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Época Negócios

Entre as pacas e a cura do câncer

Publicado em 13 dezembro 2013

Por Darcio Oliveira e David Cohen I

Emílio Odebrecht não quer falar sobre as atuais operações da Odebrecht. Para tratar de assuntos relacionados ao grupo, ele sugere aos interessados que procurem seu filho, o Marcelo. Quem quiser ter com Emílio deve mudar a prosa: de preferência, para a Recepta Biopharma, empresa especializada no desenvolvimento de drogas que combatem diversos tipos de câncer. “Estamos fazendo uma revolução na área de pesquisa no brasil”, diz ele. A recepta é a sua paixão neste momento, ou melhor, uma delas. Tem também as pacas, que o enchem de orgulho. Emílio é o maior criador do bicho no pais. “Os concorrentes, somados, não chegam na gente.” deve ser mesmo. O homem tem mil cabeças na Bahia, diz que começou a criar porque caçou muita paca quando era molequinho – e porque descobriu um bom potencial de mercado. A carne é vendida para restaurantes chiques e casas especializadas nas principais capitais brasileiras. “É saborosíssima, já comeram?” a seguir, ele fala desses novos negócios, da família, da profusão de Emílios no clã, do Corinthians e- vá lá – de Odebrecht. Não dá para entrevistá-lo sem falar do grupo. Afinal, ele é o presidente do conselho, e ainda manda pacas

COMO SURGIU A IDElA DE INVESTIR NO COMBATE AO CÂNCER?

O José Fernando Perez era diretor científico da Fapesp e costumávamos discutir programas de inovação e tecnologia da Odebrecht. Quando ele saiu, Jovelino Mineiro [empresário do agribusiness] o chamou para fazer um negócio que envolvia a pesquisa do genoma do gado. Eu acompanhei, pois sou muito amigo do Jovelino, e me interessei. Entrei no negócio. Dois anos depois de concluído o processo, o Perez e o Jovelino me propuseram um programa de pesquisa na área do câncer. Disseram que já haviam trocado algumas ideias com a Fundação Ludwig, uma das maiores especialistas no assunto. Eu disse: ‘Ói, Perez. Em primeiro lugar é um negócio que me motiva. Em segundo lugar, confio em você. Em terceiro lugar, é uma boa iniciativa para o Brasil. Em quarto lugar, tem um sócio [Ludwig] que estimula. E, por fim, pode se tornar um bom negócio. Então, vamos em frente’. Assim nasceu a Recepta Biopharma.

COMO FOI ESTRUTURADO O NEGÓCIO?

A Ludwig entrou com os monoclonais [anticorpos feitos em laboratório a partir de um único clone de um linfócito B. São capazes de reconhecer antígenos específicos de tumores e induzir uma resposta imune]. Eu e Jovelino temos 20% cada um. O Perez tem 12%. O Barbosa [José, vice-presidente] tem 2%. BNDESPar ficou com 16% e o Ludwig, 30%. Definimos algumas diretrizes, partindo de nossa filosofia de fazer um negócio enxuto, de qualidade. Procuramos tirar proveito de todas as instalações que o Brasil dispunha: Butantan, Fleury, universidades.

QUANTO FOI INVESTIDO ATÉ AGORA?

Mais de R$ 60 milhões.

VOCÊ JÁ ESTAVA NO CONSELHO DA ODEBRECHT QUANDO CRIOU A RECEPTA?

Sim. Era 2006. Eu entendia que esse movimento era uma forma de sinalizar para os meus companheiros de conselho que também buscassem alternativas. Seria uma maneira de nos realizarmos, de nos ocuparmos.

E DE TER UMA APOSENTADORIA ATIVA, NÃO?

Exatamente. A Recepta é um negócio inovador. É a única que faz pesquisas na fase 2 [com humanos]. Nós focamos em duas vertentes: as drogas para atacar diretamente os tumores e os imunomoduladores, que tem a ver com você destravar o sistema imunológico. A Bristol tem uma droga assim, para melanoma. E cobra US$ 28 mil a ampola. A nossa molécula vai ser muito mais barata.

QUAL É O SEU PAPEL NA RECEPTA?

Exercer esse lado empresarial. A ideia de utilizar a capacidade instalada, de não fazer um laboratório próprio, vem das nossas experiências na Odebrecht. É a filosofia de buscar a melhor solução, que aprendi com papai e procuro aplicar em tudo.

O QUE É EXATAMENTE ESSA FILOSOFIA?

Nós só temos o indispensável, ou seja, aqueles equipamentos que não estão disponíveis no mercado. Com isso a gente fica o mais livre possível para buscar a melhor solução do ponto de vista de custo, qualidade e prazo. Não estamos amarrados a nenhum equipamento, nenhuma tecnologia. Isso é fundamental.

O QUE O BRASIL OFERECE PARA QUE ESSE TIPO DE PESQUISA SOBRE O CÂNCER SEJA FEITO AQUI?

