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Entenda como funciona um laboratório que diagnostica a covid

Publicado em 07 maio 2020

Por Heytor Campezzi

Laboratório de Botucatu fecha o mês de abril com cerca de 1.200 diagnósticos da doença

O Laboratório de Biologia Molecular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HC-FMB-Unesp) tem demonstrado desempenho expressivo frente à demanda estadual de diagnósticos de covid-19, doença respiratória provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e fechou o mês de abril com 1.194 testes realizados na unidade, de acordo com a pesquisadora Rejane Maria Tommasini Grotto, professora da Unesp em Botucatu e responsável pela execução dos exames no local.

Os cerca de 1.200 testes foram feitos desde a data do credenciamento da unidade na plataforma de laboratórios para diagnóstico do coronavírus, em 2 de abril, até o último dia 30. Tal plataforma foi inaugurada pela Secretaria de Estado da Saúde para agilizar os exames e facilitar a distribuição de insumos e kits de testes pelo território paulista. Entre outras ações, a medida habilitou laboratórios a processarem amostras sem que elas tivessem que passar por contraprova no Instituto Adolfo Lutz (IAL), principal centro de análise laboratorial de São Paulo.

Até este momento, outras 41 instalações integram a rede, a exemplo do Laboratório de Imunologia Clínica e Biologia Molecular do Departamento de Análises Clínicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara.

Força-tarefa

Em Botucatu, o Laboratório de Biologia Molecular sob coordenação das professoras Rejane Grotto e Maria Inês Pardini é conhecido por processar exames de alta complexidade sobre informações genéticas para o HC-FMB, vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Nele, os pesquisadores recorrentemente se debruçam sobre o diagnóstico e o monitoramento de infecções virais, em especial daquelas associadas a HIV, HBV e HCV –isso porque a instalação também participa da Rede Nacional de Laboratórios para Qualificação da Carga Viral tanto do HIV quanto das Hepatites B e C. Nas últimas semanas, em função da pandemia, a unidade tem direcionado parte de suas atividades à disponibilização de diagnósticos de covid-19.

Atualmente, trabalham com os exames do novo coronavírus no laboratório quatro doutores, dois mestres, uma biomédica, um auxiliar de laboratório e dois oficiais administrativos. Esses profissionais fazem parte do grupo de pesquisa Virologia e Imunologia Molecular, que também é liderado pela professora Rejane, está cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e desenvolve estudos com a finalidade de fornecer respostas laboratoriais imediatas à população.

Antes da pandemia de covid-19, a mesma equipe já havia atuado em outra emergência de saúde pública, realizando diagnósticos do vírus zika (ZIKV) enquanto integrante da Rede Estadual Zika Vírus. A estrutura física concedida ao laboratório por projetos de pesquisa fomentados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Ministério da Saúde foi essencial para que, recentemente, o grupo recebesse a habilitação da Plataforma de Laboratórios para Diagnóstico do coronavírus.

“O credenciamento só foi possível porque tínhamos equipamentos disponíveis, rotinas já implementadas para outros vírus e, dessa forma, regulamentação das autoridades de saúde para realização de diagnósticos no complexo do HC-FMB”, diz Rejane Grotto.

Trabalho cauteloso

A manipulação de microrganismos patogênicos é uma atividade que requer várias medidas de segurança. Para trabalhar com material genético de agentes virais, a exemplo do SARS-CoV-2, que apresenta uma taxa de transmissibilidade elevada, a instalação precisa ser classificada ao menos no Nível de Biossegurança 2 (NB-2), como é o caso do Laboratório de Biologia Molecular de Botucatu. Essa nomenclatura diz respeito ao grau de contenção do local e varia, em escala de 1 a 4, de acordo com o risco do material manuseado, como estabelece a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Na prática, o NB-2 exige que a unidade disponha, por exemplo, de pia para higienização das mãos, de estrutura apropriada para descontaminação de resíduos e de cabine de segurança biológica (CSB), material utilizado para evitar a propagação de aerossóis e borrifos infecciosos. Também é necessário que os profissionais responsáveis pelo processamento de amostras usem equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados, como protetores faciais, aventais e luvas.

Segundo Rejane Grotto, concomitantemente, esses especialistas precisam apresentar aptidão considerável em práticas diagnósticas. “A manipulação do novo coronavírus só deve ser realizada em laboratórios de contenção adequada e por profissionais com experiência em Virologia Molecular Diagnóstica”, enfatiza. “Além disso, vale destacar que o contexto da Virologia Diagnóstica é muito distante da pesquisa. Então, é de extrema importância que os profissionais tenham experiência na área de diagnóstico”, diz.

Por trás do diagnóstico

O exame realizado pelo laboratório do HC-FMB é chamado de Reação em Cadeia da Polimerase em tempo real (RT-qPCR, sigla em inglês de Real-Time Polymerase Chain Reaction), preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o teste mais assertivo para diagnóstico de covid-19. Nele, verifica-se a presença do vírus no organismo por meio da análise de secreções do trato respiratório, sejam do nariz ou da garganta, locais em que o agente infeccioso se espalha.

De acordo com o Instituto Butantan, o procedimento é feito a partir da técnica de amplificação de material genético. Funciona assim: inicialmente, a amostra de secreção coletada é conservada em um líquido com reagentes. Depois, o ácido nucleico do vírus, o RNA, é extraído e isolado dessa mistura. Isso é feito porque, mais tarde, esse RNA é utilizado para criar uma molécula de DNA complementar, de estrutura maior que a primeira. Por fim, replica-se o DNA milhões de vezes, momento em que o equipamento do laboratório analisa as cópias produzidas em busca de genes virais.

O método de amplificação começou a se tornar recorrente em práticas de biologia molecular em meados da década de 1990, quando pesquisadores passaram a utilizá-lo para detectar vírus como os próprios HBV, causador da Hepatite B; HCV, da Hepatite C; e HIV, da Aids (do inglês, Acquired Immune Deficiency Syndrome).

No laboratório, as etapas desse processo de diagnóstico são distribuídas entre os profissionais do grupo. “Alguns trabalham no recebimento e na separação de amostras, que é a fase de maior risco biológico. Outros atuam no isolamento do RNA do vírus e ainda há aqueles que realizam a RT-qPCR. Essa divisão otimiza o trabalho e usa melhor a expertise de cada integrante da equipe”, descreve Rejane Grotto. Atualmente, a unidade tem capacidade estrutural para processar cerca de 300 amostras por dia.

por Heytor Campezzi é estudante do quinto período do curso de Jornalismo da Unesp, no câmpus de Bauru; sob supervisão de Fabio Mazzitelli, da ACI Unesp