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Entrevista com a professora Alessandra Tonietto

Publicado em 05 novembro 2021

Por Jornal Momento Químico

A entrevista deste mês é a professora Alessandra Tonietto, que foi professora do Departamento de Química da Udesc, em Joinville. Tem experiência na área de Química Analítica, com ênfase em química ambiental e análise de traços, atuando principalmente nos seguintes temas: especiação de metais, matéria orgânica dissolvida, águas naturais e microalgas. E nos conta sua experiência na área de química ambiental voltada ao tema do mês, que é agrotóxicos.

Profa. Alessandra, por gentileza, poderia nos contar a sua trajetória profissional e por que escolheu Química?

Oi Danubia, boa tarde! Primeiramente, eu quero agradecer o convite, o seu convite, em nome do Jornal Momento Químico fico muito lisonjeada por participar. Bom, a minha trajetória com toda a minha formação, com Química, eu comecei a faculdade em 1998 na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Me formei em 2002. No início de 2003, comecei a ministrar aula como professora do Estado do Paraná e na metade de 2003 entrei no mestrado pela mesma instituição. Eu defendi o meu mestrado em 2006 e durante todo o mestrado eu continuei atuando como professora do Estado. Em 2006, eu fui aprovada no doutorado da Universidade de São Carlos, então pedi exoneração do cargo de professora e fui cursar o doutorado. Fiquei em São Carlos até 2010 quando defendi o doutorado. Em 2011, consegui a minha primeira bolsa pós-doc, pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde fiquei mais ou menos um ano e meio. Em 2013, eu voltei para o meu segundo pós-doc em São Carlos onde consegui uma bolsa Fapesp e fiquei por lá durante 2 anos. Em 2015-2017 eu fiz o meu terceiro pós- doc na Unesp de Sorocaba.

No tema deste mês, no Jornal Momento Químico, abordaremos o conteúdo “A Química dos agrotóxicos”. Como a química está ligada a esse assunto?

Bom, eu costumo trabalhar esse assunto na disciplina de Química Ambiental, mas ela pode ser extrapolada também para outras disciplinas, como nós conhecemos. Os agrotóxicos por definição são produtos químicos, que tem por finalidade controlar a presença de animais e vegetais, e também e evitar que existam doenças em plantas, ou seja, são substâncias químicas que são utilizadas na agricultura, e na pastagem com a finalidade da agropecuária. Como eles têm uma finalidade específica, que é combater/impedir que organismos prejudiquem ou interfiram no processo agrícola, conseguimos trazer esse assunto para a Química a partir do estudo da substância química, ou seja, estudar as suas propriedades físicas e químicas incluindo aí velocidade de evaporação, processos bio-acumulativos, solubilidade em água. Isso se atrela a outros conhecimentos que não se restringem somente à Química, mas também a outras formações que complementam as informações associadas ao conhecimento desse tipo de substância. Por quê? Porque a partir das propriedades físico-química e de outras informações como, por exemplo, a frequência do uso, o seu modo de aplicação, o tempo de meia-vida dessas substâncias químicas, como elas interagem independente das condições climáticas, tudo isso é capaz de inferir sobre o destino do ambiente e principalmente a saúde humana. Então, nós podemos restringir esse conhecimento, na parte da química, em conhecer essas substâncias, conhecer as estruturas, conhecer propriedades físico-químicas para contribuir com esse estudo e ampliar esse conhecimento que é tão importante para nós e para o meio ambiente.

O desenvolvimento dos agrotóxicos foi impulsionado pelo homem em querer melhorar a sua condição de vida e aumentar a produção de alimentos. Como os agrotóxicos auxiliam nesse sentido? Além do aumento da produtividade alimentar, os agrotóxicos quando não bem administrados podem gerar graves consequências ao ser humano e ao meio ambiente. A professora poderia citar algumas delas?

