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Engenheiros dizem que avanços em combustíveis verdes dependem de investimento do governo

Publicado em 04 julho 2012

No Brasil há diversas tecnologias já desenvolvidas que poderiam ajudar o mercado de produção de combustíveis limpos a crescer, porém a falta de investimentos e informações dificulta o avanço nessa área. É o que discutiu o 4º Colloquium SAE BRASIL de Engenharia Verde na Mobilidade, realizado dias 26 e 27 de junho, em Piracicaba, SP.

Promovido pela Seção São Carlos/Piracicaba da SAE, o colloquium ocorreu dois dias após a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio +20, o que reforçou as discussões sobre o tema.

Segundo Marcos Jank, chairman do colloquium e ex-presidente da Única, o Brasil tem uma boa trajetória de desenvolvimento de tecnologias em prol do álcool e do meio ambiente. “Esse encontro mostrou e falou sobre tudo o que já possuímos, o que está sendo desenvolvido e a viabilidade dessas novidades entrarem no mercado”, comentou.

O subsecretário de Energia do Estado de São Paulo, Marco Antônio Mroz, mostrou todos os benefícios do programa de inspeção veicular, que começou em 2007 na capital paulista. “Reduzimos as emissões de gases em 57%, e na saúde foram economizados R$ 39 milhões”, disse.

Rubens Maciel Filho, professor titular da Faculdade de Engenharia Química da UNICAMP e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), afirmou que São Paulo é referência mundial em fontes renováveis, por isso é preciso desenvolver processos verdes economicamente compatíveis, a exemplo dos fósseis. “O maior desafio é ter uma cultura de aceitação universal. É necessário aceitar que precisamos buscar energias renováveis”, frisou Maciel Filho.

Fernando Landgraf, diretor de Inovação do IPT, apresentou a possibilidade de extrair biodiesel do bagaço da cana por meio da gaseificação ou queima. Segundo o especialista, de 2005 a 2010 o consumo de etanol cresceu 5% ao ano. “Se continuarmos assim até 2020 precisaremos de 140 novas usinas para suprir a necessidade do mercado. Será preciso muito investimento, por isso precisamos encontrar novos meios de obter combustíveis limpos”, comentou.

O pesquisador da Embrapa Instrumentação, Paulo Cruvinel, falou sobre a importância do planejamento estratégico para uso inteligente de energia. Mostrou que a construção de modelo que possa olhar as perspectivas do setor da engenharia verde é um atalho aberto a oportunidades de negócios. Para o especialista, é necessário avaliar o todo, ver a economia dentro de uma nova visão. “O desafio é buscar, nas ações conjuntas com processos de articulação, modelos de gestão com metas de formas organizadas a fim de pensar em soluções em longo prazo”, afirmou.

Segundo Cruvinel, o setor de agronegócio é muito grande no Brasil e é o responsável pela geração de 37% dos empregos no País. “Ele não é mais um setor somente de alimentos, mas de fibras e energia, é muito grande e importante para o nosso mercado”, comentou.

O consultor técnico de pesquisa e desenvolvimento da Mahle Metal Leve, Eduardo Tomanik, comentou sobre a produção de etanol no País e disse que alguns países crescem e desenvolvem o seu mercado e o Brasil precisa se atentar mais a isso. “Não estamos dando atenção correta a esse problema, corremos o risco de, em breve, começarmos a importar tecnologias para a produção do etanol, precisamos desenvolver mais pesquisas”, observou.

Segundo Tomanik é possível desenvolver motores que emitam menos poluentes com soluções mais simples e mais baratas do que os carros elétricos. Acredita que os motores puramente elétricos não serão mais do que 5% nos próximos anos, e que os motores de combustão interna queimando biocombustíveis têm mais vantagens e vão crescer. “Eles têm menos emissão de CO2 do que um puramente elétrico”, afirmou.

Paulo Seleghim Jr., professor titular do Departamento de Mecânica da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, falou sobre a problemática das tecnologias associadas às diferentes fontes renováveis de energia. “O Brasil saiu na frente de outros países quando investiu na geração de energia por meio da água e da extração do etanol”, comentou. Seleghim Jr. mostrou o quanto o País ainda precisa investir para não ser ameaçado por nações que investem na geração de energia limpa, como os EUA, e disse que se não fizer mais investimentos não será capaz de absorver o nosso próprio crescimento.

O diretor do Instituto Tecnológico da PUC/RJ, Sergio Braga, abordou em sua palestra, a substituição do diesel pelo álcool ao mostrar alguns estudos em que o combustível fóssil foi substituído por outras versões ‘verdes’. Chegou à conclusão que a troca do diesel pelo álcool traz vantagens de potência e desvantagens em durabilidade. “Não existe o melhor motor ou o melhor combustível, mas um par perfeito entre motor e combustível”, comentou.

Braga acrescentou que os veículos híbridos oferecem boas performances nas cidades, pois rendem melhor em baixas velocidades, já que em rodovias há mais atrito aerodinâmico. “Mesmo esses motores apresentando algumas vantagens, o motor a combustão não vai nunca deixar de existir, isso é fato”, disse.

Antônio Aprigio da S. Curvelo, professor titular do Instituto de Química de São Carlos (USP), afirmou que o setor canavieiro deveria considerar eventuais alterações no processo utilizado hoje para a extração do álcool da cana-de-açúcar. O professor falou sobre o álcool de primeira e segunda geração e o que poderia ser modificado para que o País não sofra com a falta do produto. “O Brasil saiu na frente de muitos outros na extração do etanol de primeira geração, mas no de segunda o desenvolvimento ainda está em estágio muito acadêmico. Precisamos avançar na pesquisa para continuarmos competitivos”, declarou.

Com o tema “A cana-de-açúcar uma opção na produção de energia verde na mobilidade”, Marco A. S. Vieira, professor do Departamento de Biotecnologia Produção Vegetal e Animal da UFScar, ressaltou que o etanol é uma opção segura de energia sustentável. “A cana é uma matéria prima muito boa para ser explorada como fonte de energia e de combustível para a indústria da mobilidade”, afirmou o palestrante.

O professor afirmou que a matriz energética brasileira não é muito diferente da mundial e que atualmente o Brasil conta com quatro programas de melhoramento genético da cana, que são bem atuantes é referência mundial na produção dessa matéria prima. “A cana-de-açúcar gera muitas oportunidades para o nosso País essa espécie se adaptou muito bem ao nosso solo e clima favorecendo um grande potencial de produção. O mundo corre atrás da alta demanda, porém precisamos melhorar e progredir mais”, diz.

O diretor de tecnologia e bioenergia da Raízen, João Abreu, disse que no longo prazo o mercado de etanol crescerá bastante, e que no futuro a matriz de combustível será muito mais do que somente o etanol e o biodiesel. Segundo ele o etanol extraído da cana tem emissão muito menor do que o de milho e o mercado brasileiro produz uma variação maior de álcool do que o americano.

Para o diretor do colloquium, Newton Curi, esse encontro gerou uma grande rede de relacionamento, já que proporcionou interação entre os palestrantes. “Conseguimos incitar e difundir conhecimento. Unimos a academia, o governo, os fabricantes, os produtores da matriz energética e os consumidores, e isso foi muito positivo. Quem participou desse colloquium pôde conhecer o que o mercado tem e terá a oferecer nos próximos anos”, finaliza Curi.