Notícia

Gazeta Mercantil

Empresas serão integradas na tecnologia da USP

Publicado em 18 fevereiro 1999

Por Eduardo Geraque - de São Paulo
A Universidade de São Paulo está em processo final de seleção para escolher as três primeiras empresas que serão "incubadas" no seu Centro de Biotecnologia. Pela proposta da USP, as empresas escolhidas devem ter como principal característica competência para desenvolver novas tecnologias e as pesquisas serão feitas em conjunto com os próprios pesquisadores do Centro de Biotecnologia. "Nosso grande objetivo é diminuir a mortalidade infantil de bioempreendedores no Brasil", explica Carlos Alberto Moreira-Filho, coordenador do Centro de Biotecnologia. A instituição está ligada ao Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Segundo explica o professor responsável pelas articulações deste centro, a entrada das empresas será a segunda etapa do projeto, que já existe há cinco anos. "Na primeira fase, procuramos detectar em quais linhas de pesquisas, dentro da nossa capacitação, estavam as demandas por tecnologia, além de preparar os recursos humanos para a segunda fase que se inicia agora" disse. Depois do credenciamento de 15 candidatas para começar esta parceria com a USP, o centro deve escolher três para entrar, de forma efetiva, na universidade. "Estamos afunilando, neste início, para três ou quatro candidatas", revela Moreira-Filho, que preferiu não divulgar ainda o nome das principais. "Uma delas atua na área de agribusiness, a segunda está no campo de diagnósticos moleculares e a terceira desenvolve tecnologias aplicadas ao melhoramento genético" explica o professor, que, além de ser coordenador do centro de biotecnologia trabalha como geneticista em suas pesquisas diárias. Apesar da escolha das três empresas, Moreira-Filho confirma que o centro está sempre aberto a novas consultas, já que a permanência destas empresas escolhidas obedecerá a um cronograma, que terá um período de tempo configurado de acordo com cada caso. Além do centro da USP, existem no País outras entidades com o mesmo propósito, mas que atuam em outras linhas de pesquisas. Entre elas, estão a Fundação Biominas, de Minas Gerais, e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Pelo perfil destes primeiros candidatos, o coordenador do centro explica que estas empresas apresentam um faturamento reduzido nesta etapa, mas um potencial empreendedor considerável. "Estes bioempreendedores são muito importantes para o desenvolvimento do processo" afirma Moreira-Filho. Segundo o objetivo do centro, após um período de cinco ou seis anos, estas empresas já devem ter condições de auto-sustentar-se. "Depois de pronto o desenvolvimento tecnológico, as empresas terão que sair da universidade e buscar outros sócios ou um grande parceiro para transformar a sua tecnologia em produto de mercado", explica o professor Moreira-Filho. Para a universidade, além de desenvolver a busca pelo conhecimento, uma das forças motriz de qualquer centro de pesquisa, a introdução desta nova tecnologia no mundo real significará mais recursos para ela, uma vez que para este produto existir haverá a necessidade de uma patente. A outra possibilidade de o centro de pesquisas receber recursos é por intermédio do pagamento de royalties. "A universidade, em alguns casos, pode inclusive preferir continuar parceira desta empresa", explica o professor Moreira-Filho. As verbas utilizadas para o desenvolvimento destas novas biotecnologias não serão provenientes das verbas destinadas à universidade. Como no Brasil não existe ainda linhas de capital de risco, para financiar novas tecnologias, como é comum nos Estados Unidos, o dinheiro empregado no processo será proveniente de projetos aprovados, no caso da USP e da Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. "Nos Estados Unidos o investidor em fundo de capital de risco, por exemplo, consegue um retorno de até 30% ao ano", lembra Moreira-Filho. A Universidade de São Paulo contribuiu com o espaço físico para o Centro de Biotecnologia. Todas as salas que existem no primeiro andar do prédio Biomédicas IV serão utilizadas como incubadoras. "Primeiro organizamos o centro como uma rede interdisciplinar de docentes - ao todo são 32 pesquisadores "seniors" - para depois formatar o prédio", explica Moreira-Filho. Segundo ele, não havia necessidade, como é comum, gastar todo o dinheiro primeiramente na construção do prédio, para depois avaliar a viabilidade ou não do centro. Na primeira fase do projeto, parcerias pontuais e intercâmbios entre universidade e empresa já foram desenvolvidos, sempre nas áreas de microbiologia. "Tivemos algumas parcerias interessantes com a Biobrás, a Vallée e a Copersucar", lembra o coordenador do Centro de Biotecnologia da USP. Segundo o professor da Universidade de São Paulo também vale ressaltar a acentuada importância que o incremento do desenvolvimento tecnológico tem para um País como o Brasil. "Com tecnologias viáveis, as exportações do Brasil também vão receber um grande impulso", lembra Moreira-Filho. Além da nova tecnologia em si, a criação e manutenção de estruturas para que estas tecnologias sejam transformadas em produtos são também objetivos do Centro da USP. "Para o mercado, uma descoberta não passa apenas de uma invenção. Ela será uma inovação quando estiver no mercado".