Notícia

Cruzeiro do Sul online

Energia eólica, tendências e resíduos

Publicado em 29 junho 2010

Por: Patrícia Carla Guerrero, Carim Miguel Toubia e Sandro Donnini Mancini

As mudanças do clima têm sido tema central das discussões entre os países na última década. A intervenção humana atingiu tal ponto que parte da comunidade cientifica tem classificado os efeitos dessas mudanças como irreversíveis. As emissões de gás carbônico, geradas principalmente a partir da queima de combustíveis fósseis para obtenção de energia, aceleram o aquecimento global e colocam em risco o futuro do planeta.

Como forma de reverter esse quadro, formas mais limpas e renováveis de geração de energia vem ganhando espaço. Dentre essas formas, verifica-se que a energia eólica encontra-se em expansão e que nos próximos anos sofrerá um aumento ainda mais considerável.

Mundialmente a eólica é a forma de energia que mais cresce a cada ano, sendo estimado que no Brasil o potencial eólico-elétrico seja da ordem de 143.000 MW, 36% maior que todo o potencial elétrico já instalado no país, somando-se hidrelétricas, termelétricas etc. Apesar de todo esse potencial, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), em novembro de 2008 o Brasil possuía capacidade instalada de pouco mais de 273 MW (0,2% do possível). Essa subutilização do potencial eólico está relacionada ao fato do país ter um vasto sistema hídrico, o que torna essa opção, a princípio, menos onerosa. Outro fator que contribui para esse cenário é falta de regulação e regras claras que permitissem que investidores pudessem quantificar os riscos do investimento nesse novo mercado. No entanto, o país começa a entrar numa nova fase com a realização do 1º Leilão de Energia Eólica em dezembro de 2009. Nesse evento, foram comercializados mais de 1.800 MW com contratos de 20 anos, fato que foi comemorado na cidade de Sorocaba, pois aqui estão as sedes das grandes fabricantes, no Brasil, de peças e equipamentos para usinas eólicas.

A energia eólica é baseada no aproveitamento da força de massas de ar em movimento (ventos) e, para captar a energia cinética dos ventos e transformá-la em eletricidade, é necessário um equipamento relativamente complexo: o aerogerador. Composto de uma torre de aço ou concreto e geralmente três pás, o aerogerador se assemelha a um enorme "cata-vento". A indústria comercializa equipamentos de vários tamanhos nos quais as torres podem chegar a mais de 100 metros de altura com pás de até 60 metros. Como se acopla ao eixo do "cata-vento" um gerador elétrico, obtém-se eletricidade de uma forma limpa, sem geração de gases que contribuirão com o aumento do aquecimento global.

Já as pás eólicas são formadas por uma mistura de materiais, geralmente um polímero termofixo (como a resina epóxi) reforçado com fibra (normalmente de vidro). Materiais semelhantes formam produtos conhecidos pelo consumidor como sendo de "fibra de vidro", como piscinas, banheiras, assentos de ônibus e metrô, caixas d"água, etc.

Com o conseqüente aumento da utilização de energia eólica, tem-se que a indústria de peças e equipamentos para geração deste tipo de energia vive a fase de maior crescimento da história. Porém, associado ao crescimento da indústria eólica observa-se também um aumento da quantidade de resíduos gerados, tanto na fabricação das pás como no descarte de pás velhas após o final de sua vida útil.

Calcula-se que a vida útil de uma pá eólica seja de 20 anos e que em 2020 serão geradas aproximadamente 50 mil toneladas anuais de pás usadas em todo o mundo e que esse número só tende a subir, para atingir, em 2034, cerca de 200 mil toneladas anuais. Como as pás usadas representam um problema volumoso, pesado e caro, será natural que os donos de usinas queiram transferir a solução do mesmo para os fabricantes, e nesse sentido, já se espera legislações internacionais que obriguem o fabricante de pás a dar destino adequado às pás trocadas.

Uma alternativa para esses resíduos industriais seria a reciclagem convencional, porém, devido à complexidade do material do qual as pás eólicas são constituídas, esse tipo de reciclagem torna-se técnica e economicamente inviável. Em busca de alternativas, está sendo testada na Unesp-Sorocaba a pirólise à vácuo, que consiste na separação dos materiais (resina e fibra) a partir do aumento de temperatura sem presença de oxigênio. A idéia é transformar o material polimérico num óleo útil e recuperar a fibra presente.

Patrícia Carla Guerrero é aluna de graduação em Engenharia Ambiental da Unesp-Sorocaba e bolsista de Iniciação Científica da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo); Carim Miguel Toubia é aluno de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais da Unesp e funcionário da Tecsis - Tecnologia e Sistemas Avançados Ltda. e Sandro Donnini Mancini é professor da Unesp-Sorocaba.