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Empresa brasileira quer vender tratamento oncológico 80% mais barato

Publicado em 21 dezembro 2018

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Uma empresa brasileira planeja lançar uma modalidade de tratamento contra o câncer que custa apenas um quinto do que é cobrado hoje.

O plano, que está em andamento há alguns anos, é fazer uma versão própria e com estrutura distinta de moléculas de sucesso de grandes farmacêuticas como a Bristol Myers-Squibb (BMS), dona do Opdivo (nivolumabe) e do Yervoy (ipilimumabe), e da MSD (Merck, nos EUA), proprietária do Keytruda (pembrolizumabe).

As alternativas são estudadas pela Recepta Biopharma, empresa que nasceu da junção de cientistas ligados ao Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer e empresários, e que é voltada ao desenvolvimento dos chamados anticorpos monoclonais -moléculas cuja nomenclatura termina em “mabe” ou “mab”, de “monoclonal antibody”, em inglês.

Anticorpos monoclonais têm estrutura semelhante aos anticorpos produzidos pelo organismo de diversos animais, que têm como função geralmente atacar moléculas presentes em organismos ou estruturas invasoras. No caso, porém, os anticorpos monoclonais são fabricados para atacar uma região específica de um determinado alvo, como um ímã que se gruda à parte metálica de um objeto.

No caso do ipilimumabe, o alvo é uma estrutura que recebe o nome de CTLA-4. Já o alvo do nivolumabe e do pembrolizumabe é o chamado PD1.

Tanto o CTLA-4 quanto o PD1 são proteínas presentes em células de defesa e que normalmente têm o papel de frear a ação do sistema imunológico do organismo, impedindo reações indesejadas e que podem desencadear doenças autoimunes (como artrite reumatoide, lúpus e doença celíaca).

Só que cientistas descobriram há alguns anos (e o achado rendeu o Nobel de Medicina de 2018) que ao atrapalhar o funcionamento normal dessas proteínas era possível melhorar a resposta do sistema imune contra tumor, aumentando a chance de remissão e prolongando a vida de pacientes com câncer.

Um dos grandes problemas no momento é o acesso a essas drogas. Para um paciente de 80 kg, por exemplo, elas podem custar R$ 400 mil por ano aos cofres públicos -no caso, muitas vezes o acesso se dá por via judicial e alguns tratamentos podem durar dois anos.

Se tudo der certo com os estudos de suas moléculas anti-PD1 e anti-CTLA-4, a expectativa da Recepta é lançá-las no mercado nacional nos próximos anos com valor de até 20% das demais.

Para desenvolvimento desses medicamentos, além do financiamento da Finep e do BNDES, hoje sócias da Recepta, e de dinheiro para pesquisa de agências como CNPq e Fapesp, houve parcerias com universidades como USP e Unifesp e com instituições estrangeiras, como a empresa de biotecnologia Agenus, que está testando nos EUA as moléculas. O primeiro alvo é o câncer de colo de útero.

Pelo acordo, foram cedidos à Agenus os direitos de comercializar a droga fora do Brasil, e a empresa americana tem por obrigação conduzir os testes pré-clínicos (em células e em animais) e clínicos iniciais, ou seja, quando são verificadas a toxicidade da molécula e a dosagem adequada (em pacientes saudáveis). Havendo lançamento de fato, a empresa brasileira receberá royalties sobre as vendas.

Em oito pacientes que participaram dos testes, duas tiveram melhora e em outras duas a doença não progrediu, o que pode ser descrito como 25% de eficácia e 50% de benefício clínico.

O resultado preliminar (voluntárias ainda serão recrutadas), apresentado recentemente no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, deixou empolgado o diretor-presidente da Recepta, o físico Fernando Perez, especialmente tendo em vista que tratamentos não cirúrgicos para a doença -empregados em casos avançados- são muito pouco eficazes, com respostas em menos de 15% das pacientes, nos melhores casos.

Na verdade, explica Perez, alguns ensaios clínicos atualmente são de fase 1/2, ou seja, concomitantemente já é possível recrutar pacientes para tentar obter informações sobre segurança, dosagem ideal (isso em voluntários saudáveis) e até mesmo de eficácia contra a doença (em pacientes que já tentaram, sem sucesso, outras abordagens terapêuticas).

Nesses casos, a droga pode chegar ao mercado logo na sequência, sem passar necessariamente pela fase 3, geralmente a última antes do lançamento propriamente dito, feita com centenas ou até milhares de pacientes.

“As agências fazem isso como forma de responder a necessidades de saúde da população. Não dá para ficar sentado em um arcabouço regulatório”, diz o físico, que almeja trilhar um caminho regulatório mais ágil que o convencional.

A meta agora é realizar testes com pacientes brasileiras. No momento, a documentação aguarda aprovação na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Uma das causas mais importantes de câncer de colo de útero, que atinge 16 mil brasileiras ao ano, é o HPV, lembra a diretora médica da Recepta Sonia Dainesi. “As pessoas têm que se vacinar, mas o tempo necessário para observar a redução nos casos de câncer é de décadas, de 20 a 30 anos. Muitas mulheres ainda vão ter a doença, e elas vão precisar de tratamento.”

A iniciativa é bem recebida por diversos oncologistas, entre eles Gilberto Lopes, professor da Universidade de Miami e editor-chefe do periódico científico Journal of Global Oncology.

“Vejo com muito bons olhos uma companhia de biotecnologia brasileira desenvolvendo uma combinação de inibidores de pontos de controle imunológico contra o câncer cervical uterino. É uma doença prevalente no território nacional, em especial em comunidades carentes, e ao redor do mundo. O desenvolvimento dessas moléculas, no entanto, é longo e ainda há inúmeras barreiras a serem vencidas”, diz.

A Recepta planeja também iniciar testes contra linfoma e melanoma. Esse câncer de pele é um dos que melhor respondem às terapias anti-PD1, com taxas de sobrevida que podem superar os 60% após cinco anos (considerando uma combinação de anticorpos, de acordo com projeções recentes), ao passo que esse mesmo índice para os tratamentos convencionais, como o que se vale do quimioterápico dacarbazina, chega a 6%.

Já para o linfoma do tipo Hodgkin, espera-se gerar uma alternativa para tratar os 20% que não respondem bem aos tratamentos convencionais, como transplante de medula e quimioterapia, explica Perez.