Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Empresa transforma biomassa em energia

Publicado em 14 dezembro 2003

A Bioware, empresa localizada na Incubadora de Base Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tem procurado investidores para colocar no mercado uma nova tecnologia de transformação de biomassa em energia renovável. Mais que isso: por meio do processo pesquisado pela empresa, é possível aproveitar 100% da matéria-prima, transformando não só resíduos agrícolas, mas também gases, ácido e pó de carvão vegetal em produtos comerciais. O bio-óleo é o principal deles. Trata-se de um combustível de origem vegetal capaz de substituir o óleo combustível e o diesel. O processo de produção desses bio-óleo recebe o nome técnico de pirólise rápida com tecnologia de leito fluidizado borbulhante. Ou seja, matérias-primas como o bagaço da cana-de-açúcar, a serragem da madeira e resíduos da agricultura (cascas de árvores, de arroz, de café e até capim) são processadas em circuito fechado de combustão. Ali, são queimadas e degradadas e se transformam em vapor. Para entender melhor, imagine uma usina de cana-de-açúcar. As caldeiras onde são queimados os resíduos da cana produzem vapor. Parte desse vapor é usada na produção de açúcar. A outra, vai para uma máquina, que transforma a energia térmica em energia mecânica e, por meio de um gerador acoplado ao equipamento, produz energia elétrica. "A diferença entre esse vapor e o de uma panela de pressão utilizada pela dona de casa é que o vapor da caldeira deve estar superaquecido e precisa obedecer a parâmetros de operação, controlados com tecnologia. Diferente de uma panela de água fervendo, onde o vapor não será utilizado para outro fim", diz um dos sócios da empresa, Edgardo Olivares Gomes. APROVEITAMENTO TOTAL De acordo com o pesquisador, por meio da pirólise é possível obter bio-óleo, carvão fino e gás. O primeiro é o principal produto, com até 70% de rendimento: a cada 100 quilos de bagaço de cana-de-açúcar são produzidos 70 quilos do bio-óleo. Além de ter potencial para substituir diesel ou outros combustíveis fósseis, o produto pode ser usado na indústria alimentícia, na construção civil como aditivo para a fabricação da argamassa, ser aplicado como fertilizante ou substituto de pesticidas químicos na agricultura. "Ele substitui o fenol derivado do petróleo na fabricação de resina", afirma Gomes. "Uma tonelada de fenol custa cerca de US$ 900, enquanto uma tonelada de bio-óleo sai, em média, por US$ 100, sem falarmos em produção em escala industrial, o que tornaria o produto mais barato" completo. A empresa possui uma planta piloto em Piracicaba e está realizando testes com a palha da cana-de-açúcar como matéria-prima (leia texto nesta página). Segundo Gomes, a pirólise é uma tecnologia nova no Brasil. "Esse é o processo mais simples para a obtenção do bio-óleo", diz. Para o estudo e desenvolvimento dessa tecnologia foram feitas parcerias com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). De acordo com dados da Bioware, existem no mundo cerca de 30 grupos que estudam esse método. A combustão ainda resulta na produção de um pó de carvão, que corresponde a 20% da biomassa processada. Com o mesmo poder calórico do carvão comum, esse pó pode ser transformado em pequenos pedaços, para queima em churrasqueiras, como o carvão vegetal. Gomes ressalta que 100% da matéria-prima é aproveitadas, pois até mesmo os gases liberados no processo de pirólise são utilizados. Eles é que vão alimentar as caldeiras das usinas de cana, por exemplo. "Isso agrega valor ao produto", salienta o pesquisador.