Notícia

Planeta Sustentável

Energias Renováveis e Segurança Hídrica

Publicado em 08 abril 2011

Por Marina Franco

Uma conferência que reúne especialistas sobre o tema das mudanças globais, e que pretende formular um documento que auxilie na revisão do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, de 2008, não poderia deixar de discutir o atual sistema de energia estabelecido pelo mercado mundial e, também, a segurança hídrica necessária para o abastecimento de hidrelétricas, que, no caso do Brasil, é a principal fonte de eletricidade da população. Foram esses os dois temas principais debatidos ontem durante a IV Conferência Regional de Mudanças Globais, realizado pelo IEA/USP - Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, em parceria com a ABC - Academia Brasileira de Ciências, o PBMC - Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, a Rede Clima e o INCT da Criosfera, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Entre os diversos especialistas, houve consenso de que é preciso acelerar a transformação da matriz energética brasileira e mundial, de modo que explore mais de fontes renováveis de energia, como o sol e o vento, que são naturalmente oferecidas pelo ambiente e não emitem GEE - Gases do Efeito Estufa, os principais causadores do aquecimento global.

O físico José Goldemberg, do IEE - Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP- Universidade de São Paulo, falou sobre os problemas do sistema energético, como a exaustão das reservas de combustíveis fósseis, a (in)segurança do abastecimento e os impactos ambientais que eles geram. "As poluições local e regional poderiam ser filtradas de algum jeito, com regulações de secretarias estaduais. Mas o problema do aquecimento global precisa acabar pela fonte, a emissão de gás carbônico", defendeu Goldemberg. Para ele, a maior questão a ser debatida no futuro são as emissões de gases a partir do transporte. "Ser dono de um automóvel é uma tendência mundial inquietante. No futuro estima-se que um terço dos motores dos carros seja híbrido, outro terço elétrico e o restante utilize biocombustíveis", disse.

O especialista apontou três soluções para amenizar esses problemas:

- o uso mais eficiente de energia;

- o aumento da contribuição das fontes renováveis de energia e

- o desenvolvimento acelerado de novas tecnologias e sua adoção pelos países em desenvolvimento.

"Neste último ponto temos uma vantagem como país em desenvolvimento, o fenômeno leapgrogging, que quer dizer que podemos pular diretamente para a vanguarda. Não precisamos seguir os passos de outros países", explicou. Goldemberg disse que ainda há um grande potencial para ser explorado de energias renováveis. A diferença entre o potencial teórico e o que está sendo usado é muito grande. Além disso, uma das maiores vantagens - financeiras - para se investir em energias renováveis é que o maior gasto vem da instalação. Depois, à medida que a escala de produção aumenta, seus preços caem.

O físico ainda destacou produção de energia a partir de placas fotovoltaicas. "A maioria das tecnologias tem peças móveis, que dependem de eventos terceiros para se movimentar. Os reatores nucleares dependem da circulação da água, as turbinas eólicas do vento. A captura de energia do Sol não tem nada móvel, mas ainda é uma tecnologia cara", afirmou. Para combater os altos preços que requerem as fontes renováveis, é preciso fazer um grande esforço para o desenvolvimento de tecnologias, como defende Goldemberg. Ele ainda destacou o papel do Brasil no cenário mundial. "Temos um grande papel por causa do etanol. E quando a produção de biocombustíveis de segunda geração atingir escala mundial, ainda teremos uma vantagem competitiva, por causa do bagaço de cana".

As fontes vindas da cana-de-açúcar foi tema da apresentação do biólogo Marcos Silveira Buckeridge, do Instito de Bio-botânica da USP e do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol. "Quando o petróleo estava sendo descoberto, o Brasil já tinha suas primeiras bombas de produção de etanol para servir carros. Apenas com a crise do petróleo o país se moveu rapidamente e criou o Pró-Alcool", afirmou o biólogo, se referindo ao programa do governo de incentivo ao uso de etanol na década de 1970. "Hoje temos que pensar em projetar o futuro em pontos que aparentemente não são importantes de se investir, como a produção de álcool a partir do bagaço da cana", defendeu. Ele explicou que assim como a sacarose da planta, o bagaço e a palha são boas matérias-primas para a produção de energia. "No Brasil, não só os carros são flex. A indústria de energia também é flexível e, só assim, será possível manter um sistema com bom nível de sustentabilidade", disse.

Também é possível melhorar a eficiência da cana-de-açúcar, interferindo no modo como a planta lida com nutrientes, para aumentar a sua produção. "A produção da cana hoje é 80 toneladas por hectare. Sabemos que em alguns casos ela chega a 300 t/ha. Nossa meta é que a média chegue a 120 t/ha", disse o pesquisador. Para ele, também é necessário aprimorar o uso da terra e considerar as florestas nas produções de cana. Ele defende a criação de corredores de florestas em canavial, que aumentariam a biodiversidade local e a capacidade de absorção de gás carbônico da atmosfera. "Inclusive, um selo de etanol ambientalmente correto seria um diferencial para o Brasil no mercado internacional".

