Notícia

Inovação Unicamp

Empresa de venture capital associa-se à Fapesp para financiar

Publicado em 16 julho 2007

No dia 2 de julho, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciou que está recebendo propostas para apoiar a comercialização de produtos desenvolvidos por empresas já participantes do PIPE — o programa da agência para inovação na pequena empresa. Na história de dez anos do programa, esta é a segunda vez que uma chamada assim acontece; e, desta vez, há outra novidade: a presença, como co-financiadora, da Imprimatur Capital, empresa internacional de venture capital com sede em Londres e que acaba de se estabelecer no Brasil. O convênio que formaliza a parceria informa que a Imprimatur auxiliará a Fapesp "na identificação, avaliação, comercialização e financiamento" dos projetos a ser selecionados.

A empresa de venture capital investirá até R$ 6 milhões nos projetos selecionados; a Fapesp investirá outros R$ 6 milhões, repassados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) — em dois anos.  O prazo para apresentação de propostas é 15 de agosto e o processo de seleção — que incluirá entrevistas com representantes das empresas — termina em 28 de outubro, com a divulgação da lista de selecionadas.

"Temos conversado com várias empresas de venture capital e a primeira que aceitou fazer parceria com a Fapesp em co-financiamento foi a Imprimatur", afirma o diretor científico da fundação, Carlos Henrique de Brito Cruz. A experiência internacional e a rede de contatos internacionais da empresa foram itens valorizados pela Fapesp, que quer motivar as firmas selecionadas a ser empresas internacionais. "A Imprimatur também se distinguiu pela familiaridade com o mundo da ciência, por ter uma estratégia de ganhos a prazo longo que valoriza a propriedade intelectual e leva em conta o método da ciência e de seu avanço", completa Brito. Ele destaca ainda a existência de um Conselho Científico na Imprimatur. "Não conheço nenhuma empresa de venture no Brasil que tenha um Conselho Científico para ajudar a avaliar e desenvolver as oportunidades", observa.


Os termos da chamada

Conforme explica Mauro Zackiewicz, diretor da área de engenharias da Diretoria Científica da Fapesp e responsável por atender as empresas interessadas nesse edital, são três modos diferentes de financiamento: só a Fapesp entraria com o recurso, e nesse caso seria um contrato de auxílio à pesquisa; Fapesp e Imprimatur poderão fazer o aporte de recursos, e aí seria um mix de auxílio à pesquisa, vindo da Fapesp, e de dinheiro da empresa de venture capital; ou apenas um projeto que requeira capital da Imprimatur. "Damos preferência a projetos do segundo tipo", afirma ele. O tipo específico de financiamento será decidido depois da análise das propostas pela Fapesp e pela Imprimatur. No caso de projetos que envolvam apenas recursos da Fapesp, o máximo a ser financiado é R$ 250 mil. Já na modalidade que utilizaria a parceria Fapesp-Imprimatur, pode-se chegar a até R$ 500 mil.

Além de financiar o projeto, a Imprimatur pode fornecer serviços de apoio sem custos, como pesquisa de mercado para determinar as aplicações e setores de mercado mais apropriados para a tecnologia; planejamento de crescimento estratégico e de negócio; modelagem financeira e de receita; identificação e recrutamento de gerentes, quando solicitado; introdução a conexões e mercados internacionais; e apoio na identificação e obtenção de novos financiamentos.

A Imprimatur passará a ser sócia da empresa, podendo ter de 40% a 60% de participação acionária como contrapartida ao investimento em dinheiro e à realização dos serviços de apoio. Propriedade intelectual que já exista ou venha a existir será da empresa financiada, uma vez que a Imprimatur será participante do patrimônio da firma. Se a Imprimatur obtiver benefícios decorrentes do financiamento, reembolsará à Fapesp até 30% do lucro obtido como um prêmio pela propriedade intelectual.


Sobre a Imprimatur

Além da sede em Londres, a Imprimatur tem escritórios em Cingapura, que opera nos países asiáticos do Pacífico; em Hong Kong, com foco na China e no norte da Ásia; na Nova Zelândia; em Riga, na Lituânia, operando nos países do Mar Báltico; em Kiev, na Ucrânia, que atende à Europa Oriental e Central; e agora também no Brasil. A instalação da empresa já causou uma troca de posições: Rosana Ceron di Giorgio deixou a Diretoria de Propriedade Intelectual e Desenvolvimento de Parcerias da Agência de Inovação da Unicamp para ser a responsável pela operação da Imprimatur, que terá escritório em Campinas (SP). "Agora, vou ter dinheiro para financiar start-ups", disse Rosana, informalmente, a Inovação. Diógenes Feldhaus, engenheiro mecânico e ex-funcionário da fabricante de compressores Embraco, assumiu seu lugar na universidade.

