Notícia

Jornal da USP

Ensino ganha espaço e qualidade

Publicado em 23 julho 2000

A pesquisa no Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP carecia ser mais competitiva. Agora, já é possível prever seu avanço, a partir da reforma que ampliou o espaço a ela destinado e retomou um sonho antigo: o de manter próximos docentes e pesquisadores da pós-graduação. Em cerca de 1.600 metros quadrados de área, distribuem-se laboratórios de 150 metros quadrados, em média, abrigando nove Unidades Padrão de Pesquisa (UPPs). Cada unidade recebe dois pesquisadores. O entusiasmo do professor Jackson Bittencourt, daquele departamento, tem razão de ser. Pela primeira vez ocorrem transformações significativas na estrutura de pesquisa do Departamento de Anatomia desde a fundação da Faculdade de Medicina, em 1912. "O Departamento de Anatomia nunca teve prédio próprio. Com local adequado temos a chance de atrair jovens pesquisadores", informa Bittencourt. Até há bem pouco tempo, quando os pós-doutorados voltavam de cursos concluídos no exterior não tinham onde desenvolver o que haviam aprendido. Os quatro laboratórios disponíveis no instituto eram tímidos demais para isso: os de Radioatividade e de Microscopia eram dois deles. Os de Cultura de Células e Extração de Ácido Nucléico estão sendo implantados. Os novos laboratórios deram ânimo aos pesquisadores docentes. "Temos cacife científico para propor o desenvolvimento de maior número de projetos de pesquisa apoiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Podemos apresentar uma vitrine para atraí-los", diz o professor. Ele prevê crescimento, também através do aumento da massa crítica que levará à competitividade no exterior. Uma de suas queixas e que a necessidade de massa crítica é golpeada pela demora na importação de materiais e equipamentos. Ainda assim, o pesquisador que está em São Paulo goza dos benefícios oferecidos pela Fapesp, financiadora que sobrevive com 1,5% da arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). "O restante do País tem enormes dificuldades", lembra o professor. Como se sente o pesquisador da USP sem ter praticamente ninguém que o critique? "Precisamos de maior número de pessoas competentes para discutir e desenvolver idéias." Bittencourt dá como exemplo a neuroanatomia, sua área de pesquisa, que estuda a expressão de hormônios e neuropeptídeos - substâncias existentes nos neurônios, tornando-os capazes de se comunicar entre si. "Estudamos a forma como estão organizados dentro do sistema nervoso central", explica. A USP, segundo ele, é competitiva no exterior e está formando aqui equipe capaz de sê-lo em neuroanatomia humana, ciência estudada há muitos anos e que hoje exige respostas oriundas do conhecimento das células. "Com o Projeto Genoma conseguimos descobrir a composição do gene da praga do amarelinho", lembra, acrescentando: "Temos capacidade intelectual e, agora, estrutura física para crescer e competir". Para ele, a massa crítica depende de infra-estrutura em constante movimento. O processo não pode ser interrompido pela demora na captação de verbas ou na chegada de equipamentos. Por enquanto, o professor mostra-se satisfeito com o resultado obtido e não descarta a possibilidade de ampliação. Segundo ele, o futuro da pesquisa se apóia em três pilares fundamentais, sem os quais não sobreviverá: cultura, educação e saúde. "Não acredito que possamos vislumbrar futuro melhor se essas áreas não forem contempladas", alerta. ANATOMIA DO SÉCULO 20 Neste século tudo deverá ser diferente e melhor do que foi no passado para o Departamento de Anatomia do ICB. Nova fase se inaugura, reunindo docentes e alunos de pós-graduação em torno da pesquisa num único espaço. É uma forma de retomar o período de 1914 a 1936, quando pesquisa e aulas eram mantidas no mesmo local, no melhor estilo europeu. Quem comandava o Departamento de Anatomia, nessa época, era o professor Alfonso Bovero. O "pai da anatomia", professor Renato Lochi, substitui Bovero entre 1937 e 1955, mantendo o mesmo modelo. Duas linhas de pesquisa se instalam no departamento entre 1956 e 1973: vasos linfáticos e eletromiografia. A reforma universitária de 1968 implantou no ano seguinte o Curso Experimental de Medicina e o Instituto de Biociências. O curso de Anatomia, na Cidade Universitária, passou a ser ministrado no Bloco 3, próximo da Escola de Comunicações e Artes (ECA). Ali começou a funcionar o primeiro laboratório de pesquisa em microscopia eletrônica do Departamento de Anatomia, em 1978. O curso experimental foi absorvido pelo tradicional, mas o Departamento de Anatomia continuou dividido. Em 1978, eram dois os laboratórios de pesquisa na área médica: um na Faculdade de Medicina e outro no Bloco 30, desativado nove anos mais tarde. Em 1987, o Laboratório de Microscopia que funcionava no Bloco 30 transferiu-se para o ICB III. Agora, eram três os locais que abrigavam o ensino e a pesquisa em anatomia: Faculdade de Medicina, Bloco I (área odontológica do Departamento de Anatomia do ICB) e o prédio do ICB III. Em 1992, devido a aposentadorias e transferências, docentes se dirigem do Bloco I para o III. Desativa-se o Bloco I. A divisão física do Departamento de Anatomia - entre a Faculdade de Medicina e o ICB-III - permanece até 1994, quando alguns docentes que permaneciam ainda na Faculdade de Medicina se transferem para o ICB III. O Bloco I - totalmente reformado - passou a ser unidade didática do departamento. Ali foi possível ministrar aulas para alunos da graduação e alocar, finalmente, todos os docentes no ICB III. Faltava apenas espaço adequado à pesquisa. A conclusão da reforma nos laboratórios permitiu abrigar técnicos e orientandos de pós numa única Unidade Padrão de Pesquisa (UPP). Falta ainda abrigar no mesmo espaço os graduandos. São nove UPPs com salas de serviços gerais, salas individuais para os pesquisadores, salas de microscopia e amplo espaço para laboratórios. Com apoio da Fapesp, diretoria do ICB e Pró-Reitoria de Pesquisa foi possível, pela primeira vez na história do Departamento de Anatomia, implantar estrutura física e laboratorial capaz de dar condições aos pesquisadores próximas do ideal. "Infelizmente, ainda não encontramos situação ideal para o pessoal da graduação, que se desloca cerca de um quilômetro do ICB até os Blocos I e III próximos à Eca, para implementar suas pesquisas", informa o professor Bittencourt que, certamente, não está longe de encontrar o ambiente ideal: ter todos sob o mesmo teto.