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Empresas nascidas no ICB-USP atuam em biossegurança, diagnósticos e novas terapias para câncer

Publicado em 13 julho 2021

Por Mari Martins

*No último dia 14 de junho, pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) participaram do SciBiz Conference, um evento de ciência e negócios que reúne pesquisadores, empreendedores e investidores. Líderes das empresas Biosafe, Imunotera e Immunogenic integraram o painel "Geração de empresas nascentes em biomedicina" e contaram como transformaram o conhecimento científico em soluções para a população. A mediação foi do professor Luís Carlos de Souza Ferreira, diretor do Instituto.

A Imunotera é focada no desenvolvimento de terapias inovadoras para câncer, especialmente os causados pelo papilomavírus humano (HPV). Estima-se que 25% a 50% da população feminina e 50% da população masculina mundial já tenham contraído algum tipo de HPV. A maioria das infecções é transitória, assintomática e acaba sendo combatida pelo sistema imune. No entanto, o HPV é a causa de 99,7% dos casos de câncer de colo de útero, principalmente os tipos HPV 16 e 18.

Fundada em 2016 pela farmacêutica Luana Moraes Aps e pelas pesquisadoras Bruna Porchia Ribeiro e Mariana Diniz, a empresa desenvolveu, com apoio do PIPE-FAPESP, uma plataforma de ativação do sistema imunológico que aciona as células dendríticas, gerando linfócitos T que atacam as células infectadas. Um dos produtos é a TERAH-7, uma proteína recombinante que funciona como uma vacina terapêutica para HPV. Além de não ser invasivo como uma cirurgia, o tratamento gera memória imunológica, evitando recidivas da doença.

Hoje, o tratamento está sendo testado em pacientes no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Os resultados ainda são preliminares, mas algumas pacientes apresentaram regressão das lesões e relataram melhora dos sintomas, como dor e sangramento no colo do útero. "A tecnologia possibilita tratar as pacientes que não são alcançadas pelas vacinas preventivas já existentes, por já estarem infectadas e apresentarem lesões pré-neoplásicas [antes do desenvolvimento do câncer]", destaca a pesquisadora. Para os cientistas que desejam empreender, Luana Aps afirma: "Participe de programas de aceleração. Eles te ajudam a enxergar a sua pesquisa como um negócio".

Pedro Durigon é médico veterinário e fez iniciação científica no ICB em 2001, época em que a instituição estava implantando o primeiro Laboratório de Nível de Biossegurança 3 (NB3) do Brasil. "O setor de biossegurança era completamente novo no país e não havia nenhuma empresa brasileira especializada nessas instalações", conta. Foi nesse cenário que surgiu a Biosafe, empresa que oferece consultoria, projeto, construção, manutenção e certificação de laboratórios e biotérios NB3; sistemas de biossegurança em UTIs e centros cirúrgicos; além de treinamentos em biossegurança.

"O ICB teve um papel fundamental nessa trajetória. Ao longo de mais de 16 anos, nós continuamos contando com a expertise dos pesquisadores do Instituto, buscando aprimorar nossos serviços para os usuários dos laboratórios." Hoje, a Biosafe atua em todo o Brasil e conta com uma equipe de 20 pessoas e mais 50 colaboradores. O custo das instalações é de três a cinco vezes menor em comparação com empresas estrangeiras, ajudando a trazer autonomia para o Brasil na área de biossegurança.

A Immunogenic, também apoiada pelo PIPE-FAPESP, surgiu da necessidade de oferecer exames especializados em erros inatos da imunidade, ou imunodeficiências primárias/congênitas. Trata-se de um grupo de mais de 450 doenças genéticas caracterizadas por alterações no funcionamento do sistema imune. "Mundialmente, estima-se que 90% dos pacientes com alguma imunodeficiência primária/congênita têm dificuldade em fechar o diagnóstico", afirma o fundador da empresa, Edgar Borges de Oliveira Junior, biólogo e doutor em imunologia. O diagnóstico precoce dessas doenças é fundamental para que a intervenção seja mais eficaz, evitando complicações e favorecendo o prognóstico e a qualidade de vida da criança, e até mesmo a cura de algumas delas.

A empresa oferece diagnóstico, aconselhamento genético, assessoria aos médicos e orientação às famílias. Os pacientes podem solicitar exames como: Teste da Imunidade do Bebê, que identifica imunodeficiência combinada grave (SCID), Agamaglobulinemia (níveis muito baixos de anticorpos) e algumas síndromes ligadas às imunodeficiências, podendo somar 25 doenças; Imunofenotipagem, exame confirmatório para imunodeficiência combinada grave (SCID), e Agamaglobulinemias congênitas; entre outros exames especializados.

Para o professor Luís Carlos de Souza Ferreira, é fundamental que o Brasil tenha autonomia a partir do desenvolvimento de alternativas nacionais de base tecnológica. "Existe uma demanda para que as instituições, como o ICB e a USP, criem um ambiente mais propício para os indivíduos que desejam empreender. Sou otimista de que esse movimento deve crescer cada vez mais e que nós possamos ter mais empresas nascidas nas universidades, que criem oportunidades de emprego e contribuam para a saúde da população."

*Com informações da assessoria de comunicação do ICB-USP.