mas depende de uma participação do governo, como estímulos, isenção fiscal e programas de ação pública. Depende também do ambiente macroeconômico, como taxa de juros. Mas o mais importante é uma percepção do governo de que a inovação tecnológica é a única resposta compatível para o processo de abertura que estamos atravessando neste País. Ainda estamos muito atrasados. O processo de abertura exige investimentos e uma política vigorosa de desenvolvimento tecnológico e de inovação.

DINHEIRO — Quanto tempo levará para o País fazer Ciência nos moldes que o sr. propõe?

PEREZ — Mais rápido do que se imagina. Sou otimista. Tem muita gente boa por aí. Estou vendo os sintomas em todas as direções. Mas ainda existem problemas. A maioria das nossas empresas não está preparada para atuar nesse esquema de negócios. Elas precisam de uma assessoria. Por exemplo, estamos exigindo um plano de negócios estruturado, para saber como elas vão comercializar o produto. Mas é um problema mais rápido de resolver do que criar um parque científico. As pessoas aprendem rápido.