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Diário de S.Paulo

Entrevista de drauzio varella - médico

Publicado em 18 novembro 2001

Por EDUARDO REINA
Vida de médico é assim mesmo. Muito corrida, sem horário para nada. Para não fugir à regra, o oncologista Drauzio Varella, também está sempre correndo entre seus inúmeros compromissos. Na semana passada, antes de encerrar o expediente no laboratório, onde examinava culturas de células cancerígenas em extrato de plantas que ele mesmo trouxe do Amazonas, Drauzio falou da expectativa de encontrar um medicamento que possibilite a cura da Aids e beneficie milhões de pessoas. O médico criticou o desleixo da população em relação a prevenção da Aids e a posição da igreja católica. "É um crime levar pessoas à morte ao proibir o uso da camisinha". Falou também das crendices populares sobre o tratamento de doenças e do novo livro que está escrevendo. "É sobre minha experiência com médicos, com doentes graves, com doentes que num momento da vida descobrem que têm uma doença que pode ser fatal. Mas está ainda muito cru. Está na página 30". - DIÁRIO DE S. PAULO - Que tipo de pesquisa o senhor está desenvolvendo num laboratório em plena avenida Paulista, no centro da cidade? - Utilizo extratos de plantas colhidas na Amazônia junto a células tumorais e contra bactérias resistentes aos antibióticos. O projeto tem sete anos, com apoio da Fapesp e da Unip. Mas é uma coisa para muitos anos. Temos um barco na floresta Amazônica. É uma escola da natureza, e todo nosso trabalho fica na área do rio Negro. - O senhor acredita que pode chegar até um medicamento para curar a Aids? -Em 2002 vamos testar alguns extratos contra o HIV na Escola Paulista de Medicina. O único jeito de saber se é eficiente contra a Aids é testar. Pode aparecer uma coisa que tem condições de beneficiar milhões de pessoas. -E o senhor acha que está no caminho certo? - Quando você usa produtos naturais você tem possibilidade de descobrir mecanismos completamente insuspeitados. Isso porque você está com uma molécula que a natureza produziu. E ela pode agir por um método completamente diferente daqueles que estamos acostumados. - A família brasileira está acostumada com a cultura da saúde ou não? - O que falta é informação. Não temos a tradição de informação médica, que é uma coisa recente. Até pouco tempo, as TVs dedicavam um tempo mínimo à saúde. Jornais não tinham praticamente nada. Saúde da família é uma coisa nova, não tem mais do que 10 anos. Esse tipo de informação tem de ser repetida, tem que ser feita no decorrer de gerações. - E a tradição falada? - A tradição falada é importante do ponto de visto cultural. Mas do ponto médico, às vezes é horrível. São transmitidas coisas erradas de geração para geração. Se fala que minha avó fazia assim. Sua avó fazia assim e fazia errado. Ela fez desse jeito em outra época. - O senhor tem um exemplo de tradição equivocada? -Semana passada viemos da Amazônia e gravamos uma matéria para o Globo Repórter sobre picadas de cobras. Numa cidade próxima ao rio Negro, o tratamento é enterrar o pé da pessoa picada num buraco para que a terra chupe o veneno. Mas isso vai infectar o indivíduo. Ele pode pegar tétano. E isso é uma cadeia, se você não quebra, daqui a 200 anos, continuará sendo feito assim. - E na cidade grande... - Queimaduras. O que se passa em queimaduras? Manteiga e pasta de dente. Você vê isso nas casas mais pobres, mais desinformadas e vê também em casas com pessoas de nível universitário. Vê também que um esfrega a mão no cabelo, o outro põe gelo, o outro manteiga, pasta de dente. Tem também pó de café, clara de ovo. O correto é colocar a parte queimada debaixo de água corrente, fria. - Todo mundo tem em casa uma farmacinha... - Essa farmacinha tem merthiolate, mercúrio cromo, água oxigenada, álcool etc. Muitos são contra-indicados. Aquela pazinha do merthiolate é horrível. Você passa a pazinha no ferimento e coloca no vidro de novo. Merthiolate mata bactérias vagabundas, as mais fortes sobrevivem. Quando você vai passar o produto em outro ferimento, você semeia a bactéria. - E tem a mania de assoprar para não arder... - Uma criança se machucou e você assopra e cospe na ferida. Aí cresce germe da tua garganta na ferida. Minha avó passava