Notícia

Correio da Paraíba

Entre a vaca louca e o Alzheimer

Publicado em 06 maio 2012

A bioquímica paulista Vilma Regina Martins passou os últimos 15 anos investigando o papel desempenhado no organismo pela proteína príon celular, a versão saudável da proteí­na causadora do mal da vaca louca. Em parceria com equipes do Rio de Janeiro, de Minas e do Rio Grande do Sul, ela verificou que o príon celular ou PrPc, proteína encontrada na superfície da maioria das células do corpo, em maior quantidade nas células do sistema nervoso central e do sistema imunológico, é fundamental para o desenvolvimento e amadurecimento adequado dos neurônios e para o equilíbrio do sistema de defesa.

Agora, Vilma e seus colabo­radores propõem que interferir no funcionamento da PrPc pode ajudar a bloquear o desenvolvimento de ou­tras enfermidades do sistema nervoso central, como o mal de Alzheimer, a doença neurodegenerativa mais comum entre os idosos e o glioblastoma, o rumor cerebral mais agressivo que se conhece.

Experimentos feitos pelo grupo com células cerebrais isoladas e também animais indicam que alterar a quantidade de uma proteína que se conecta à PrPr e a ativa impede a morte de neurônios mesmo na presença dos compostos tóxicos produzidos nos estágios iniciais do Alzheimer. Um fragmento dessa outra proteína – a stress – a stress inducible protein-1, sintetizada pioneiramente por Vilma e pelo oncologista Ricardo Brentanin, em 1997 – também vem se mostrando eficiente nos testes invitro para frear a reprodução dos astrócitos, as células cerebrais que se multiplicam descontroladamente no glioblatoma.

Vilma apresentou esses resul­tados no primeiro dia do Brazil-Canadá Prion Science Workshop 2012, realizado no Hospital AC, Camargo, em São Paulo. O evento reuniu os principais pesquisadores brasileiros e canadenses que investigam as funções da proteína príon celular e os mecanismos que levam a se transformar no príon infeccioso, versão defeituosa e tóxica da proteína, responsável pela morte da vaca louca.

Além de mostrar os avanços mais recentes nessa moa. o encontro, financiado pela FAPESP e por agencias canadenses , tem o objetivo de aproximar as equipes de dois países e estimular programas de cooperação. “Existe uma grande possibilidade de a colaboração nessa área trazer progresso científico”, disse Abina Dann, cônsul geral do Canadá em São Paulo, que recordou o empenho de Bentamini para a realização do workshop e o inicio da colaboração entre o Brasil e o Canadá. Quando morreu, em novembro do ano passado, Ricardo Brentamini era diretor da Fundação Antonio Prudente, que mantém o Hospital A.C. Camargo, e diretor-presidente do Conselho Tecnico-Administrativo da FAPESP.

“O Brasil deve entrar na brain circulation”, disse o bioquímico Her­nan Chaimovich, coordenador dos Centros de Pesquisa Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP e assessor da diretoria cientifica da mesma fundação, em referencia ao movimento circular de treinamento de especialistas no exterior e sua incorporação nos quadros nacionais, em oposição ao fenômeno da fuga de cérebros (brain drain) comum no passado. “Esperamos que seja uma experiência informativa e transformadora”, comentou o neurologista Neil Cashman, diretor da PrioNet, rede canadense que reúne 16 centros de excelência em pesquisa de doenças causadas por príons em animais e seres humanos.

Também participaram do evento, representantes do Alberta Prion Research Institutem centro de pesquisa criado pelo governo da província de Alberta após a identificação em 2003 do primeiro caso autócne de doença da vaca louca no Canadá, tecnicamente conhecida como encefalopatia espongigforme bovina.

Sinalização e conexão de atividade celular

De acordo com Neil Cashman, professor da Universidade de Brtish Columbia (Canadá), o papel do príon na sinalização celular e a conexão da atividade celular semelhante à do príon com as doenças neurogenerativas são, atualmente os dois focos da pesquisa mundial na área.

Cashman, que é diretor científico da PrioNet Candá, rede de excelência na área de príons, estima que a concentração das pesquisas nessas duas vertentes, que tem aumentado nos últimos dez anos, poderá levar a morte celular causada pelo príon, gerando abordagens terapêuticas inovadoras e o desenvolvimento de novas drogas.

 

São Paulo (Revista Fapesp)