Em 8 de junho de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a suspensão temporária da vacina contra a dengue do Instituto Butantan.
A medida seguiu o protocolo esperado: diante de 42 casos de eventos adversos graves entre mais de 500 mil vacinados, cerca de 0,008% do total, o sistema de farmacovigilância funcionou como deveria. Do ponto de vista técnico, a decisão foi adequada.
O desafio não está na decisão em si. Está no que acontece depois dela.
Para profissionais de saúde pública, suspender temporariamente uma vacina enquanto eventos adversos são investigados significa que os mecanismos de monitoramento estão funcionando e que a segurança da população permanece como prioridade. Para grande parte da população, entretanto, a mensagem pode ser outra, muito mais simples e definitiva: a vacina não é segura. Essa interpretação, uma vez estabelecida, é extremamente difícil de reverter.
O Brasil já vivenciou situações em que a percepção pública sobre a segurança das vacinas influenciou diretamente a adesão da população. Durante a pandemia de Covid-19, relatos de eventos adversos raros receberam ampla repercussão, contribuindo para o aumento da hesitação vacinal e para a redução da adesão às doses de reforço, apesar das evidências robustas demonstrando que os benefícios da vacinação superavam amplamente os riscos.
De forma semelhante, episódios de reações psicogênicas coletivas após a vacinação contra o HPV geraram preocupação entre pais e adolescentes e estiveram associados à queda das coberturas vacinais em diferentes localidades do país, mesmo sem evidências de relação causal com o imunizante. Essas experiências demonstram que a confiança pública em vacinas pode ser afetada não apenas pelos eventos em si, mas pela forma como são comunicados e compreendidos pela sociedade.
Após enfrentar a maior epidemia de dengue de sua história recente e depois de décadas de expectativa pelo desenvolvimento de novas estratégias de prevenção, a vacinação representa uma importante ferramenta adicional para o controle da doença. Os sinais de segurança identificados merecem investigação rigorosa. Entretanto, enquanto o nexo causal permanece em avaliação, é fundamental que a comunicação pública reflita adequadamente o estágio de conhecimento disponível.
Não se trata de minimizar riscos ou retardar investigações. Pelo contrário. Transparência é essencial. Mas existe uma diferença importante entre comunicar que a vacinação foi suspensa temporariamente para investigação de eventos raros ainda sem causalidade estabelecida e permitir que a narrativa pública se consolide em torno da ideia de que a vacina comprovadamente causa mortes.
Uma comunicação de risco eficaz deve explicar o processo investigativo em andamento, incluindo PCR viral, revisão de prontuários, análise de comorbidades, estudos laboratoriais e avaliação do contexto epidemiológico, reforçando que são exatamente esses mecanismos que garantem a segurança dos programas de imunização. Mais que tudo, deve comunicar com clareza aquilo que permanece conhecido, aquilo que ainda está sendo investigado e quais serão os próximos passos para a tomada de decisão baseada em evidências.
Comunicar riscos não significa eliminá-los ou ignorar incertezas. Significa colocá-los em perspectiva para que a população possa compreender adequadamente os benefícios e riscos envolvidos e tomar decisões informadas. A confiança construída ao longo de décadas pode ser abalada rapidamente quando a comunicação não consegue traduzir a complexidade técnica para uma linguagem acessível e contextualizada.
O sistema brasileiro de farmacovigilância demonstrou sua capacidade de identificar e investigar sinais de segurança. Agora, é igualmente importante que a comunicação de risco cumpra seu papel. Mesmo que as investigações concluam pela ausência de associação causal, os impactos sobre a confiança pública podem persistir por muito tempo. Recuperar a credibilidade perdida é um processo lento e difícil.
Em saúde pública, decisões precisam proteger vidas no presente. Mas também precisam preservar a confiança nas ferramentas que salvarão vidas no futuro. No caso da dengue, precaução e credibilidade não podem ser vistas como objetivos concorrentes. Precisam caminhar juntas.
Andrea von Zuben é epidemiologista, pesquisadora, e coordenadora de estudo sobre fatores associados à letalidade por dengue para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Foi diretora do Departamento de Vigilância em Saúde de Campinas entre 2017 e 2024.