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Encapsulamento de fungos pode gerar nova leva de inseticidas biológicos

Publicado em 23 fevereiro 2016

Uma nova geração de inseticidas biológicos para o controle de pragas é ecológica e também vantajosa economicamente para agricultores. O estudo está sendo desenvolvido em uma parceria de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Instituto Biológico de São Paulo, Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) e com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A ideia pode possibilitar uma revolução no setor agroindustrial e reduzir o consumo de agrotóxicos, pois se apresenta como uma nova alternativa no combate as pragas.

O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos desde 2008. De acordo com o Dossiê Abrasco, um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado pelas substâncias. Em 2010, o mercado brasileiro movimentou 7,3 bilhões de dólares e representou 19% do consumo global de pesticidas.

A produção, a comercialização e o uso de pesticidas são regidos pela lei de 1989, regulamentada em 2002. Segundo o coordenador-geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do Ibama, Márcio Freitas, antes de ser comercializado no país, o agrotóxico precisa passar por avaliação. "Isso é feito por três órgãos: pelo Ibama, que avalia a questão ambiental, pela Anvisa, que avalia a questão de toxidade humana, e pelo Mapa, que avalia a eficiência agronômica. Se o agrotóxico, portanto, está sendo comercializado oficialmente no Brasil, ele pode ser considerado seguro, embora todos eles sejam potencialmente perigosos", explicou Freitas em entrevista para a EBC.

Apesar da regulamentação, em qualquer quantidade os produtos químicos contaminam os solos e poluem as águas, além da contaminar outras espécies (saiba mais sobre os impactos dos agrotóxicos aqui). O biopesticida apresenta grandes vantagens para o meio ambiente, pois elimina a necessidade de utilização desses produtos químicos agressivos.

Como funcionam os novos biopesticidas?

Os fungos são transmitidos por meio de esporos presentes no corpo do inseto. Quando encontram condições de temperatura e umidade adequadas, são capazes de germinar e penetrar no interior do organismo e, até mesmo, produzir hifas (filamentos de células que formam o micélio dos fungos). Os biopesticidas são criados com base no conceito de biomimética, que consiste em estudar, aprender e aplicar as estratégias e soluções da natureza para problemas biológicos e ambientais.

A tecnologia aplicada no novo bioinseticida consiste em encapsular conídios de fungos que parasitam e transmitam doenças para insetos, matando-os ou incapacitando-os. E o melhor, o método não transmite nenhuma patologia a nós, seres humanos. De acordo com os pesquisadores, os produtos que estão atualmente no mercado utilizam os fungos in natura, sem o revestimento com polímero, que encapsula os fungos e garante maior resistência.

Vantagens

O encapsulamento com polímero confere maior proteção contra fatores externos, como radiação ultravioleta, temperatura, micro-organismos concorrentes e oxidação, entre outros. Dessa forma, o produto ganha estabilidade com um período de armazenamento superior a um ano em temperatura ambiente, eliminando a necessidade de consumo de energia para resfriar os conídios no armazenamento. A tecnologia melhora a eficiência da aplicação de fungos entomopatogênicos (fungos que parasitam insetos), e aumenta a viabilidade comercial sem comprometer a virulência e o poder de controle.

A responsável pela pesquisa, Inajá Marchizeli Wenzel Rodrigues, se mostrou bastante orgulhosa com o resultado do trabalho: “A formulação possibilitou que o produto fique armazenado sem refrigeração por até 12 meses, e se mostrou patogênica a diversas pragas, como a broca e o bicudo da cana-de-açúcar”.

A próxima etapa é disponibilizar o produto para comercialização. A expectativa dos pesquisadores é que o invento atraia interesse do setor industrial e do agronegócio, em especial dos produtores de inseticidas biológicos e sintéticos.

Fungos também possuem diversas outras funções, além de biopesticidas, podem auxiliar na reabilitação e restauração ecológica, na produção de biocombustíveis,etc. - entenda mais sobre micologia e suas aplicações aqui. Segundo o micologista Paul Stamets, os fungos têm a capacidade de realizar tarefas incríveis, que a maioria das pessoas pode considerar impossível, sem o auxílio da tecnologia. Confira aqui os seis motivos pelos quais o micélio (corpo vegetativo da maioria das espécies de fungos, composto de hifas agrupadas ou emaranhadas) poderia ajudar a salvar o mundo na visão de Stamets.

Fonte: Agência Fapesp