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Gazeta Mercantil

Empresas vão à universidade para inovar

Publicado em 25 agosto 2008

Por Anna Lúcia França

A Petrobras inaugurou na semana passada um novo laboratório de pesquisas dentro da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). O projeto, que faz parte de um programa maior criado pela estatal em 2006 com objetivo de incentivar a pesquisa acadêmica e a troca entre universidade e empresa, ilustra bem o movimento das indústrias em busca do conhecimento. Se todo artista tem de ir aonde o povo está, toda a empresa hoje tem de ir aonde a inovação está. E nessa busca pela novidade científica e tecnológica vale quebrar todo o tipo de barreira e ultrapassar os limites dos seus próprios laboratórios.

"Queremos criar um corpo de pesquisa dentro das universidades a longo prazo para que elas consigam manter seus talentos", diz Gabriel Cardoso coordenador do programa de Pesquisa & Desenvolvimento em Otimização e Confiabilidade do Centro de Pesquisas da Petrobras (CENPES). O projeto de Redes Temáticas desenvolvido pela Petrobras possui quatro vertentes: automação, instrumentação, controle e otimização de processos. Todo o recurso utilizado é sustentado pela norma de investimento em P&D, que prevê a obrigatoriedade de aplicação de 1% da receita bruta de cada poço da empresa que produza cerca de 100 mil barris por dia.

Com isso, dentro do investimento deste ano, a previsão é aplicar nas 38 redes temáticas cerca de R$ 400 milhões, variando de acordo com a produção. Na USP, entre os anos de 2006 e 2009 o montante deve chegar a R$ 12 milhões. "Agora que a ANP (Agência Nacional de Petróleo) abriu a possibilidade para investimento também em infra-estrutura, nós ampliamos os recursos para aplicação em aparelhamento e expansão física dos laboratórios", explica.

Assim, cerca de R$ 4 milhões serão aplicados em dois laboratórios da Poli-USP, sendo um Centro de Excelência em Tecnologia de Aplicação de Automação Industrial (Cetai) e outro Laboratório de Analisadores em Linha de Processos (que avalia em tempo real os processos industriais).

Este programa da Petrobras é só uma amostra do que vem sendo feito em todo o País entre empresas e universidades em busca da inovação. As novas tecnologias são consideradas vitais atualmente para a indústria. Desde 2006, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) tem feito esforço para aproveitar todas as oportunidades de pesquisas das universidades unindo aos interesses das empresas.

Para isso, desde 2006 a instituição modificou a fórmula de parceria criada em 1995. Antes o patrocínio era direcionado a um projeto específico e terminava com ele. A partir de 2006 foi criado o programa de convênios, pelo qual se estabelecia uma espécie de bloco de projetos. Segundo o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, os convênios abrem espaço para investimento no "atacado" sobre uma área pré-determinada. "Essa alteração reflete a mudança das próprias empresas, que reconhecem a necessidade de um complemento às suas próprias pesquisas", explica o professor, acrescentando que, com isso, ganham as empresas com o conhecimento acadêmico e ganham as universidades com muito mais recursos para seus estudos.

Novos acordos

Nesta nova base, já foram firmados acordos que somados chegam próximos a R$ 200 milhões. Um deles foi fechado com a petroquímica Braskem, no valor de R$ 50 milhões pelo prazo de cinco anos, cujo objetivo é desenvolver e apoiar projetos de pesquisas científicas e tecnológicas com foco em processo álcool químico para substituição do petróleo por etanol no desenvolvimento de polímeros verdes. De acordo com a Braskem, o objetivo da parceria é incentivar cientistas ligados às melhores universidades e centros de pesquisa a elaborar trabalhos na área de polímeros a partir de matérias-primas renováveis, e de outros intermediários da cadeia produtiva dos biocombustíveis. A parceria em torno desse projeto, segundo informou a companhia, está alinhada com a estratégia de melhoria de competitividade e de criação de valor por inovação.

Outro acordo importante no valor de R$ 100 milhões também por cinco anos foi fechado com a indústria de bens de capital Dedini. Os recursos, divididos meio a meio com a entidade, serão destinados exclusivamente às propostas voltadas para processos industriais para fabricação de biocombustíveis. Em todos os casos, há um procedimento de análise e seleção de projetos, com a divulgação de um edital próprio onde professores da Fapesp ajudam a auferir a viabilidade dos projetos inscritos. Uma vez estabelecido o convênio, é firmado o compromisso que inclui as bases do acordo de propriedade intelectual sobre o que for desenvolvido. "Mas em geral não há obstáculos nesses acordos", explica Cruz.

A aposta em bioenergia é tanta que a Fapesp anunciou em julho o Programa de Bioenergia (Bioen), que apoiará a pesquisa, básica e aplicada sobre biocombustíveis, num valor total de R$ 73 milhões. O programa agrega pesquisas ligadas ao acordo com a Braskem, Dedini e Oxiteno, outra gigante da área química que também está apostando na pesquisa de novas matrizes energéticas.