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Boletim do Acadêmico

Entraves para a pesquisa de remédios

Publicado em 19 julho 2007

O Brasil ostenta o título de maior biodiversidade do planeta, com cerca de 15% a 20% do número total de espécies — hoje estimado entre 10 e 100 milhões. Em todo o mundo, entretanto, apenas 1,7 milhões de espécies estão descritas, o que mostra que os cientistas das mais diversas nacionalidades ainda têm uma vastidão de organismos a descobrir e estudar. Muitos podem pensar que, se nosso país guarda a maior riqueza, estaria em vantagem nessa corrida. Mas ocorre o contrário. O pesquisador brasileiro precisa ultrapassar obstáculos que nada têm a ver com os dias em claro no laboratório à procura de dados. Os entraves mais complicados dependem da política, da ofertas de incentivo fiscal, de créditos a juros baixos, da utilização do poder de compra.
Enfim, da burocracia.

Essa foi a tônica da discussão Biodiversidade e Desenvolvimento de novos fármacos, realizada durante a 59ª Reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorreu até o dia 13 de julho em Belém. A principal queixa dos palestrantes — o Acadêmico Sérgio Ferreira, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, e o pesquisador Ílio Montanari, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — é que os estudiosos precisam se dedicar tanto ao trabalho científico quanto às questões administrativas e burocráticas para garantir financiamento do CNPq, da Fapesp ou da instituição onde trabalha, além de sofrerem pressão para publicar. "Isso faz do pesquisador quase como um burro de cargas", criticou Ferreira.

Apesar de os problemas serem muitos, o professor da USP garante que existem soluções plausíveis. Para que seja possível comprar equipamentos caros e de primeira linha, ele sugere a criação de laboratórios multidisciplinares mantidos por técnicos de alta qualidade. Assim, deixa de ser necessário que cada pesquisador troque seu trabalho pelas negociações para conseguir aparelhagem. Essa prática já é adotada por países como a China e Índia.


Cautela nas parcerias

Já no caso de financiamento, Ferreira vê com cautela a associação entre universidades e indústrias. "Isso mostra a ineficiência do Estado em garantir recursos para o desenvolvimento tecnológico. Além disso, a pesquisa em parceria exige o segredo industrial, que impossibilita a troca de informações entre pesquisadores e estudantes. O segredo é maléfico", defende. Em países desenvolvidos, acrescenta Ferreira, pouco mais de 10% do conhecimento é produzido dessa forma.

Antes de começar a pesquisa, o professor sugere que o pesquisador faça o ensaio biológico relacionado a alguma doença importante, pois isso facilita definir um alvo. "Só descobrimos algo quando tudo está muito bem definido, o acidente de percurso ocorre apenas se o pesquisador souber muito bem o que quer".

Outro aspecto importante levantado pelo pesquisador é a prática do conhecimento produzido por em equipe. Isso pode acontecer, por exemplo, por meio da parceria de grupos locais a grupos nacionais. E mesmo dentro de uma mesma instituição, o trabalho conjunto é essencial, segundo o pesquisador Ílio Montanari, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisa da Unicamp. Engenheiro agrônomo, ele trabalha na domesticação de plantas selvagens, isto é, na seleção da planta que sai de seu habitat natural para ser cultivada ou manejada e pode ser usada na produção de fármacos.

Na Unicamp, Montanari é responsável por um banco de germoplasma (a base genética de uma espécie) que já conta com cerca de 500 espécies. Ele reconhece que, em seu local de trabalho, muita coisa precisa mudar para as pesquisas realmente serem feitas em equipe. "No nosso caso, o centro é pluridisciplinar, mas cada um trabalha separadamente. Não deveria ser assim, não há organização. As competências não trabalham juntas. Um agrônomo tem que conversar com um farmacologista e entender o que ele está falando", afirmou.

(Fonte: UnB Agência, 11/07)