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Diário de Pernambuco online

Entrevista especial: Margareth Rago

Publicado em 02 abril 2012

Novos desafios do feminismo

Feminista e “simpatizante” das teorias anarquistas, a historiadora foi a primeira brasileira a introduzir o discurso foucaltiano na história, na década de 1980. A partir daí, debates como liberdade sexual, feminismo e combate à repressão familiar foram introduzidos nas academias brasileiras. Atualmente, estes temas podem ser considerados “modinhas” entre jovens pesquisadores das ciências humanas e sociais. “Tive que ir à zona, a uma região de prostituição num levantamento, conversei com as mulheres e notei que na profissão também existe prazer”, contou a uma plateia de universitários em passagem recente pelo Recife para palestra na UFRPE.


A historiadora vislumbra novos desafios para o feminismo e os direitos sociais. Em entrevista ao Diario, Margareth alerta sobre o “risco do regresso” no pensamento de movimentos religiosos no país e defende que conceitos como “ser homem ou mulher” já estão ultrapassados. “Nós somos seres humanos”, defende. 


Diante das transformações sociais, ou seja, destes “novos tempos”, é necessário rotular quem seria um homem ou uma mulher?
Não. São categorias - homem ou mulher - velhas, ultrapassadas, que mais atrapalham do que ajudam. Pode ser que, numa determinada época, elas tenham sido boas, ajudado a pensar. Mas hoje atrapalham as relações. Pois, nem as mulheres estão satisfeitas com a definição da mulher, que significa ser mãe, ficar em casa e cuidar dos filhos. E nem os homens estão satisfeitos com a definição de homem, que significa ser viril, ser galinha… E nem nós estamos satisfeitos com as divisões entre heterossexuais e homossexuais. Então, eu penso que estas categorias aprisionam e não libertam as pessoas nas suas práticas, nas suas vidas, na sua existência. E, portanto, elas devem ser abolidas.

Mas, isto de alguma forma, não é culpa do próprio movimento feminista, que nasceu “conservador”, na primeira metade do século 20, dando limites aos direitos?

O movimento feminista, em sua época, não pode ser considerado conservador. Ele pode ser conservador para nós hoje, que temos um feminismo muito mais avançado. Hoje, nós olhamos para aquilo e consideramos conservador porque elas não falavam de sexo, do corpo, do estupro, do aborto, não entravam nestas questões. Elas lutavam pelo direito ao voto, mas na sua época era muita coisa lutar pelo direito do voto quando não existia este direito nem a ideia de que as mulheres poderiam votar. Então, esta ideia de que o movimento feminista era conservador é de hoje. Na sua época, elas apanharam bastante.

É verdade que as feministas se frustaram com a política nos anos 1970? Isto pode explicar a baixa representatividade feminina na política brasileira?

Muitas das feministas, muitas das mulheres que se tornaram feministas, vieram da política partidária, principalmente dos partidos de esquerda. Elas se frustaram com os homens, que também acharam que o papel da mulher era secundário, de ajudante, de secretária… Agora, eu acho que também não devemos confundir os homens de esquerda com os de direita. Não é tudo a mesma coisa. Porque existia na esquerda a ideia de que homens e mulheres deveriam se juntar para construir um mundo justo e igual para ambos. O campo da política institucional é um campo masculino, é um campo muito competitivo. Eu não vejo nas feministas muita vontade de se tornarem senadoras, deputadas… presidente da República. Eu não vejo as mulheres querendo isso. Elas são políticas do cotidiano, atuando na melhoria das suas comunidades. O que, pra mim, é muito mais importante.

Atualmente, quais são os principais desafios do movimento feminista de forma global?

O principal desafio do movimento feminista hoje é enfrentar o assenso (concordância) das formas de direita e, em especial, as forças religiosas, como católicos e evangélicos que bloqueiam ou estão bloqueando todas as possibilidades de descriminalização do aborto que o movimento feminista tem levado. Então, acho que este é um dos desafios. Acho também que estamos sofrendo o risco de retrocesso em algumas coisas. As mulheres são respeitadas, porém, ainda continua o risco da violência doméstica, continua existindo o estupro, o descumprimento da Lei Maria da Penha. Então, eu acho que ainda há muito chão para caminhar e luta para ser levada.