A demanda por tratamento de câncer é muito grande. E o conhecimento pequeno. Quando nos dispusemos a fazer algo inovador tivemos apoio do Ministério da Saúde, do Ministério de Ciência e Tecnologia, do CNPQ. Não havia um passado para servir de modelo, tudo foi sendo construído. Quando eu comecei a criação de pacas foi a mesma coisa… Vocês estão rindo, é? Mas é a mesma coisa. Não existia literatura sobre o assunto.

VOCÊ TEM CRIAÇÃO DE PACAS?

Há 14 anos. Até transplante do aparelho reprodutivo da porca para a paca, da paca para a porca já foi feito … É que a paca tem duas parições por ano e cada parição dá no máximo um filhote.

POR QUE VOCÊ SE METEU NA CRIAÇÃO DE PACAS?

Eu cacei muito quando era criança.

FOI PARA PAGAR OS PECADOS?

Para pagar os pecados. E por reconhecer que é a melhor carne de caça que existe. Vendemos para restaurantes e casas especializadas.

ONDE É A CRIAÇÃO?

Na Bahia. São mais de mil pacas, 600 matrizes. Os outros produtores, somados, não chegam na gente.

DÁ LUCRO?

Que nada. Hoje eu troco dinheiro.

E A RECEPTA?

Ainda não. O objetivo não é fabricar medicamentos. Vamos produzir a droga e licenciar um laboratório para que ele desenvolva. Trabalhamos com a probabilidade de ter uma ou duas drogas num período entre daqui a seis meses e 2018.

O QUE VOCÊ APRENDEU NA RECEPTA?

A ter paciência. Eu, como brasileiro e empresário, sempre quis tudo para ontem. Nesse ramo, não pode ser assim.

E COMO FOI SAIR DE UM RAMO EM QUE TUDO É PARA ONTEM PARA OUTRO QUE MIRA 2018?

Não saí. Estou nos dois. Então eu descarrego nos dois (risos). Eu precisava de outra atividade. Saí da função executiva com 56 anos. A maioria dos meus colegas por aí também. O objetivo era ‘destamponar’ para a nova geração assumir.

FOI QUANDO O MARCELO VIROU PRESIDENTE?

Não, primeiro foi o Pedro Novis. Ele ficou sete anos na presidência para servir de formação final do Marcelo. E evitar essa relação de pai e filho na empresa, que é rica, mas é desgastante. Era a melhor opção para o sucessor e o sucedido.

QUANDO VOCÊ ASSUMIU A PRESIDÊNCIA EXECUTIVA TAMBÉM FOI ASSIM?

Não. Na gestão de meu pai eu sempre fiquei com ele, direto. Aí o pau quebrava.

A ODEBRECHT É CONHECIDA POR DAR GRANDES DESAFIOS A QUEM ENTRA NA EMPRESA. DE ONDE VEM ESSA PRÁTICA?

Da época de meu avô, Emílio. Damos as condições, mas cobramos resultados.

TEM UM MONTE DE EMÍLIOS NO CLÃ …

De três em três gerações. Tem o primeiro Emílio, o pioneiro no Brasil. Aí veio o neto, que é meu avô. E eu.

VOCÊ JÁ TEM UM NETO EMÌLIO?

Tenho 14 netos, mas nenhum Emílio. Graças a Deus.

GRAÇAS A DEUS POR QUÊ?

É um ônus. Não pense que é fácil carregar esse nome.

NA BAHIA, VOCÊS SÃO ENDEUSADOS. MAS FORA DA BAHIA EXISTE UMA VISÃO UM POUCO DESCONFIADA DA EMPRESA …

Olhe, eu dividiria a nossa organização em três fases. A primeira é a fase de Bahia, que continua forte. É difícil alguém não conhecer a organização por lá. A outra foi a da personificação da figura do empreiteiro, da imagem da obra pública. Essa já passou, até porque diversificamos nossas atividades (dias depois da entrevista, a Odebrecht foi acusada de superfaturamento em uma obra da Petrobras. A empresa nega irregularidades). E tem a fase do Corinthians. Isso criou uma imagem fantástica para a Odebrecht. Foi a única obra em que não tivemos greve, não tivemos problemas. Quando ocorreram aqueles protestos (em que ameaçaram parar as obras do Itaquerão), os corintianos fizeram dois cinturões de proteção. É este o nível dogmático dessa torcida. [Dias depois da entrevista, um acidente no Itaquerão matou dois operários.]

COMO VOCÊ DIVIDE O SEU TEMPO, ENTRE PACAS, RECEPTA, CONSELHO, FAMÌLIA …?

Olha, tudo isso tem a ver com valores, cultura e gente. Minha preocupação é eleger as pessoas, transferir, fazer substituições …Gosto de ver o processo evolutivo, saber quem se destaca na equipe, quem são os potenciais sucessores. É a minha maior tarefa. Também tenho me dedicado à reflexão sobre o que será a Odebrecht em uma ou duas gerações.

E COMO SERÁ?

A expectativa de vida vai subir. Hoje, uma pessoa de 70 anos está em plena capacidade. E isso vai bulir com o país e com as empresas de forma muito profunda. Como vai ser? Confesso que eu não tenho muita clareza. Mas é algo com que todos devemos nos preocupar.