Ildo Luis Sauer, professor do IEE da USP, aponta que o maior problema para a proliferação de fontes renováveis de energia é a lógica intrínseca ao atual sistema energético mundial. "A apropriação social da energia e do trabalho permite a acumulação capitalista", disse. "Recursos naturais para a produção de energia não faltam. A questão é a trajetória que seguimos até agora e duas formas foram muito marcantes: o uso de combustíveis líquidos e a produção industrial através de eletricidade". Portanto, para Ildo Sauer, a alteração da matriz energética tem que lidar com a estrutura social e de trabalho do mundo. "Precisávamos formular um Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e orçar, entre outros pontos, quanto é necessário para a transição energética", concluiu.

Suzana Kahn Ribeiro, secretária de Economia Verde do Estado do Rio de Janeiro, falou sobre os desafios do Brasil para reduzir as emissões de GEE. Ela disse que, apesar de o perfil brasileiro de emissões estar muito atrelado ao desmatamento, a tendência é que ele diminua e o setor de energia, a partir da indústria e dos transportes, continue consumindo combustíveis fósseis. "O Brasil tem oportunidade em duas frentes: na emissão negativa, com o reflorestamento, e na baixa intensidade de emissão. Neste ponto entra a construção de uma matriz energética mais limpa", afirmou.

Ela ressaltou que o aumento do consumo de energia não implica, necessariamente, em aumento das emissões. "A China, apesar de ter crescido bastante, diminuiu seu índice de energia por PIB, assim como intensidade de carbono por PIB", disse. "Nós, como país que está montando a sua infra-estrutura, temos uma oportunidade enorme de não investir em tecnologias obsoletas e preferir as mais eficientes". A secretária citou exemplos de ações do estado do Rio na área, como a taxa cobrada para investimentos em combustível fóssil, que é direcionada para fontes renováveis, e a exigência de energia solar para o aquecimento de obras públicas.

Também participou da Conferência o assessor da diretoria de Exploração e Produção da diretoria da Petrobras, Álvaro Maia da Costa. Ele apresentou o programa de captura e armanezamento de carbono da empresa. "Na Bacia de Santos estamos injetando carbono de volta na terra, para aumentar a produção de óleo. Também é possível injetá-lo em aqüíferos salinos, que são camadas porosas mais profundas", explicou. Há ainda um projeto para criar espécies de bolsões dentro da camada de sal para abrigar o gás. "O governo americano armazena há alguns anos quase um milhão de barris em cavernas de sal".

SEGURANÇA HÍDRICA

Para o setor hídrico, as mudanças climáticas apresentam um risco na medida em que a variabilidade do clima afeta a intensidade das chuvas, vazões dos rios e períodos de cheia ou seca. Trata-se de uma insegurança para as usinas hidrelétricas, que são as que mais provem energia para o país. "Na região do Pantanal, por exemplo, a mudança de três metros nos níveis de cheia anual do rio Paraguai alterou as áreas inundadas de 17 mil km2 para 50 mil km2 entre as décadas de 1960 e 1970", explicou o professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Carlos Eduardo Tucci. Para ele, alguns dos mecanismos de mitigação dos efeitos climáticos sobre os rios são sistemas de previsão de chuvas a curto e longo prazo e de avaliação de riscos, para a tomada de medidas preventivas.

Outro ponto importante, segundo Roberto Shaeffer, do Instituto de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é a transmissão de energia a todas as regiões do Brasil. "Como o Norte e Nordeste são mais vulneráveis é importante que o sistema de distribuição de energia cresça. O cenário de mudanças climáticas se tornará muito mais crítico e talvez as hidroelétricas não deem conta", alertou.

"É mais fácil transferir energia do que transferir água", concordou o superintendente de usos múltiplos e eventos climáticos da Agência Nacional de Águas, Joaquim Gondim Filho. "O problema do sistema hidroelétrico brasileiro é que dependemos muito de onde, quando e quanto chove", afirmou. Por outro lado, as cidades também sofrem com o despreparo para eventos climáticos extremos, como as chuvas intensas. "O problema começou com o desmatamento das bacias, a mudança do uso do solo, expansão das áreas urbanas e diminuição das áreas de filtração", disse. Ele apresentou o dado de que 12.752 cidades brasileiras decretaram estado de calamidade pública entre 2003 e 2010, sendo que 3.559 foram por causa de inundações.

Diante do cenário de infra-estrutura insuficiente para o controle de eventos climáticos extremos, o professor titular da Faculdade de Educação da USP, Pedro Roberto Jacobi, defende uma governança social da água, em que as instituições interessadas dialogue com sociedade. "Precisa ser uma gestão compartilhada e democrática, que fortaleça a lógica de força social", defendeu. "Não significa chegar a um consenso sempre. Trata-se de um conceito de participação que vem do aprendizado de práticas sociais para que se conheça a resposta coletiva. Assim, a governança hídrica pode passar da insegurança para a segurança e da vulnerabilidade para as práticas sustentáveis", disse.