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Diário Comercial

Empresas apresentam produtos para evitar a transmissão de doenças por mosquitos

Publicado em 05 dezembro 2019

Por André Julião | Agência FAPESP

O combate a doenças transmitidas por mosquitos (como dengue, febre amarela, zika e chikungunya) mobiliza pesquisadores das universidades e também de empresas. No Brasil e no México, países nos quais essas arboviroses têm incidência elevada, produtos inovadores são desenvolvidos para combater o Aedes aegypti.

Alguns projetos foram apresentados durante um workshop promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo International Development Research Centre (IRDC), instituição mantida pelo governo canadense e que apoia pesquisas em países em desenvolvimento.

“O encontro possibilitou um intercâmbio entre empresas e pesquisadores apoiados pela Fapesp, em São Paulo, e pelo IDRC, no México. Para nós, é de alta prioridade o desenvolvimento de parcerias com fundações e agências na América Latina”, salienta à Agência Fapesp Roberto Bozzano, especialista sênior de programas do IDRC.

As empresas do Estado são apoiadas por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) e desenvolvem tecnologias para lutar contra o mosquito, uma das ações apontadas por especialistas como estratégicas no combate às arboviroses.

Biolarvicida

Rodrigo Perez, presidente da BR3, apresentou o DengueTech, um biolarvicida à base de bactérias (inofensivas para humanos e animais) capazes de combater larvas. A iniciativa contou com apoio da Fapesp e da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), por meio do Programa Pappe/Pipe Subvenção.

O projeto foi desenvolvido em parceria com a Fiocruz e já está disponível no mercado. Trata-se de um composto por uma forma modificada do BTI (sigla para Bacillus thuringiensis, sorotipo israelensis). Os tabletes podem ser aplicados em pratinhos de plantas, caixas d’água e mesmo em água potável, locais que podem funcionar como criadouros do mosquito.

“O produto é altamente seletivo para o Aedes aegypti e, portanto, não afeta abelhas ou outros insetos. A ideia é que ele seja usado tanto em campanhas de saúde pública quanto em residências, pelas famílias, transformando pequenos criadouros em armadilhas contra o mosquito. O controle pode ser feito de forma sustentável e preventiva, ao longo de todo o ano, de modo a suprimir o vetor das doenças”, explica Rodrigo Perez à Agência Fapesp. Vale destacar que um tablete pequeno do DengueTech tem ação de até 60 dias.

Mais tecnologias

Também aplicado nos potenciais criadouros do mosquito, o AMS, tecnologia criada pelo Matlabs, de Sorocaba, forma uma película sobre a água que impede o desenvolvimento do mosquito, sendo eficaz em todas as fases do ciclo de vida. A pesquisa contou com apoio da Fapesp.

O líquido, à base de compostos naturais, é dispensado por um dosador, programado para liberar quantidades suficientes para proteger a água antes de o produto ser degradado.

“Desenvolvemos um inseticida que pode ser usado em sistemas de água potável. O produto não intoxica o inseto, mas causa a morte por uma ação majoritariamente física. Ainda está em fase de experimentos que visam provar a segurança de aplicação. Mas os ativos são biodegradáveis e não contaminam o ambiente”, diz Gedeão Klarosk Perez, fundador da empresa, à Agência Fapesp.

O desenvolvimento de inseticidas alternativos é importante porque a maior parte dos produtos disponíveis no mercado é poluente e pode gerar resistência nos mosquitos. O tema foi abordado por cientistas da empresa Promig, sediada em Engenheiro Coelho, no interior de São Paulo, que desenvolveu uma tecnologia para avaliar o potencial de resistência dos vetores.

A equipe fez um estudo em 130 cidades do Brasil para avaliar como a resistência dos mosquitos variava de um município para o outro. Esse tipo de conhecimento permite escolher o produto mais eficaz para uma determinada região antes de iniciar campanhas de saúde pública, por exemplo.

A pedido do Ministério da Saúde e com apoio, a empresa desenvolveu um teste que mostra a resistência a diferentes produtos disponíveis no mercado e indica o mais adequado para cada cidade pesquisada.

“Coletamos os ovos do mosquito em campo e levamos para o laboratório para testes. Uma molécula chamou nossa atenção por promover uma baixa mortalidade. Curiosamente, ela tem o mesmo mecanismo de ação de um outro produto largamente usado em campanhas de combate ao mosquito no Brasil inteiro”, afirma à Agência Fapesp Guilherme Trivelatto, consultor de manejo de vetores da Promip.

Repelentes, tinta e tela

O desenvolvimento de novos repelentes é explorado por algumas empresas e grupos de pesquisa que participaram do workshop. A Nanomed, da cidade de São Carlos, desenvolveu um sistema de liberação controlada de óleo essencial para ser usado em repelentes de mosquito. O produto aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado.

“É um ativo completamente novo para esse tipo de uso. Por meio de nanotecnologia, ele é liberado aos poucos na pele e protege por mais tempo”, enfatiza à Agência Fapesp Amanda Luizetto dos Santos, sócia-fundadora da empresa, que teve apoio da Fapesp e da Finep por meio do Programa Pappe/Pipe Subvenção.

O encapsulamento de outro óleo essencial, de citronela, é objeto de estudo de um projeto apoiado pela Fapesp e conduzido por Vânia Rodrigues Leite e Silva, professora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (ICAQF-Unifesp), em Diadema.

Já a empresa Chemyunion realiza simulações computacionais para chegar a moléculas com potencial para servirem como princípio ativo de novos repelentes. Após 100 mil compostos candidatos, os pesquisadores chegaram a cinco que deverão ser testados em breve.