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Agora São Paulo

Ensino via mouse

Publicado em 31 janeiro 2010

Falta de tempo, facilidade de acesso, flexibilidade. Essas são algumas das razões que têm levado milhares de brasileiros a trocarem os bancos escolares pelo ensino a distância. Os números provam isso: a quantidade de alunos não presenciais ou semipresenciais cresceu 247% entre 2004 e 2008 —passando de 310 mil para 1,07 milhão, segundo dados da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância). Os dados não incluem cursos livres.

A demanda é tanta que instituições como USP, Unicamp e Unesp se uniram para dar forma à Universidade Virtual do Estado de São Paulo, que começou a funcionar no final do ano passado e oferece cursos gratuitos à população (veja quadro nas págs. 12 e 13).

Para Carlos Eduardo Bielschowsky, secretário de Educação a Distância do Ministério da Educação, o tempo favorece esse crescimento: "A educação a distância chega a lugares em que a educação presencial não alcança". Além disso, diz ele, é um modo de estudar que respeita o processo cognitivo do estudante, possibilitando mais autonomia.

O secretário ressalta ainda que o ensino a distância pode ser tão eficaz quanto o método presencial. "Os resultados do Enade [Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes] comprovam isso ano a ano." Segundo Bielschowsky, a modalidade é utilizada com sucesso em outros países, e há um consenso de que o nível de aprendizagem entre as modalidades presencial e não presencial é equivalente. "Há estudos que indicam que os dois tipos se equiparam. Um curso é bom se houver compromisso com a qualidade. Educação não é um serviço, é um bem público", acrescenta Carlos Vogt, secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo.

Ainda assim, é importante que os cursos tenham uma parcela de aulas presenciais, tanto para controlar os alunos (em provas e avaliações) quanto para orientá-los. Essa medida é necessária para equilibrar o ensino. "As aulas presenciais servem sobretudo para orientar os estudantes em relação ao uso das ferramentas de tecnologia [no processo de aprendizagem]", fala Vogt.

Disciplina

Para quem acha que é mais fácil estudar longe das salas de aulas, não é bem assim. Segundo os estudiosos, aprender a distância requer mais disciplina e organização. "Muitas pessoas acham que é uma compra de diploma, mas não é nada disso. As aulas presenciais são programadas e não há espaço para conversa fiada ou enrolação. Se o aluno não tiver disciplina nem administrar bem seu tempo, não consegue dar conta de todas as atividades", diz Ricardo Holz, presidente da ABE-EAD (Associação Brasileira dos Estudantes de Educação a Distância).

Por isso, instituições idôneas controlam a frequência de seus estudantes. "Se o aluno fica dois dias sem entrar no sistema, ligamos para ele. Acompanhamos de perto o processo, e isso faz com que tenhamos índices de evasão similares aos dos cursos presenciais", exemplifica Stavros Xanthopoylos, diretor-executivo dos cursos on-line da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Para assegurar que os cursos a distância tenham qualidade, a Secretaria de Educação a Distância do MEC está fechando o cerco. De acordo com Bielschowsky, com o aumento do rigor na fiscalização dos cursos a distância nos últimos três anos, foram fechados cerca de 3.000 polos de apoio presencial devido a falhas na qualidade.

Preconceito

Apesar das crescentes demanda e oferta, o método enfrenta a desconfiança do mercado de trabalho. Pessoas que fazem cursos não presenciais encontram rejeição ao buscarem emprego, embora o diploma obtido a distância tenha a mesma validade legal que o de um curso tradicional.

"O preconceito se dá pelo desconhecimento da metodologia. Hoje, a maior dificuldade é conseguir trabalho em micros e pequenas empresas. Em grandes companhias, o preconceito já melhorou muito porque muitas delas utilizam a educação a distância para treinar seus funcionários", conta Holz.

Para o secretário da Educação a Distância do MEC, o fim do preconceito é questão de tempo. "Essa situação está diminuindo no Brasil e tende a cair ainda mais conforme o método vai ganhando credibilidade. No exterior, por exemplo, a EAD já se sedimentou. Em alguns países, pessoas formadas a distância têm até preferência no mercado de trabalho porque são mais autônomas", finaliza Bielschowsky.

Para saber mais

vwww.mec.gov.br/seed

www.siead.mec.gov.br

www.abed.org.br

www.estudantesead.org.br

Maior acesso ao ensino no Estado

Quando ainda presidia a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o poeta e linguista Carlos Vogt idealizou um programa de ensino para tornar mais acessíveis renomadas instituições públicas. Nascia assim a ideia da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), criada em outubro de 2008 e em funcionamento desde o segundo semestre do ano passado.

"Não se trata de uma nova universidade, mas de um programa que funciona por meio de um consórcio, com o objetivo de expandir a educação superior de boa qualidade no Estado. O intuito é levar a universidade até o estudante e vice-versa, estendendo o alcance dessas grandes instituições", explica Vogt, secretário de Ensino Superior do Estado.

O programa começou a funcionar no último trimestre de 2009 com cursos básicos de inglês e espanhol para alunos do Centro Paula Souza. Agora, dará início ao seu primeiro curso de graduação que oferecerá licenciatura em pedagogia para professores em exercício e será ministrado pela Unesp em 1o de março.

Estudante de logística e transporte no Centro Paula Souza, Paula Nunes, 29 anos, comemora a oportunidade de estudar inglês e espanhol a distância. "Há tutores, e as turmas conseguem se comunicar entre si. Há também um sistema em que você grava o que está falando e que possibilita a comparação da sua pronúncia com a do personagem. É genial", diz ela, que optou pela EAD devido a timidez de aprender outro idioma em público.

Há ofertas também para cursos livres

Para quem está em busca de aprimorar o conhecimento de maneira alternativa, não faltam opções de cursos técnicos, livres e profissionalizantes na web.

Com a procura crescendo a cada dia, aumenta a demanda: há desde oficinas de panificação até cursos de corte e costura. Aprender um novo idioma pelo computador também está mais fácil e acessível, u-ma vez que escolas tradicionais, como o Instituto Cervantes e o Goethe-lnstitut, já disponibilizam cursos on-line.

Diante de tantas possibilidades, é importante ficar atento. Afinal, muitos cursos não precisam ser autorizados nem credenciados pelo governo.

"As pessoas não podem se deixar enganar por um site bonito. Assim como em cursos presenciais, há muito caloteiro. Você paga e não recebe nada do outro lado", alerta Marta Maia, membro do conselho científico da Abed. Segundo a professora, o que determina a necessidade de um curso ser ou não credenciado pelo MEC é o número de horas que ele oferece, ou seja, acima de 360 horas — como cursos técnicos e de graduação. Embora exista uma gama enorme de opções, os interessados precisam pesquisar a respeito da instituição, antes de escolher em qual curso se matricularão. "Informando-se em sites como o do MEC ou o da Abed", sugere Marta. Com cerca de dez cursos on-line na bagagem, a veterinária Caroline Fontolan Garcia, 28 anos, opta pelos que lhe dão um certificado impresso. "Anexo ao meu currículo. Como pretendo fazer residência, isso conta", explica.