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Jornal Brasil

Empresas ainda usam método informal na gestão de portfólio

Publicado em 14 agosto 2014

Por Agência FAPESP

Pouco mais de um terço das indústrias brasileiras investem no desenvolvimento de novos produtos. De acordo com a Pesquisa de Inovação (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de inovação das indústrias brasileiras era de 35,6% em 2011 – abaixo dos 38,1% de 2008.

As indústrias atribuem esse baixo desempenho principalmente aos elevados custos da inovação (81,7% delas) e ainda aos riscos econômicos (71,3%), de acordo com a Pintec 2011.

De fato, os custos e riscos inerentes ao desenvolvimento de novos produtos impactam o retorno sobre o investimento. “O cálculo financeiro, em projetos de produtos, no entanto, deve ser ponderado de forma a contemplar também os efeitos da contribuição de inovações mais ousadas e considerando a competitividade da empresa no longo prazo”, diz Daniel Jugend, professor do Departamento de Engenharia de Produção da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru.

Entre 2012 e 2013, Jugend e Sérgio Luis da Silva, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), consultaram 71 empresas dos setores eletrônico, óptico e de informática, com o intuito de avaliar a maneira pela qual elas tomam decisões sobre quais produtos desenvolver, manter ou retirar do mercado.

A pesquisa foi realizada no âmbito do projeto “Gestão de portfólio de produtos em empresas de base tecnológica de médio e grande porte no Estado de São Paulo: survey e estudos de caso”, apoiado pela FAPESP.

Os resultados demonstraram que em metade das indústrias essa decisão cabe à intuição da alta administração (50%). Nos demais casos, levam-se em conta os aspectos financeiros (15,5%) e a necessidade dos clientes (15,5%). “É baixo o percentual de empresas que utilizam outros métodos formais para tomada de decisões como, por exemplo, o mapa de produtos (7%), modelos de pontuação (2,8%) e de checklists (1,4%) ”, afirmou Jugend.

A etapa de decisão nessa fase de pré-desenvolvimento de produtos é crítica para o bom desempenho dos programas de desenvolvimento de novos produtos e até mesmo para a viabilização da estratégia de negócio. “Afinal, nesses momentos, ainda existe pouco conhecimento do resultado a ser alcançado e se está pensando nas características que um produto deve ter com muita antecipação em relação ao momento em que ele será – ou não – efetivamente lançado”, explica Jugend.

Existem à disposição das empresas diversos métodos de gestão que contribuem para melhorar a tomada de decisão sobre o portfólio de produtos.

Os mais comuns e amplamente disseminados, segundo Jugend, são os métodos financeiros – valor presente líquido (VPL), taxa interna de retorno (TIR), ponto de equilíbrio entre receitas, custos e despesas, payback e opções reais, por exemplo –, que auxiliam na maximização do valor do portfólio.

Igualmente relevantes, em sua opinião, são as ferramentas de marketing, sobretudo a pesquisa de mercado, que, com o envolvimento de representantes de departamentos como Engenharia e P&D, são atividades importantes para que as empresas obtenham informações sobre demandas e necessidades dos clientes e consigam, ao mesmo tempo, monitorar concorrentes e as novidades tecnológicas.

Outros métodos destacados estão associados à tomada de decisão em portfólio de produtos, tais como checklists, diagramas, modelos de pontuação e ranqueamento e mapas.

Os modelos de pontuação e ranqueamento priorizam os projetos de produtos de acordo com a média esperada de desempenho.

Os mapas auxiliam na previsão de desenvolvimento de projetos de produtos no médio e longo prazo e, com isso, permitem que as empresas considerem as possibilidades de inovação incremental e radical ao longo do tempo.

O uso da intuição ou de mecanismos informais em decisões sobre o portfólio de produtos, ao contrário, pode aumentar o risco da inovação. “Isso demonstra que é forte, nos setores pesquisados, a presença de aspectos políticos e subjetivos influenciando as decisões sobre desenvolvimento de novos produtos e de alocação de recursos nos projetos”, sublinha o pesquisador.

O uso exclusivo de métodos financeiros também pode ser uma escolha arriscada, já que a empresa pode não conseguir realizar previsões exatas de demanda ou mensurar o impacto de determinada inovação tecnológica, ele acrescenta. “Melhor aplicá-lo de maneira integrada com os demais métodos para escolher os projetos de novos produtos”, sugere Jugend.

A pesquisa também identificou, entre outros resultados, que a agilidade e a flexibilidade das empresas na tomada de decisão relacionada ao portfólio de produtos são aspectos que possuem forte influência no desempenho do portfólio. “Esse resultado se deve, provavelmente, à atual dinâmica de mercados e tecnologias”, avalia Jugend.

Glossário

Checklist

Definição de uma lista de critérios que guiam a equipe para determinar se há mérito e/ou o valor no projeto em avaliação.

Opções reais

Técnica incorporada ao orçamento de capital que permite enxergar o projeto como uma possibilidade futura e avalia-lo por meio de técnicas utilizadas pelas opções financeiras.

Payback

Período de tempo necessário para a empresa recuperar o seu investimento inicial a partir de entradas de caixa previstas.

Ponto de equilíbrio

Nível de vendas necessárias para cobrir os custos

Mapa de produtos

Permite o planejamento de aspectos como: 1) quais projetos de produtos desenvolver (radicalmente novos, plataformas e derivados, por exemplo) e quais as características gerais de cada um desses projetos; 2) período de tempo para o desenvolvimento de cada um desses projetos de produtos; e 3) necessidade de desenvolvimento de tecnologias. Os mapas devem ser visuais e orientados, sobretudo, para médio e longo prazo. Para o seu desenvolvimento, pode-se aplicar o método technology roadmap.

Modelos de pontuação

Permitem que o conjunto de projetos em análise seja pontuado, ranqueado e priorizado de acordo com sua média esperada de desempenho. A partir de critérios previamente definidos e efetivamente relevantes, uma equipe (se possível multifuncional) atribui notas a cada um desses critérios. O resultado final dessa atividade de pontuação pode auxiliar nas decisões sobre quais projetos serão desenvolvidos e/ou priorizados.

Valor presente líquido e taxa interna de retorno

Métodos de análise de investimentos que possibilitam verificar a viabilidade de projetos, como o de produtos, ou a ordenação de projetos concorrentes em termos de seu retorno.


Fonte: Agência FAPESP