Notícia

Jornal da USP

Encontro de gigantes

Publicado em 03 novembro 2015

Por Antonio Carlos Quinto

Um grupo de cientistas que inclui pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP acaba de descobrir um sistema considerado “super-raro”, composto de duas estrelas ligadas pela força gravitacional, com massas bem superiores à do nosso Sol. Denominado VFTS 352, o sistema foi localizado a aproximadamente 160 mil anos- -luz (cerca de 10 bilhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol), numa galáxia vizinha à Via-Láctea, conhecida como a Grande Nuvem de Magalhães. O artigo acaba de ser publicado no volume 812 do The Astrophysical Journal.

De acordo com o astrônomo Leonardo Almeida, atualmente pós-doutorando do IAG, trata- -se de “um sistema binário em overcontato” e de alta massa. “Cada estrela tem cerca de 29 vezes a massa do Sol”, estima o cientista, explicando que “o termo overcontato indica que as estrelas já estão uma dentro da outra”. Devido a isso, os pesquisadores acreditam que elas irão se fundir, formando uma única estrela com a massa combinada de 58 massas do Sol.

Os resultados são baseados em dados do Very Large Telescope – ESO (Observatório Europeu do Sul) e foram frutos do estágio de Almeida no Space Telescope Science Institute e na Johns Hopkins University, nos Estados Unidos. “Nós temos um projeto aprovado para observar esse objeto com o Telescópio Espacial Hubble. Acreditamos que esses resultados serão extremamente interessantes para o público em geral”, acredita o astrônomo, que é supervisionado em seu pós-doc pelo professor Augusto Damineli, do IAG. Também participaram da descoberta astrônomos que trabalham nos Estados Unidos, Europa e Chile.

Almeida descreve que os cientistas consideram o sistema como “super-raro” porque, na literatura, existem apenas outros três descobertos. “É muito pouco, se considerarmos o número de estrelas conhecidas hoje em dia. VFTS 352 é o mais massivo e o mais quente encontrado até agora, por isso ele é o mais interessante e importante dessa classe”, avalia.

Futuro – Segundo o cientista, o fenômeno da fusão de duas estrelas de alta massa numa fase inicial de sua vida nunca havia sido observado. Nesse cenário, o sistema descoberto deixará uma estrela de altíssima massa e com alta velocidade de rota- ção e terminará sua vida numa das explosões mais energéticas e raras vistas no universo, conhecidas como explosões de raios gama de longa duração, e isso o cientista considera como um “futuro emocionante”. Nessas explosões ocorrem jatos de raios gama direcionados. “Se algum planeta habitado, com características semelhantes à Terra, estiver na direção desses jatos a uma distância de bilhões de anos-luz, podem ocorrer problemas como interrupções de sistemas de telecomunicações e destruição da camada de ozô- nio”, avalia Almeida. No entanto, esse fenômeno só vai ocorrer em milhões de anos e as chances de o jato estar na direção da Terra são muito pequenas.

A observação representa uma grande descoberta para a astrofísica estelar. Isso porque a combinação das medidas feitas para as massas e temperaturas das componentes violam a teoria clássica da evolução estelar. Isso pode indicar um novo caminho evolutivo para as componentes do sistema, que poderá até evitar a fusão na sua fase inicial. Assim, esse objeto constitui a evidência mais concreta de uma teoria super nova para a evolução das estrelas de alta massa. Nesse cenário, o VFTS 352 terminaria sua vida como um sistema duplo de buracos negros de curto período, que é uma fonte intensa de ondas gravitacionais.

Almeida acrescenta que esse tipo de sistema é muito importante para o estudo da morte de estrelas de grande massa, as que produzem os átomos com números de prótons múltiplos de 4 (elementos alfa), entre eles o oxigênio. O grupo tem mostrado que cerca de 70% dos sistemas binários de alta massa interagem fortemente e aproximadamente 24% irão sofrer um processo de fusão ao longo de suas vidas. Além da publicação no The Astrophysical Journal, a descoberta do sistema também foi veiculada no site do Very Large Telescope – ESO e na Revista Fapesp.