arnica. Você não vai querer fazer hoje o que a avó fazia há 100 anos! O certo é lavar com água e sabão. Qualquer sabão de tanque serve. Depois pegue um paninho limpo e enxugue. O sabão mata as bactérias, o merthiolate não. - Qual a melhor prevenção contra infecções por bactérias que existem por todos os lados no nosso dia-a-dia? - Uma coisa que eu tenho certeza que teria um impacto absurdo na saúde pública seria as pessoas, lavarem as mãos. Quando eu era criança fui educado assim: vai lavar as mãos antes de comer qualquer coisa, não pega em nada. Isso acabou. Hoje você entra no restaurante Massimo e vê executivos que vão para almoços de negócios, chegam da rua, sentam, pegam o pãozinho, passam patê, sem lavar as mãos. Todas as diarréias que a população pega não é porque a comida é estragada e sim por falta de higiene de quem faz. A causa de diarréia infantil nas cidades onde tem saneamento básico é a mão suja da mãe, que tá mexendo na cozinha, mexendo em uma coisa ou outra, vai ao banheiro, depois pega o escovão. - Vamos falar sobre Aids. O comportamento do brasileiro mudou em relação à prevenção da doença? - No começo dos anos 90 a prevenção foi muito maior e mais abrangente do que agora. Mas como advento dos medicamentos antivirais houve um relaxamento. Quem toma esses antivirais regularmente dificilmente morre da doença embora possa ter problemas. - E isso provocou o relaxamento? - Parece que é uma doença que já tem cura. E na verdade não tem. Não temos remédios para fazer o vírus desaparecer do corpo. Temos remédios para controlar a doença, até quando também a gente não sabe. Mas isso provocou um relaxamento. Agora a garotada que está começando a vida sexual, com 15, 16 anos, está se comportando como se nada houvesse. - Faltam campanhas? - Teria que ter mais, não só campanhas, mas também disponibilizar de camisinhas. Elas são uma forma de reduzir a disseminação da doença. Mas elas precisam ser acessíveis. É difícil um garoto na periferia de São Paulo comprar camisinha, gastar o pouco dinheiro que ele tem nisso. Acho que a camisinha tinha que ser comprada por um preço ínfimo, tipo 10 ou cinco centavos. - A igreja atrapalha? - Há má vontade de certos setores dos quais a igreja católica é o principal deles. Você vai ao interior, por exemplo, numa cidade onde o padre é contra a distribuição de camisinhas. Qual é o prefeito que enfrenta o padre? Você pega uma região onde o bispo é contra. Quais os prefeitos que têm coragem de enfrentar o bispo e dizer não, nós vamos distribuir e acabou. Na minha opinião isso é um crime. Estão colocando a vida das pessoas em risco, ainda mais num país como o nosso, com baixo nível de formação escolar. Essas pessoas deveriam ser processadas criminalmente. O Ministério Público tinha que agir. É crime contra a saúde pública fazer as pessoas arriscarem a própria vida por uma ideologia. - As famílias também reproduzem preconceitos... - Uma mãe sempre quer defender a saúde dos filhos, mas essa boa vontade necessariamente não implica num resultado positivo, porque depende de como é feito. Se você tem uma mãe que tem uma escolaridade baixa, ela pode estar querendo cuidar do filho da melhor forma possível e está fazendo uma coisa errada. Exemplo é a criança brasileira pequena que sempre está embrulhada num xale. Se ela fica doente então, com diarréia, aí é que se agasalha mais. Ela vai perder mais líquido ainda, vai desidratar mais facilmente. Se friagem provocasse doença, os suecos não existiriam, nem os finlandeses ou os russos. Todos eles morreriam ou iam ficar resfriados o tempo todo. PERFIL Há sete anos o médico paulista Drauzio Varella vasculha terras no baixo rio Negro, na Amazônia, no barco Escola da Natureza, em busca de plantas medicinais. Até o momento, cerca de 1.200 extratos já foram obtidos. Nascido em 1943 e formado pela USP em 1967, Drauzio também é professor e pesquisador da UNIP e apresentador de programas X na TV. Seu trabalho relacionado à Aids é reconhecido mundialmente. Aos 53 anos foi picado pela mosca azul da literatura e escreveu o best-seller Estação Carandiru, que conta o dia-a-dia de um dos mais populosos presídios do Brasil. "Como é bom fazer livros", diz o autor e ganhador do Prêmio Jabuti, na categoria não-ficção, com mais de 120 mil exemplares vendidos.