Notícia

Gazeta Mercantil

Emprego de novas tecnologias tem de ser eficaz

Publicado em 26 maio 1997

Por The Economist
"Construa uma ratoeira melhor, e o mundo abrirá um caminho até sua porta". O velho ditado continua válido. As empresas investem consideravelmente em novas tecnologias, desenvolvendo novos produtos ou novos métodos de produção. Muitos governos oferecem incentivos fiscais para estimular as empresas privadas a gastar mais com pesquisa è desenvolvimento (P&D). A justificativa econômica é simples: incrementando a produtividade e, desse modo, elevando o padrão de vida, P&D trazem benefícios para a sociedade como um todo, além de beneficiar as próprias empresas que os patrocinam. Na falta de apoio do governo, as empresas realizam menos P&D do que seria ótimo para a sociedade como um todo. Ciência e engenharia são atividades importantes, mas seu papel tem sido superdimensionado. O relatório intitulado "Technology and Industrial Performance", recém-publicado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), conclui que a invenção e a exploração comercial inicial de novos produtos e processos são menos importantes do que a rápida e ampla difusão dessa tecnologia entre a população. Apesar da enorme simpatia do público pelos cientistas que se dedicam à descoberta, à pesquisa, em si, talvez isto não seja suficiente para garantir o crescimento econômico. A maioria dos governos, sugere a OCDE, não compreendeu e não avaliou corretamente o papel da tecnologia em sua economia. Tipicamente, eles usam os gastos para P&D como porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) para medir a sofisticação tecnológica de seu país. E para incentivar o desenvolvimento tecnológico, os governos canalizam recursos para determinadas empresas em setores considerados de "P&D intensivos", como o de equipamentos para computação, aeroespacial e farmacêutico. Mas esta estratégia é falha, porque ignora o fato de que muitas empresas buscam o desenvolvimento tecnológico adquirindo equipamentos de capital de P&D intensivos, em vez de financiar laboratórios de pesquisa. Isto é válido particularmente no setor de serviços. A pesquisa de processos mais rápidos para os computadores processarem dados pode ser realizada por um pequeno grupo de fabricantes de alta tecnologia, mas os usuários destes equipamentos podem perfeitamente ser operadores de bônus com exigências específicas e consideráveis no processamento de dados. Nas nações ricas como um todo, os transportes aéreos, as telecomunicações, o varejo, o sistema de saúde, o setor bancário e de seguros investem 6% de sua produção em tecnologia da informação (TI), duas vezes mais do que as indústrias gastam. Para avaliar o impacto real dos gastos com P&D, a OCDE criou uma nova medida, "intensidade total da tecnologia", que se combina com os gastos diretos em P&D de uma indústria com a tecnologia embutida em equipamentos, como computadores, adquiridos de outros setores. Ocorre que esta "tecnologia adquirida" resulta pelo menos tão significativa quanto P&D diretos na maior parte das economias. Nos EUA, P&D, segundo a avaliação convencional, caíram em relação à produção das duas últimas décadas, mas isto foi compensado pelos significativos investimentos em sistemas de computação (ver gráfico). Os gastos com P&D nas empresas japonesas representam aproximadamente a mesma proporção da produção nos EUA; mas, se forem levados em conta os sistemas de informação e o maquinário controlado por computador, sua intensidade total de tecnologia é maior do que a dos EUA. O aumento da sofisticação tecnológica no Japão, nas duas últimas décadas, se deveu principalmente ao fato de que as indústrias passaram a usar mais equipamentos de alta tecnologia, e não a investimentos maiores em P&D. A OCDE constatou que, em muitos setores, a compra de tecnologia exerce um impacto maior sobre ó crescimento da produtividade do que os gastos diretos com P&D pelas próprias indústrias. Os gastos com P&D na indústria aparentemente explicam grande parte do crescimento de sua produtividade. Entretanto, no setor de serviços, a difusão da tecnologia é muito mais importante. Segundo estimativas da OCDE, a taxa de retorno dos "P&D embutidos", isto é, a aquisição de equipamentos de P&D intensivos, foi em média de 190% na década de 80, em comparação com 130% na de 70. Mais especificamente, o crescimento da produtividade nos transportes, telecomunicações e serviços financeiros se beneficiou em grau considerável com a compra de computadores e equipamentos de telecomunicações. O estudo da OCDE contém também uma constatação preocupante para os que consideram que gastos inadequados com P&D podem significar um sinal de debilidade econômica. A compra de P&D estrangeiros, sob a forma de computadores e maquinário importados, aparentemente proporciona uma taxa de retorno mais elevada do que a tecnologia adquirida internamente. Isto sugere que os esforços de um país para dominar um campo específico de P&D pode ser contraproducente; o país poderá lucrar muito mais comprando no exterior produtos com elevado teor de P&D. A maioria dos países, principalmente os menores, parece ter aprendido isto, e a parcela de tecnologia obtida mediante os bens importados em geral cresce com o tempo. Estas conclusões sugerem a necessidade de uma reformulação das - estratégias do governo na área de tecnologia. A estratégia em matéria de tecnologia tradicionalmente se limita a estimular a inovação. Se, entretanto, a difusão é tão importante para a economia quanto a inovação, os governos terão de se preocupar em adotar novas medidas a fim de estimular a rápida difusão dos conhecimentos. A implicação estratégica mais importante é talvez que a promoção da competição pode ser tão fundamental quanto financiar a pesquisa. Se as empresas que desenvolvem novas tecnologias detêm poder de monopólio, podem cobrar preços mais altos e, desse modo, garantir para si a maioria dos benefícios da inovação. O preço elevado diminuirá o ritmo da adoção da nova tecnologia em outros setores da economia, retardando os ganhos de produtividade que a nova tecnologia proporcionaria. Mas não é apenas entre as empresas de alta tecnologia que a falta de concorrência pode ter conseqüências indesejadas. Se os varejistas e os bancos não enfrentarem um ambiente intensamente competitivo, talvez se sintam pouco estimulados a adotar nova tecnologia, e isto tenderá a retardar a melhoria da produtividade em toda a economia. Finalmente, a importância da tecnologia importada como canal de difusão tecnológica ressalta as vantagens de um regime aberto para o comércio e os investimentos. Os países menores dependem das importações em mais da metade de sua tecnologia adquirida. Ajudar a indústria nacional a desenvolver novos produtos, restringindo as importações de maquinário de alta tecnologia, simplesmente provocará uma elevação dos custos para outras empresas nacionais, principalmente no setor de serviços, que exigem o melhor equipamento disponível a fim de melhorar sua produtividade.