Notícia

Jornal da Unesp

Engenharia genética constrói futuro da Medicina

Publicado em 01 maio 2000

Demonstrar a importância das técnicas de Biologia Molecular, também conhecida como engenharia genética, nas diversas especialidades médicas, discutir a patente de genes descobertos por meio do Projeto Genoma Humano e as novidades em terapias gênicas. Com esses objetivos principais, a Sociedade Brasileira de Genética (SBG) e a Faculdade de Medicina da UNESP do câmpus de Botucatu (FM) organizaram o 1° Simpósio de Biologia Molecular na área médica, que aconteceu entre os dias 6 e 8 do mês passado, no auditório da FM. Participaram do encontro pesquisadores da UNESP. USP, Universidade Federal de Uberlândia. Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer e Hospital do Câncer A. C. Camargo. Além desses objetivos, o simpósio teve como meta divulgar novos métodos que vêm sendo utilizados para diagnóstico precoce, prognóstico e prevenção de doenças. A proclamação do evento foi dirigida a especialistas de diferentes áreas clínicas, abrangendo as principais técnicas de biologia molecular aplicadas ao diagnóstico de doenças, tais como hipertensão, doenças coronarianas, neoplasias, doenças infecciosas e outras geneticamente determinadas. "Foi um evento ímpar", diagnosticou o hematologista Paulo Eduardo de Abreu Machado, diretor da FM. "O fato de ele ter sido realizado aqui não é só um privilégio, mas uma demonstração de maturidade científica e tecnológica, nossa e da UNESP." O encontro foi aberto com a palestra Por que entender biologia molecular?, proferida pela médica Lúcia Martelli, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP) e tesoureira da SBG, na qual ela fez uma apresentação dos temas selecionados para o simpósio, demonstrando a importância das técnicas de Biologia Molecular nas diversas especialidades médicas. "Procurei enfatizar em especial a quantidade de informações sobre Genética em Medicina, veiculadas em jornais e pela Internet, tornando obrigatória a atualização do profissional da área de saúde", explicou. MEDULA ÓSSEA Entre os pesquisadores da UNESP que apresentaram trabalhos no evento, esteve a médica Maria Inês de Moura Campos Pardini, do Hemocentro e do Departamento de Clínica Médica da FM. Na conferência Transplante de medula óssea alogênico, ela relatou os resultados obtidos pela sua equipe, que trabalha em conjunto com profissionais do Hospital do Câncer Doutor Amaral Carvalho, da cidade de Jaú. "Já realizamos 28 transplantes de medula óssea alogênicos, isto é, entre pessoas diferentes", explicou. "Os resultados têm sido excelentes, no mesmo nível dos que são realizados nos países desenvolvidos. Isso é muito importante para essa região do Interior, onde este tipo de serviço não existia." Maria Inês explicou que usa a engenharia genética para fazer o diagnóstico da doença, avaliar a Doença Residual Mínima (a doença que pode ainda restar mesmo após o tratamento, seja ele quimioterápico, radioterápico ou mesmo o transplante) e para monitorar a "pega" do transplante, ou seja, para ter certeza que a medula doada foi implantada no paciente que a recebeu, e se a medula doente do paciente foi realmente eliminada. "São técnicas muito parecidas com as que se usam para determinação de paternidade, pois permitem criar uma verdadeira 'impressão digital' do DNA do doador e do receptor", explicou a médica da UNESP. A apresentação Uso de terapia gênica no controle de doenças infecciosas, do imunologista Celso Lopes Silva, da FMRP, foi outra que chamou a atenção. Silva discorreu sobre os avanços na tecnologia de desenvolvimento de vacinas, que criaram novas maneiras de se administrar e apresentar os antígenos (microorganismos que causam doenças) para as células do sistema imunológico. "Isso abriu caminho para o desenvolvimento de vacinas mais seguras, eficazes e polivalentes", explicou. "Entre estas, estão as vacinas gênicas ou de DNA, consideradas de terceira geração." Silva explicou que a vacina de DNA. que está revolucionando o campo, é baseada num pedaço do código genético do agente causador da doença. "Aplicado por meio de injeção intramuscular, esse DNA cria condições para a produção da proteína antigênica pelas próprias células do indivíduo vacinado", disse. "Essa vacina é hoje a maior esperança para o combate a doenças infecciosas que matam milhões de pessoas no mundo todo e para as quais ainda não se tem prevenção segura, como herpes, aids, malária, hepatite, esquistossomose, dengue e tuberculose." QUESTÕES ÉTICAS O encontro também abordou as questões éticas envolvidas com as novidades trazidas para a medicina pela engenharia genética. Essa questão ficou a cargo do médico da FM Willian Saad Hossne, que coordena a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde. Hossne fez um histórico da Ética, como filosofia, passou pela ética médica e concluiu dizendo que a Biologia Molecular, por ser uma ciência recente, propõe nova* questões. Ele revelou que existem cerca de 300 comitês espalhados pelo País discutindo aspectos éticos da engenharia genética, como pesquisas com humanos, clonagens e patente-amento de genes. "E importante discutir antes o que se vai fazer com os conhecimentos gerados pela Biologia Molecular", disse. "É isso que estamos fazendo nesses comitês." No balanço geral do evento, ficou evidente a importância da Biologia Molecular para a medicina. "'Daqui para a frente, o médico que não conhecer genética não saberá interpretar exames de laboratório, nem conduzir tratamentos adequados", disse o oncogeneticista José Cláudio Casali Rocha, do Hospital do Câncer A. C. Camargo, que proferiu a palestra Diagnóstico molecular e aconselhamento genético em câncer de mama. "A genética está em todas as especialidades. Minha própria especialidade é a junção de outras duas. Sou oncologista e geneticista, daí oncogeneticista." Para Rocha, a Biologia Molecular permite ao médico chegar à essência da doença, à sua causa primeira. "Com isso, teremos uma Medicina mais preventiva", acrescentou. "Poderemos tratar as doenças antes que elas se manifestem." Para a bióloga Sílvia Regina Rogatto, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da UNESP, câmpus de Botucatu, co-organizadora do simpósio, o evento atingiu plenamente seus objetivos. "Nós realizamos este encontro a pedido de médicos da região, que queriam se atualizar na área de Biologia Molecular", explicou. "E isso nós conseguimos fazer. Trouxemos um pouco do que há de mais avançado, no País, em termos de Biologia Molecular, como o emprego de técnicas moleculares para realizar diagnóstico preciso e precoce de diversas doenças humanas, terapia gênica e avanços do Projeto Genoma Humano. Foi um evento de sucesso."