Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Encaixe perfeito

Publicado em 16 janeiro 2006

Por Da reportagem
O 'mouse', aquele acessório hoje indispensável para quem usa computadores, foi criado em 1964 por um pesquisador norte-americano. Mas foi só em 1984, quando do lançamento do 'Apple Macintosh' que ele iniciou efetivamente a sua jornada de sucesso.
Atualmente, milhões e milhões dessas máquinas estão em uso pelo mundo e, com elas, começaram a se intensificar os sintomas de duas doenças, a LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e a Dort (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho).
Essas doenças são antigas, já tendo sido descritas inclusive por Hipócrates, há cerca de 400 anos antes de Cristo. Porém, nas últimas décadas, houve um aumento abrupto no número de casos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, são mais de 800 mil notificações por ano. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, estima-se em mais de 600 mil o número de portadores, o que faz da LER/Dort a segunda causa de afastamento do trabalho, principalmente entre o público feminino.

Solução
No Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), o médico Luiz Cesar Peres foi um dos que sentiram na pele os efeitos do uso contínuo de computadores e mouses.
Dores nas mãos, nos braços e até no pescoço impulsionaram Peres a projetar um novo tipo de mouse. O que começou em 1998, hoje é uma realidade patenteada pela USP/FAPESP e que, em breve, pode estar no mercado, "tendo uma grande aplicação na prevenção de lesões, recuperação e retorno dessas pessoas ao mundo digital", afirma o médico.
Segundo ele, a posição da mão ao segurar uma caneta foi o ponto de partida para o desenvolvimento do novo produto. 
Os primeiros moldes foram feitos com papel machê e massa até atingir a forma final com uma base e uma haste móvel, como um joystick de jogos eletrônicos, com o diâmetro de uma caneta. São dois botões de sinalização que ficam posicionados na haste e são acionados pelo polegar. "Esse dedo é o mais forte e o menos suscetível ao cansaço", explica Peres.
A haste é móvel somente até o usuário ajustar a melhor posição de conforto, depois ela é travada. "Esse detalhe facilita o uso individual tanto para destros como para canhotos".
O desenho da base é irregular e próprio para o encaixe da mão, que fica apoiada de forma lateral e mais adequada, com a parte mais gordinha, a chamada região hipotenar, sobre a mesa.

Testes
As linhas finais do novo mouse foram obtidas com a colaboração do professor Carlos Graeff, do Departamento de Física da USP em Ribeirão Preto. "Ele possui um laboratório onde pudemos elaborar o modelo funcional do novo mouse em relação à parte eletrônica".
A próxima fase é a dos testes clínicos que serão realizados neste ano no setor de neurofisiologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, sob a coordenação do professor Wilson Marques Júnior. Serão 50 pessoas sem problemas físicos que vão executar várias tarefas no computador usando mouses convencionais e o novo, em dias alternados.
O custo final do aparelho, estimado pelos seus criadores, deverá ser igual ou semelhante aos mouses ópticos de mercado, entre R$ 30,00 e R$ 40,00. Eles possuem tecnologia óptica e podem funcionar com ou sem fio.
Peres diz já ter recebido vários contatos de empresas interessadas em comercializar o produto. Por enquanto, porém, nenhuma das consultas resultou em parceria.
"Mas o nosso objetivo não foi comercial. A idéia por trás do novo mouse sempre foi combater a exclusão a que essas pessoas estão sujeitas hoje. Eu senti isso na pele e resolvi buscar uma forma de minimizar o problema", afirma o médico à Agência FAPESP.

A trajetória do ratinho
O mouse que conhecemos hoje foi criado por Douglas Englebart no Instituto de Pesquisa Stanford em meados de 1964. Englebart foi responsável por inúmeros conceitos na computação, como o hypertext e o sistema "windowing" (que vem do Windows). O primeiro mouse do mundo era feito de madeira e era muito popular entre os grupos de pesquisadores isto porque era fácil manuseio e mais preciso do que os trackballs e joysticks que já haviam sido feitos. As canetas óticas e as mesas digitalizadoras sempre foram grandes competidores do mouse, mas nunca venceram porque o mouse é mais popular e mais fácil de se utilizar. Em meados de 1979, Steve Jobs fez uma visita ao Centro de Pesquisa da Xerox e viu muito dos equipamentos experimentais sendo testados, incluindo muitos mouses. Por isso não existiu coincidência quando o primeiro computador popular fabricado em 1984 por Steve Jobs, o 'Apple Macintosh' já vinha com um mouse. Foi então que o mouse começou a se tornar popular. De fato, a Microsoft lançou o primeiro em 1983, mas apenas após o lançamento do Windows ele começou a ser usado em PC's.