Quem negociou a parceria com a Fapesp na Imprimatur foi a paulistana Lígia Quaresma Cardoso, responsável por estruturar as operações da empresa inglesa na América do Sul. Lígia concedeu a seguinte entrevista a Inovação, por e-mail:

No que a Imprimatur difere de outras empresas de capital de risco?

É uma empresa internacional de investimentos com sede em Londres, que opera com recursos próprios e cujo foco operacional está em 'early stage IP equity'.  Nosso modelo de negócios está baseado em relações de longo prazo com universidades de primeira classe e institutos de pesquisa em todo o mundo, trabalhando junto a eles e ajudando-os a identificar, avaliar e comercializar mais efetivamente sua propriedade intelectual. A empresa fornece o capital para o investimento inicial na propriedade intelectual, e também suporte técnico à gestão e comercialização. Trabalhamos em conjunto com os fundadores da start-up para construir e incrementar o potencial de crescimento. Investimos na primeira fase e continuamos apoiando as empresas ao longo de seu crescimento; conforme necessitem, buscamos investimento adicional. A Imprimatur estará aberta a co-investimentos com investidores brasileiros que desejem participar em estágios de capitalizacão posteriores. Por privilegiarmos uma fase mais inicial de investimento, trabalhamos próximos às universidades parceiras e outras organizações de pesquisa com perspectiva de longo prazo. 


Por que decidiram investir no Brasil?

Hoje os desafios de comercialização e capitalização em P&D e o direcionamento à inovação se tornaram focos estratégicos de crescimento em países emergentes e também nas economias mais desenvolvidas. O Brasil é um país com uma história de excelência científica. Muitas universidades e institutos de pesquisa brasileiros são reconhecidos internacionalmente. As instituições de pesquisa vêm exercendo o papel de 'fábricas de inovações' por décadas, mas por várias razões não haviam se dado conta do potencial dessas tecnologias em termos de comercialização. Ultimamente esse assunto vem chamando a atenção e tornou-se prioridade para o governo e para universidades. Existe um entendimento geral de que há um 'early stage funding gap' no Brasil. A Imprimatur investe justamente na fase embrionária. Poucos investidores operam desse modo. Por isso, pretendemos ajudar a preencher uma lacuna importante oferecendo capital e assistência aos negócios durante o período inicial, e também introduzindo a empresa em nossa rede internacional de contatos. Estamos comprometidos a operar no Brasil a longo prazo. Não queremos apenas visitar o país e exportar a tecnologia. Desejamos criar empresas brasileiras (spin-outs) com potencial de crescimento internacional e trazer estas tecnologias para os mercados internacionais. Por essa razão, estamos desenvolvendo parcerias a longo prazo com várias universidades; criamos nosso escritório de forma que possamos trabalhar próximos aos novos parceiros a fim de ajudá-los a organizar e avaliar as suas tecnologias; e contratamos uma pessoa altamente experiente, Rosana Di Giorgio, para administrar nosso negócio no Brasil.


Como a empresa chegou à Fapesp? Ela já fez parcerias semelhantes em outros países?

Pesquisamos o ambiente fomentador de inovação no Brasil e a Fapesp é peça fundamental neste contexto. Nas conversas com a fundação, ficou evidente que poderemos agregar valor ao programa PIPE. Trabalhamos com uma gama de parceiros e agências em outros territórios. Mantemos cooperação com instituições públicas, tais como as administrações regionais em algumas partes da Rússia. Temos obtido resultados muito bons para nossos parceiros ao co-investir em fundos públicos que apóiam a inovação, tais como o Nesta do Reino Unido e os realizados pela Fasie na Rússia. A Fapesp está claramente comprometida em apoiar a inovação no Estado de São Paulo e região. É muito bom poder trabalhar com uma instituição que tem os olhos no futuro.

A empresa tem um conselho científico. Qual o papel dele?

O conselho nos ajuda a identificar tecnologias das quais a indústria já necessita hoje ou para as quais existe uma potencialidade futura; a efetuar a completa avaliação técnica e científica da tecnologia identificada; e a trazer a tecnologia para o mercado por intermédio de sua rede de contatos e seu envolvimento pessoal.