Sim, só complementando que eu respondi na pergunta anterior, os agrotóxicos têm essa finalidade de controlar a presença de vegetais, animais, ou mesmo em doenças nas plantas, isso pensando na agricultura ou também pastagem que é utilizada como fonte para agropecuária. O uso indiscriminado dos agrotóxicos é capaz de gerar problemas ambientais e também de saúde pública. Muitas vezes o uso indiscriminado é irremediável, ou seja, eles causam muitos efeitos tanto nos seres humanos quanto no meio ambiente. Por exemplo, nos seres humanos pode causar danos neurológicos, no sistema respiratório, nos sistemas reprodutivos, danos cardíacos, e mais ainda tem efeitos carcinogênicos, ou seja, causa câncer e ter efeitos teratogênicos, e o que é esse efeito? (um efeito que afeta o embrião durante a gravidez). Quanto aos efeitos ambientais é possível citar efeito na água, no solo, no ar, ou seja, na biosfera de uma forma geral que afeta a biota. Então, os agrotóxicos quando chegam ao ambiente e mesmo dependendo do alimento onde ele se encontra, podem permanecer por muito tempo. No ambiente, por exemplo, pode permanecer durante anos, ou mesmo décadas. Existem agrotóxicos que duram menos tempo, mas mesmo esses que duram menos tempo, as substâncias que resultam do processo de degradação desse tipo de agrotóxico são capazes de persistir no ambiente por um longo tempo. Tanto que existe uma pesquisa, que foi divulgada em junho de 2021, que mostra a presença do glifosato, que é o herbicida mais utilizado no mundo, e para se ter uma ideia o limite máximo permitido, desse herbicida no Brasil, difere do limite máximo permitido, por exemplo, na União Europeia. Então, no Brasil ele é permitido. Se compararmos a água potável no Brasil e a água potável na União Europeia, aqui no Brasil a concentração permitida é cinco vezes maior que a permitida na União Europeia. Outras fontes, como a soja e o feijão, tem uma variação na ordem de 200-400 vezes mais altas que o permitido na União Europeia. Esse herbicida, por mais que seja o mais utilizado mundialmente, estudos recentes mostram que ele tem efeitos cancerígenos em células estudadas em laboratório em animais. Já é cancerígeno, foi detectado que nesses sistemas, nesses estudos ele é considerado cancerígeno, porém nos seres humanos considera-se como possível cancerígeno, porque é proibido fazer testes em humanos. Mas então, ele é considerado para nós um possível cancerígeno, tem mutação genética já característica, causa infertilidade, danos em células embrionárias, enfim. Isso tomou uma proporção muito maior do que se imaginava porque além de se esperar para encontrar altas concentrações desse herbicida em frutas, hortaliças são aquelas que precisam do herbicida quando se tem necessidade da utilização de agrotóxicos pelos motivos que eu comentei no início. Eles foram detectados também como mostram uma publicação, de junho 2021, em alimentos ultra-processados, ou seja, em alimentos que são utilizados o herbicida no seu cultivo, por exemplo, soja, milho, trigo. Esses alimentos que são processados, utilizando esses produtos contêm durante o cultivo, o preparo, a industrialização até chegar no consumidor. O ideal seria o incentivo a uma produção mais limpa, ou seja sem a utilização desses agrotóxicos por causa desses efeitos tanto para os seres humanos como para o meio ambiente. Baseado nisso que comentei nos efeitos nocivos do agrotóxico, o ideal seria que existisse um incentivo a uma produção mais limpa, a uma produção orgânica, controle biológico, com a utilização de técnicas atualizadas e que minimizem ou extingam o uso do agrotóxico. E diminuir o consumo dos ultra-processados, se pudéssemos ampliar isso. Mas infelizmente, isso é algo utópico, pois vivemos em uma época de retrocesso. Só para termos uma ideia, em 2020 foi liberado o maior número de agrotóxicos da história totalizando 493 agrotóxicos. Para se ter uma noção da média liberada anualmente, do ano de 2000-2015 foi liberado uma média de 122 por ano, ou seja, esses dados variavam de 53 a no máximo 202 liberações por ano. A partir de 2016, essas liberações começaram a aumentar significativamente, e desde 2017 ultrapassam 400 liberações por ano. Só esse ano, 2021, foram liberados 230 agrotóxicos. Associados a essa quantidade de liberação de agrotóxico, a pandemia, o aumento da inflação, a diminuição do auxílio emergencial, há estudos que indicam que em 2021 nós atingiremos no mínimo um equivalente a 15 milhões de famílias de extrema pobreza. Isso equivale mais ou menos a 40 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza. É muito difícil pensarmos em ter incentivo a uma produção mais limpa, uma produção orgânica, pensando na situação que nós vivemos atualmente. Infelizmente, uma situação muito ampla, que abrange muitos contextos quando se fala em agrotóxicos.

Entrevista realizada por Danubia Mosca, graduanda em Licenciatura em Química pela Universidade do Estado de Santa Catarina.