Existe uma dicotomia no “direito feminino”. É exigido da mesma mulher que trabalha um “comportamento diferenciado” no lar. Ou seja, mais “recatado” em relação ao sexo masculino. Como a mulher pode romper isso?

O feminismo traz e trouxe esta questão com experiências concretas de mulheres que hoje são bem sucedidas, que são profissionais reconhecidas, tanto na academia, como na teoria feminista e outras áreas. Podemos citar o caso da Gabriela Leite, que é líder do movimento das prostitutas e é casada há 30 anos com Flávio Lenz, que é jornalista. Tem muitos nomes de mulheres como exemplos. A própria presidente Dilma, que é separada, é avó. Claro que há uma demanda grande para as mulheres de serem mães. Mas hoje há um espaço para a negociação. Não necessariamente os casamentos acabam porque as mulheres viram doutoras. Não é esta a realidade do nosso mundo.

Autores como Gilberto Freyre reforçaram a sensualidade da mulher brasileira, como as índias que esperam os portugueses na colônia para “libertinagens”. Esta é uma referência ainda utilizada em faculdades e escolas. É preciso, então, construir uma “Nova História” do país, de forma imparcial, sem estereótipos?

Narrativas como as de Gilberto Freyre moldaram a história do país. Fizeram a cabeça de gerações. Construíram um imaginário social. É um grande autor, mas é uma narrativa preconceituosa. É preciso fazer uma leitura crítica, perceber que ele era um homem da elite, tinha seus valores. Ele interpretou a visão que os viajantes fizeram dos comportamentos das indígenas a partir de categorias muito violentas, como dizer que elas eram ninfomaníacas ou dizer que elas estavam ansiando pelo prazer sexual que os portugueses lhe dariam. Ou mesmo falar que eram lésbicas, por uma tirar piolhos da cabeça da outra. Então, é preciso ser crítico e aproveitar o que há de bom em suas obras.

E esta “releitura” da história brasileira também passaria por grupos minoritários, como gays e lésbicas?

O engraçado é que a leitura gay na história do Brasil não é a leitura feminista, embora sejam próximas. Existe uma corrente de pensamento do movimento gay e dos travestis que vem reler a história do país que é bem interessante. É quase calma lá, né? Como era a sexualidade dentro dos navios na colônia, como era a sociabilidade masculina dentro do Exército. Assim como o movimento negro mostrou que Machado de Assis era negro, que Castro Alves era negro… coisas que quando eu era jovem no colégio a gente não aprendia. A gente tem que construir esta história pluralizando. E há diversos trabalhos na academia neste sentido…

O caminho mais rápido para esta divulgação seria nos meios digitais? Que, teoricamente, seriam mais democráticos?

Claro. Da mesma forma que está ajudando movimentos de contestação, como a Primavera Árabe, existe o movimento feminista na internet, o “cyber feminismo”. Atualmente, as jovens falam nisso, elas se articulam pela internet através de blogs. É um espaço que vem contribuindo para a ampliação do discurso plural, sem cortes ou censuras. 

Saiba mais

Margareth Rago é professora do departamento de história da Universidade de Campinas (Unicamp), no estado de São Paulo

É autora de livros como O que é Taylorismo?, Do cabaré ao lar e Os prazeres da noite. Prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo.

Foi professora visitante do Connecticut College, nos Estados Unidos, entre os anos de 1995 e 1996, e realizou seminários na Universidade de Paris 7, em 2003

Coordena, junto com outros pesquisadores, revista digital feminista internacional Labrys. A acadêmica também é co-editora da Revista Aulas

Orientou cerca de 19 dissertações de mestrado e 13 teses de doutoramento. Os temas variam entre anarquismo, feminismo, sexualidade e eugenia

Também é assessora científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)